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RIO DE JANEIRO ► Para prevenir, é preciso reconhecer: o Rio de Janeiro é uma área de grande risco geológico

13 abr
Nós crescemos ouvindo aquela história de que no mundo todo acontece tudo de ruim em matéria de intempéries climáticas: terremotos, maremotos, furacões, tornados, tufões, tsunamis, nevascas, erupções vulcânicas… Mas nada disso acontecia no Brasil. Ainda engulíamos a piadinha que dizia que não precisaria Deus prover nossa terra de catástrofes naturais, pois bastaria o povinho que ele colocaria aqui. E crescemos acreditando nisso, mesmo com a (História assim, com H maiúsculo) nos provando que a realidade não é bem essa. A recente tragédia deste abril de 2010 no Rio de Janeiro está aí mesmo para nos lembrar disso.

Fico aqui pensando: como pode uma mentira – ou  uma inverdade, vá lá – tão grande ser disseminada por tanto tempo pelos formadores de opinião? Só para ficar em um exemplo óbvio, há mais de século o Nordeste sofre com a seca, uma imensa tragédia para grande parte de nossa população. Será que nunca repararam nisso? Ou a parte da população afetada não conta para os que têm o poder de contar a história (esta aqui, com H minúsculo, pois é uma história muito mal contada…)?

Como uma espécie de castigo pela falta de humildade em reconhecer suas mazelas, os Céus parecem ter se revoltado e começado a despejar recentemente um pouco de tudo sobre o território brasileiro em curtos espaços de tempo. Enchentes, secas, ciclones e até tornados e terremotos têm ocorrido por aqui, algo nunca imaginado – ou comentado. Será que já ocorriam, mas não havia o interesse de divulgá-los? Hoje, como sabemos, é praticamente impossível manter uma verdade oculta. mas em tempos passados…

Só aqui no Rio de Janeiro, a História (a de verdade) registra dezenas de eventos recorrentes de chuvas torrenciais que castigam a terra e fazem o povo sofrer. Sempre foi assim. De tempos em tempos a cidade sofre com isso. É como uma região sujeita a abalos sísmicos: você sabe que em meio a vários choques fracos, haverá periodicamente um terremoto de grandes proporções.

Se a nossa imprensa sempre tão oportunista, sensacionalista e interesseira honrasse um  tal de compromisso social que deveria ser inerente aos profissionais do meio, talvez não fôssemos sempre pegos desprevenidos  e a cidade, cobrada, certamente poderia estar melhor preparada para enfrentar essas mazelas.

Não que estar preparada signifique não haver danos. A Califórnia está “superpreparando-se” para o chamado Big One, um tremendo terremoto próximo a inimagináveis 10 pontos na escala Richter que sabe-se que mais cedo ou mais tarde – acredita-se até que mais cedo – a atingirá. Mesmo com toda a expectativa e preparação para o choque, ainda assim a região será destruída. O Japão é todo estruturado para suportar tremores de terras. De tão preparados, até pouco de suas estruturas têm sofrido, muito menos pessoas. Mas, claro, até um certo nível de força do abalo. Não há como deter a força da natureza. Mas o que a prevenção humana pode fazer de suma importância é ajudar a preservar vidas, minimizar o número de vítimas.

Aqui no Rio de Janeiro é assim. De tempos em tempos uma grande catástrofe climática abala a cidade. Mas aqueles que podem tomar alguma providência não parecem preocupados com isso. O importante é divulgar que aqui é a Cidade Maravilhosa, e não preocupar-se com planos de emergência para quando ocorrerem – e vão continuar ocorrendo – essas grandes e impiedosas pancadas de chuva. Elas sempre caem. Nas décadas de 1840, 1880, 1940, 1960, 1990, hoje… Caem e matam como se fossem algo surpreendente e a culpa apenas das autoridades de então.

Mais que culpa das autoridades ao longo de todas essas décadas, a culpa é de quem nunca cobrou dessas autoridades medidas cabíveis para minimizar o impacto dessas chuvas inevitáveis. Hoje, abrimos os jornais e ligamos a TV e encontramos uma série de especialistas em clima, geologia, encostas… Cada um com uma solução mais simples que a outra. Ora, onde estavam todos ANTES? Esses também são culpados, pois se têm as soluções, por que não se fizeram ouvir? Não faltam meios para isso. Pecam pela omissão. E o que dizer da cobertura midiática? Como sempre, preocupados em vender – e sensacionalismo vende muito -, os órgãos de imprensa parecem promotores do Apocalipse cobrando mundos e fundos das autoridades. Mas… espera aí: não seria melhor para o povo se esses órgãos de imprensa, em vez de esperar a porteira ser arrombada, ajudassem a colocar um baita cadeado antes? Cobrassem antes? Alguém já viu alguma campanha de imprensa pela prevenção contra chuvas torrenciais? Por que eles também só se preocupam com o assunto após as coisas acontecerem?

Todos somos culpados, começando de cima, pelas autoridades, por motivos óbvios, pois deveriam planejar antes das coisas acontecerem, até nós, povo sujo e mal educado, que insistimos em jogar todo tipo de lixo nas ruas, canais e rios da cidade, desmatar encostas, construir em terrenos íngremes ou inseguros, para depois sofrermos com as consequências desses atos. Mas a culpa também passa – e muito – por essa imprensa hipócrita e oportunista, que sempre tem solução para tudo em todas as áreas… mas só depois que as coisas acontecem.

Entrevistando um geólogo, um repórter de TV (desculpem, não lembro quem nem que canal) resumiu toda a explicação técnica para o caos: “Então o Rio de Janeiro não poderia ser fundado onde foi?” Pois é, mas isso não vai mudar. A cidade não vai sair daqui. Cabe às autoridades e aos cidadãos cariocas cuidarem melhor dela.

Este post é ilustrado por capas e páginas internas do extinto jornal Ultima Hora após as grandes e terríveis chuvas de janeiro de 1966 e 1967, disponíveis no Arquivo Público do Estado de São Paulo. Apenas para lembrar que as consequências estão aí, hoje, como sempre estiveram, mas as causas só são lembradas após a tragédia consumada.

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Licença Creative Commons
Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

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Publicado por em 13 de abril de 2010 em Rio de Janeiro

 

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