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POLÍTICA ► “E agora, Marina?”, artigo de Mair Pena Neto

05 out

Se não me falha a memória, Mair Pena Neto foi um dos jornalistas convidados para ser entrevistado por minha turma na faculdade de jornalismo, lá pelo final dos anos 80. Ele ainda era um jovem jornalista e eu, um estudante.

Mas lembro ter sido uma entrevista muito legal, por isso guardei o nome do cara com certa admiração.

Aí embaixo vai o texto dele recém-publicado no site Direto da Redação, que passa a fazer parte da minha lista de favoritos. O link original do texto é este aqui.

*** *** ***

Publicado em 04/10/2010
E agora Marina?

Nas primeiras eleições presidenciais pós-ditadura, em 1989, quando perdeu para Lula o direito de disputar o segundo turno contra Collor, Brizola, apesar do enfrentamento direto que teve com o petista na primeira fase do processo, não hesitou sobre que lado tomar. Foi quando cunhou a frase de que seria fascinante fazer a elite engolir o “sapo barbudo” e apoiou Lula, transferindo alguns dos milhões de votos que teve no primeiro turno.

Em um momento crucial para o país, que elegia seu primeiro presidente após 25 anos de ditadura, não havia meio termo. Ou se estava ao lado da candidatura das forças populares, naquele segundo turno, representadas por Lula, ou se estava com as elites e o “filhote da ditadura”, como Brizola, em mais uma de suas históricas tiradas, classificou Fernando Collor. Em toda a sua trajetória política, Brizola jamais teve dúvidas ideológicas. Principalmente, no momento das grandes decisões para a vida do país.

Agora, o Brasil volta a viver uma situação de encruzilhada. O segundo turno das eleições presidenciais terá o caráter plebiscitário que Lula quis apresentar desde o início. O que estará em jogo são dois projetos antagônicos. Um, representado por Dilma Rousseff, baseado no fortalecimento do Estado e na sua capacidade de promover o crescimento com redução das desigualdades. O outro, personificado por José Serra, pró-mercado, privatista, que entende o Estado apenas como gerente e não vê sentido em programas sociais de grande alcance, como o Bolsa Família.

Novamente, não há meio termo ou terceira via. Ou é um ou é outro. É nesta hora que se pergunta se Marina Silva, responsável por levar a eleição ao segundo turno, terá a grandeza de Brizola, se irá se aproximar da direita, ou, pior ainda, se amiudará politicamente e tomará a posição conveniente e covarde da neutralidade.

Marina também está numa encruzilhada. Sua votação acima do esperado e não captada em sua verdadeira dimensão por nenhum instituto de pesquisa a alçou a um novo patamar político. E nesta nova condição, ela precisa tomar partido na completa acepção do termo.

A partir de sua decisão tomaremos conhecimento de quem é a Marina que sai dessas eleições. Se a seringueira forjada pela luta de Chico Mendes, a ex-militante histórica do PT e ex-ministra do governo Lula, que sempre participou das lutas populares ao lado das forças da esquerda, ou uma evangélica conservadora, apoiada num confuso discurso ambientalista, com mais aceitação no empresariado do que na população.

Marina, não há dúvidas, foi a maior beneficiária da sucessão de “escândalos” midiáticos e da exploração eleitoral nas últimas semanas de campanha da fé das pessoas, através da disseminação em púlpitos e pela internet de temores envolvendo aborto e união de homossexuais, onda que aproveitou sem maiores questionamentos.

Com o segundo turno, tem a oportunidade de mostrar que é bem mais do que isso e se posicionar no espectro político que sempre defendeu, comprometido com um Brasil socialmente mais justo. A neutralidade nesse momento é uma não tomada de posição e será entendida como preocupação exclusiva com um projeto político pessoal, em detrimento do que é melhor para o povo brasileiro.

*** *** ***

Achei muito bem sacada a comparação da situação de Marina Silva com a de Leonel Brizola em 1989. Mas temo que o desfecho seja algo diferente. Ao contrário de Brizola, Marina não tem sobre o Partido Verde o domínio que o velho caudilho da política tinha em relação ao PDT.

Em minha opinião, Marina Silva, por si só, sem dúvida declararia apoio à candidatura de Dilma Rousseff. Mas o PV hoje é um partido fisiologista bem à direita (não sei se existe algum Verde de direita no mundo…), com claras ligações com o PSDB e o DEM. Prova disso o imediato apoio de Fernando Gabeira (aquele que virou “peixinho” de Cesar Maia no Rio de Janeiro e por isso foi arrasado por Sérgio Cabral) a José Serra. Apoio, aliás, que ocorreu ainda durante o primeiro turno, quando Gabeira praticamente ignorou a candidatura Marina Silva.

Assim, a expectativa é que o PV leve cerca de duas semanas para declarar seu apoio formal – o que praticamente o torna nulo. Até lá, o povo que não votou em Serra ou Dilma já terá seu novo voto praticamente definido.

A situação, desse modo, mais me recorda à que envolveu o PSDB do então candidato Mário Covas, lá naquele ano de 1989 do qual Mair Pena fala.

Já naquela época, o PSDB posava de social liberal, quando a mim não enganava: já me parecia um partido de centro direita bem do poliqueiro, bem de empurrar com a barriga as decisões, agindo como se adorasse ficar em cima do muro até ver para que lado o vento soprasse.

Isso me fez criar uma expressão que virou referência entre minha turma de noitadas pós-aulas na faculdade nos anos seguintes. Como havia na esquina um bar sujo (daqueles que existem perto de toda faculdade de rua) e ao lado um prédio com um muro no qual costumávamos sentar para beber, “peessedebear” passou a ser sinônimo de ficar em cima do muro – no caso, tomando cerveja. “E aí, vamos peessedebear hoje?” Já sabíamos que era um convite para uma cervejinha no Mosca, como chamávamos o nosso pé sujo. E do Mosca o convite para “peessedebear ” se estendeu depois para os diversos muros dos bares da Urca, em especial do Garota.

Feita a digressão, volto a 1989 e ao PSDB. Ao contrário de Brizola e seu PDT, Mário Covas e o metido a moderninho PSDB ficaram enrolando, pensando, “murando”…  Até que, quando decidiram apoiar Lula, as pessoas que tinham medo do sapo barbudo já haviam optado por Fernando Collor. Daí que sempre digo que quem elegeu Collor não foi apenas a Rede Globo. Foi, também, o PSDB.

Nessas circunstâncias de segundo turno, o político decidido e coerente não tem muito que pensar. E só uma decisão rápida faz com que ele transfira a maior parte de seus votos, como Leonel Brizola fez. Quando Covas decidiu, já era.

Acredito que, num exercício de chutologia política, Marina vá liberar seus eleitores, enquanto o PV optará por Serra. Mas acho que, quando finalmente decidirem isso, já não fará muita diferença no resultado final da eleição.

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Publicado por em 5 de outubro de 2010 em Brasil, Política

 

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