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FUTEBOL ► Pelé 70 – No reino da bola existem muitas lendas, mas apenas um rei

26 out

Sem Pelé não existiria bola, sem bola não existiria futebol.

É o que acho, imagino, fantasio, devaneio… Afinal, tudo na vida tem uma razão de ser, nada é por acaso. Por que não entender, então, que a bola e posteriormente o futebol só surgiram para que existisse um rei? Pelé.

No aniversário de 70 anos de Pelé, sábado passado, pouco mais que isso poderia dizer. Mas sabe como é, estou aqui de frente ao teclado, um tempinho livre, não pago nada por letras tecladas, o WordPress é gratuito…

Pelé existiu para mostrar que o futebol pode, sim, ter um atleta que domine todos seus fundamentos. Houve apenas um, por isso ele é diferenciado. Ele é rei.

No futebol de marketing, ídolos de barro e craques (aliás, a palavra mais desvalorizada no mundo desse esporte) de mentira de hoje, já passei até da fase de rir quando mencionam na mesma linha astros da propaganda e a palavra Pelé insinuando algum termo de comparação.

Qualquer esboço de pensamento comparando Pelé a qualquer jogador que eu tenha visto jogar simplesmente me soa ridículo.

Pelé era um atleta dedicado, profissional exemplar, chutava bem tanto com a perna direita como com a esquerda, forte ou colocado, da mesma forma que cobrava faltas, de perto ou de longe. Pelé voltava para compor o meio, fugia da marcação, batia para reagir à violência com que era botinado. Pelé lançava, caía pelas pontas, tinha uma arrancada fenomenal, uma matada no peito inigualável, uma impulsão absurda, um equilíbrio insano e uma cabeçada…

Aliás, Pelé sempre ensinou: cabecear não tem mistério, é subir, olhos abertos e meter a testa na bola. E hoje, 2010, o que mais vemos são craques ditos fenomenais, diferenciados, geniais… que sequer sabem cabecear uma bola.

Pelé lançava, tocava, tabelava. Pelé treinava, corria e jogava. Não havia essa de chinelinho com o rei. Se Pelé parasse no estaleiro, a coisa era séria mesmo e não fruto de alguma… digamos… depressão contratual.

Certo ano de ouro do futebol, Pelé entrou em campo mais de 100 vezes. Menos de um jogo a cada três dias. Jogos pelo mundo todo. Todo o mundo queria ver o rei. E não falo dessa “estafante” maratona que os jogadores europeus de hoje, por exemplo, enfrentam, com suas “exaustivas” viagens de Londres a Paris, de Paris a Munique, de Munique a Barcelona, em transportes dotados de todo o conforto que o dinheiro e a tecnologia atual podem oferecer.

Pelé entrou em campo mais de 100 vezes num determinado ano viajando no que chamávamos de teco-tecos, aviões comerciais (ou não) primitivos perto do que oferece a aviação de hoje. Imaginem o que sofria o corpo de um atleta numa maratona daquelas. E Pelé jogava em todos os continentes, porque o planeta inteiro pagava para ver o rei.

Pelé e o soco no ar, marca registrada do rei

Pois Pelé nesses mais de 100 jogos marcou mais de 100 gols.

Pelé nem era centroavante. Era o chamado ponta-de-lança, o 10 que compunha o meio e chegava na área. Se fez 1.284, proporcionou provavelmente o triplo, talvez o quádruplo ou mais de gols a seus colegas, pontas e centroavantes. E Pelé jamais sequer chegou a ser o cobrador oficial de pênaltis do Santos. O Santos tinha Pepe, teve Carlos Alberto Torres, Toninho Guerreiro, Coutinho… Todo mundo batia pênaltis no Santos. Quando dava, era a vez do rei, porque o rei nunca deu chilique para cobrar pênaltis.

O rei não pedia para folgar, não faltava a treinos, chegava cedo e era dos últimos a deixar o campo. Não forçava expulsões, não sumia do clube, não chorava pedindo para ser negociado, não engordava nem se preocupava em fazer tranças no cabelo.

O negócio dele era jogar futebol com um instinto jamais visto.

Por isso Pelé é sinônimo ao mesmo tempo de bola e de futebol.

E também por isso a imagem do crioulo com a imaculada branca do Santos, 10 às costas e bola à sua mercê talvez seja um dos retratos mais perfeitos da História. Uma imagem simbolicamente perfeita. A definição da excelência de um esporte sem a necessidade de uma palavra. Pelé + a bola + a 10 = futebol.

