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CINEMA ► “Apenas Uma Vez” – Um pequeno drama musical delicado, econômico e irresistível

16 jul

O blogueiro tentou encaixar um “bom, bonito e barato” no título do post, mas não faria justiça ao que é o filme. Então troquei bonito por curto e inverti a ordem de modo que mais se adequasse ao que realmente achei de “Apenas Uma Vez”. Ficou “Curto, barato e bom, muito bom”. Não gostei. Acabei com o título aí de cima. Não achei muito inspirado, não era bem isso que eu queria, me fugiram as palavras, mas ao menos me pareceu fiel ao que quero escrever.

O lance aqui é registrar a ótima surpresa que foi zapear com o controle remoto e encontrar esse pequeno grande filme à disposição, ali, bem na hora em que eu procurava alguma coisa legal para assistir. Caí no Cinemax, onde se consegue encontrar filmes de fora da em geral medíocre produção hollywoodiana.

“Apenas Uma Vez” retrata o casual encontro entre um compositor que toca nas ruas de Dublin nas horas vagas de seu trabalho na loja de conserto de aspiradores de pó do pai viúvo e uma imigrante tcheca, pianista, que faz o que pode para sustentar a filha e a mãe: vende flores nas ruas, faz faxina em residências etc.

O clima irlandês ajuda – e muito. Não é uma realidade maquiada. Passa a ideia que costumo ter de um povo operário, que precisa lutar muito para conseguir as coisas. Definitivamente, nada a ver com o glamour de regiões europeias mais abastadas. A fotografia, sem estúdio, toda em locações, talvez até pela rudeza da realidade, é muito bem adequada. A interpretação dos protagonistas, o cantor e compositor irlandês Glen Hansard (vocalista e guitarrista da banda The Frames) e a jovem compositora e multi-instrumentista tcheca Markéta Irglová, é outro ponto alto. Por não serem atores de formação, passam – a mim, ao menos, passaram – uma credibilidade aos personagens que facilmente poderia ser perdida por profissionais que tendem a superatuar em papéis que pedem o oposto: discrição e comedimento para que o personagem sobressaia. Hansard e Irglová atuam no tom certo. E a química entre os dois é excelente. O roteiro é comedido, sensato, não há exageros (há algumas tentações que o diretor John Carney consegue evitar). A direção é discreta e o uso da câmera movendo-se como em documentários (aquelas imagens em que a câmera move-se daqui para ali, engatando com um zoom dando close em alguém) gera maior identificação e empatia com a história. Fica parecendo mais real.

Aí você pega os ingredientes acima, bate no liquidificador e tempera com uma grande dose de música de alta qualidade e pronto: temos um filme envolvente, que chamei de pequeno grande filme porque tem apenas uma hora e meia, custou módicos 150 mil dólares para ser feito e é muito bom. Prova de que não é preciso gastar dezenas de milhões de dólares e três horas de material editado para exibir algo que preste no cinema – muito pelo contrário: normalmente, muito dinheiro e longa duração costumam ser maquiagem para cobrir falta de roteiro, de história, de interpretação… de tudo. Com sua quase média metragem, “Apenas Uma Vez” acaba deixando aquele gostinho de “quero mais”, de “já acabou?”, algo que o carnavalesco Fernando Pamplona sacou nos seus tempos de Salgueiro e implantou nos desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro nos anos 1960.

Pequena digressão carnavalesca: até Pamplona, as escolas passavam, passavam, passavam… E quanto mais tempo na pista, melhor, porque isso até servia para prejudicar a escola seguinte. Pamplona impôs no Salgueiro um desfile mais rápido, quase no ritmo de um bloco de embalo, passando rápido pela avenida para deixar saudade, o tal gostinho de “quero mais”, em oposição a um eventual “ainda não acabou?”. Ou talvez como diz o trecho de um poema de Ferreira Gullar: “E a escola passa e me leva e me deixa. / E dá vontade de chorar: / chorar porque passou linda / e chorar porque já passou.”

Voltando ao cinema, a trilha sonora é irresistível, mas faltou o canal legendar as canções, pois quase todas revelavam histórias vividas pelos protagonistas. Apenas algumas foram legendadas. As cenas musicais são de extremo bom gosto e atraentes. O entrosamento de Hansard e Irglová também aqui é ótimo. Depois de ver o filme, a primeira vontade que tive foi de sair atrás do CD.

Uma curiosidade: eu tinha certeza que a cara do Glen Hansard não me era estranha. A cara e alguns trejeitos lembravam um pouco o Bryan Adams, mas não era isso. Uma pesquisa básica no Google ajudou: Glen Hansard é o cabeludo guitarrista Outspan Foster, recrutado por Alan Parker para o elenco musical quase amador do excelente “The Commitments – Loucos pela Fama”. Como são as coisas: sábado passado, estava num shopping com minha esposa quando insisti para passarmos nas lojas de DVDs porque estava com desejo de comprar o filme… “The Commitments”! Do nada me deu essa vontade. Eu disse bem assim: “Estou com desejo de comprar o DVD de “The Commitments.”

Não achei o DVD de “The Commitments” (acabei comprando o clássico eterno e sempre ótimo “Cantando na Chuva”), mas acabei encontrando essa agradável surpresa, “Apenas Uma Vez”, que saciou minha vontade de assistir a um filme musical de conteúdo e qualidade. Muito boa qualidade. Adoro quando isso acontece: achar um filme assim quase que por acaso. Faz valer a fortuna que a gente paga por uma assinatura de TV a cabo com todos os canais de cinema.

A propósito: recomendo também o CD com a trilha de “The Commitments”. Felizmente, esse já tenho há muito tempo.

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Publicado por em 16 de julho de 2010 em Cinema, Televisão

 

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