Todos os grandes jogadores que vejo hoje, que acompanhei no passado e aqueles que pude ter o prazer de ver apenas em vídeos têm/tiveram suas limitações de fundamentos, o que não chega a ser demérito. Um só bate com uma perna, outro não finaliza de fora. Um é rei da pequena área, enquanto outro é mestre da área grande e mais um é senhor da ponta. Um não cabeceia, outro não bate faltas. Um não cai pelas extremas, outro não volta. Um não bate pênalti, outro pipoca. Um não tem velocidade, outro não tem força. Um só joga aqui, outro só joga ali, um é fera no clube, manso na seleção. Um não se encaixa num esquema, outro só joga se for assim e assado, a tática prejudica…

E o que muitos desses grandes jogadores fizeram por duas três, seis temporadas, ou mesmo ocasionalmente, Pelé fez por quase vinte anos. Muitas vezes me perco vendo vídeos com gols e jogadas de Pelé internet afora e ainda me surpreendo com o fato de um mesmo jogador possuir um arsenal tão variado.

Só Pelé dominava todos os fundamentos e tinha capacidade para quase tudo. Até no gol, quando foi necessário, ele apareceu – e bem, sem ser vazado. Por isso ele é rei. O resto é súdito.

Pelé e a bicicleta perfeita – ou quase: essa passou perto do gol, mas não entrou. Outras bicicletas, porém, encontraram as redes

Sem deixar de levar em conta que a maior parte da carreira de Pelé ocorreu num tempo em que expulsão era algo raríssimo e não havia substituições. Assim, violência virava arma de jogo: você podia tirar o craque do time adversário de campo literalmente à base de pontapés. Como Portugal fez com Pelé em 1966, na Copa da Inglaterra, botinando Pelé até que ele fosse obrigado, primeiro, a fazer número em campo, para logo depois deixar as quatro linhas.

Fora que Pelé jamais andou com seguranças, jamais deixou de atender a um repórter ou a um aceno de qualquer pessoa.

Há quem ache que Pelé não é humilde por referir-se a si na terceira pessoa. Santa ignorância. Abençoai, Senhor, aqueles que confundem humildade com subserviência e com falta de autoestima e de autovalorização.

E Pelé foi rei dos 17 anos ao fim da carreira. Mais ainda: Pelé segue rei mesmo após o fim da carreira, ao completar 70 anos.

Não à toa, é o futebolista mais bem pago pelo mercado publicitário HOJE. Não é nenhum dos craques de marketing das poderosas marcas esportivas que mandam no futebol, é o rei Pelé.

Pelé arrastou multidões nos EUA para acompanhar um esporte que não existia lá nas terras do Tio Sam. Multidões acorriam aos estádios para ver o rei jogar. Como diria a granfina de nariz de cadáver de Nelson Rodrigues, gente que nem sabia o que era futebol, o que era a bola, sabia quem era Pelé e prestava loas ao rei.

Por causa de Pelé foi criada a malvista figura do cabeça-de-área, um adversário colocado em campo apenas para vigiar os passos do rei. Dizem que foi ideia dos russos e que por isso o CCCP do uniforme soviético, na verdade, significava simplesmente Camaradas, Cuidado Com Pelé.

Um dia Pelé parou uma guerra, no outro a torcida expulsou o juiz que ousou expulsá-lo durante um amistoso e o fez voltar a campo. Certa vez o genial Nelson Rodrigues eternizou: “O que ele (Pelé) fez no Chile, outro diz, foi um escândalo mundial. Jogavam o Santos e uma equipe poderosa como a seleção da Tchecoslováquia. Diga-se que o inimigo estava jogando bem, muito bem. Pelé fez três gols, sendo que o último foi perfeito, irretocável como um velho soneto. Ele comeu toda a defesa tcheca. Ah, quando a bola entrou! A multidão quase sentou no meio-fio e começou a chorar.”

Eu vi Pelé jogar algumas vezes in loco. Os jogos que me recordo são quatro. Contra meu Fluminense, em 1972, o Flu venceu por 2 x 1. Pela mesma época, o Santos venceu o Flamengo por 1 x 0, gol de Edu, se me recordo bem. Vi o legendário jogo do “Fica!”, despedida do rei da seleção brasileira, em 1971, 2 x 2 contra a Iugoslávia. Foi o único jogo em que me recordo da minha irmã ter ido ao Maracanã ver uma partida de futebol. Esses jogos aí vi pelas mãos de meu pai. Mas que me lembre, só em 1974 vi Pelé marcar, num Santos x Vasco pelas semifinais do Campeonato Brasileiro de 1974. Meu rubro-negro tio Oliveira me levou. O Vasco venceu no finzinho por 2 x 1, mas Pelé fez um golaço de falta, uma cobrança perfeita, de lado do pé, colocando a bola com extrema força no ângulo superior esquerdo de Andrada, o goleiro do gol 1.000.

Pelé com a camisa do Fluminense

Mas o jogo que eu queria mesmo ver não pude, por motivos óbvios. Em 1978, durante uma excursão do Fluminense à África, Pelé jogou com a camisa tricolor durante um tempo do amistoso contra o Racca Rovers, clube de Naguna, na Nigéria. Melhor dizendo, Pelé vestiu a camisa branca do Fluminense. Na foto, ele aparece ali, entre o polivalente Rubens Gálaxe (à esquerda) e o lateral-direito Edevaldo. A título de curiosidade, aparecem ainda na foto, tirada durante a execução dos hinos nacionais, a partir da extrema direita do rei, o técnico Paulo Emílio, o controverso e craque lateral-esquerdo Marinho Chagas, o vigoroso zagueiro e lateral Miranda, o goleiro Renato, o atacante Gildásio, o pequeno bom de bola Arturzinho, o grandalhão zagueiro Dário (o hoje treinador Dário Lourenço), o centroavante Geraldão e outro baixinhio muito bom de bola, Gílson, o Gênio. O Flu venceu por 2 x 1, gols de Marinho e Arturzinho, mas mais que a vitória, valeu o momento eternizado do rei com o uniforme do Tricolor.

Mas para quem estranha aquela combinação acima Santos-eu-Maracanã-Flamengo-Vasco, sem ser jogo do Fluminense, o Santos era um clube grande que sabia ser grande na época de Pelé. Por isso jogava na Vila Belmiro apenas partidas de menor expressão. Grandes jogos, grandes palcos. Por isso foi campeão do mundo num Maracanã lotado mesmo debaixo de um tremendo aguaceiro. E onde o Santos de Pelé jogava, a casa enchia. Independentemente de quem estivesse em campo, o torcedor dizia presente, mesmo não sendo seu clube do coração. Assim cresceu a torcida do Santos, até diretorias futuras decidirem transformar o clube em um time de alçapão e o Santos ficar para trás em relação aos demais grandes de São Paulo.

E Pelé era um jogador tão grande quanto seus maiores desafios. Talvez por isso duas de suas mais marcantes atuações tenham sido em partidas decisivas na casa do adversário: a final do Mundial de clubes em 1962, contra o Benfica, no Estádio da Luz abarrotado (5 x 2 Santos) e a final da Libertadores de 1963, 2 x 1 de virada contra o Boca Juniors em plena La Bombonera, que recebia um público de Maracanã. Provavelmente nunca se viu um jogador encarar a Bomobonera como Pelé o fez. Pergunte àqueles argentinos que viram Pelé jogar se algum dia houve alguém como ele.

Pelé, a 10, a bola e o desespero da defesa

E nunca devemos deixar de ressaltar que a maior parte da carreira de Pelé ocorreu num tempo em que expulsão era algo raríssimo e não havia substituições. Assim, violência virava arma de jogo: você podia tirar o craque do time adversário de campo literalmente à base de pontapés. Como Portugal fez com Pelé em 1966, na Copa da Inglaterra, botinando Pelé até que ele fosse obrigado, primeiro, a fazer número em campo, para logo depois deixar as quatro linhas. Muito diferente de hoje, quando os jogadores são, felizmente, bem mais protegidos pela arbitragem, que distribui cartões amarelos (exageradamente) a torto e a direito e pode meter o vermelho para um simples posto de camisa.

Pelé só não era perfeito. Ele também errava, jogava mal, perdia gols (alguns em jogadas tão geniais que ficaram na História), o que só prova sua humanidade e desmente o grande ponta-esquerda Pepe, seu companheiro na era de ouro do clube da Baixada Santista. Perguntado sobre quantos gols fez com a camisa do Santos, Pepe uma vez respondeu que fez 405 e que por isso era o maior artilheiro da história do Santos. Quando mencionaram Pelé, Pepe disse que não contava, porque Pelé não era humano…

Para quem não tinha muito que escrever, até que estou teclando demais, Mas são apenas registros de uma lembrança do que o futebol tem de melhor a oferecer. Poderia escrever linhas sem fim sobre feitos do Atleta do Século XX. Mas vou ficando por aqui, com apenas mais uma observação.

Se o futebol existe para que um dia surgisse Pelé, sem Pelé, não haveria Fluminense e sem Fluminense eu não estaria nem aí para qualquer tipo de esporte em que um bando de marmanjos fica dando bico numa pelota redonda para colocá-la dentro de um espaço confinado por uma baliza. Visto assim, futebol é mesmo uma coisa meio idiota, não é? Pois é, só um rei para dar sentido a isso. Um rei que atende pelo nome de Pelé. A quem faço com este registro, ao mesmo tempo, a minha singela (sem pieguismo!) homenagem e o meu agradecimento pela alegria que ainda hoje me proporciona revendo suas jogadas.

Não poderia deixar de fechar o post sem um vídeo. Apenas como forma de ilustração, direto do YouTube, um pouco de Pelé, a quintessência do futebol.

PS. O título do posto é totalmente baseado na frase de abertura do divertido filme “Uma Noite com o Rei do Rock”, que dizia: “No reino do rock’n’roll existem muitas lendas, mas apenas um rei.”

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Publicado por em 26 de outubro de 2010 em Futebol

 

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