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FUTEBOL ► Ainda os títulos nacionais: o que foi postado no blog do Torero em março de 2009

20 dez

1966: Cruzeiro, campeão do Brasil

Só para fechar esse assunto de unificação dos títulos nacionais de futebol, no início do ano passado o jornalista José Roberto Torero publicou em seu blog uma série de posts sobre o assunto que achei bem interessantes e com os quais concordo bastante. Não integralmente, mas com bastante coisa que pode ser lido ali. Abaixo, reproduzo os textos. O link original é este aqui.

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25/03/2009

Unificar ou não, eis a questão

Está bem interessante a polêmica pela unificação dos títulos brasileiros.

Os contrários a ela usam dois argumentos: o nome do campeonato e a fórmula de disputa.

Quanto ao nome, lembro que o campeonato brasileiro só é chamado assim desde 1989. Antes foi Taça de Ouro, Campeonato Nacional, Copa João Havelange, outra vez Taça de Ouro, etc…

Quanto ao sistema de disputa, é mais recente ainda. O campeonato de pontos corridos começou em 2003. Antes disso tivemos uma salada de fórmulas preparada por Ticos e Tecos variados.

Enfim, sou a favor da unificação. Muitos vão dizer que é porque sou santista, e talvez, no fim das contas, seja verdade, que não tenho o sonho de ser 100% objetivo e neutro. Mas, de qualquer forma, os argumentos de Odir Cunha, o jornalista que faz a defesa da unificação, me parecem muito bons. Principalmente quanto ao valor dado a estes campeonatos à época (os vencedores eram chamados de campeões brasileiros). Abaixo, algumas manchetes (da Gazeta Esportiva, de O Cruzeiro e dois da própria Folha de S.Paulo) que comprovam isso:

(PS: Amanhã publicarei aqui alguns textos do polêmico dossiê e o leitor poderá julgar por si mesmo, sem que nós, cronistas, atrapalhemos).

Por Torero às 09h06

26/03/2009

Unificação dos títulos: taça Brasil x Copa do Brasil

(Muita gente tem argumentado que a Taça do Brasil seria, na verdade, uma antecessora da Copa do Brasil. Coloco aqui os argumentos que Odir Cunha apresentará à CBF sobre este assunto.)
Taça Brasil x Copa do Brasil, uma comparação sem sentido

Texto de Odir Cunha

Um dos exemplos da desinformação sobre a Taça Brasil é a comparação que se faz entre ela e a atual Copa do Brasil. O nome é parecido e a forma de disputa também. Só isso. As semelhanças param por aí. Não há qualquer equivalência entre a importância de uma e outra.

Enquanto a Taça Brasil reunia campeões estaduais e foi, por oito anos consecutivos, a única competição nacional a dar vaga para a Taça Libertadores da América, a Copa do Brasil é um torneio de excluídos, não é prioridade para as grandes forças do futebol nacional, dá como prêmio apenas uma das cinco vagas do Brasil na Libertadores e não empresta ao seu campeão o título de campeão brasileiro da temporada.

Ninguém chama, ou chamará, o vencedor da Copa do Brasil de campeão brasileiro do ano. Este título está reservado ao vencedor da competição nacional, hoje denominada “Campeonato Brasileiro”. O campeão da Copa do Brasil é apenas o campeão da Copa do Brasil, ao contrário do vencedor da Taça do Brasil, que era considerado, divulgado e premiado como o campeão brasileiro da temporada.

Há um farto capítulo neste dossiê que confirma o tratamento de campeão brasileiro que a imprensa nacional destinava ao ganhador da Taça Brasil. Uma competição única no País, aberta aos grandes clubes brasileiros e na qual eram disputadas as únicas vagas reservadas ao Brasil na Taça Libertadores da América, logicamente dava ao seu vencedor o mérito e o status de campeão nacional – o que, repita-se, amplamente comprovado pela cobertura da imprensa na época.

É importante destacar que enquanto durou, a Taça Brasil definiu as únicas vagas brasileiras para o Campeonato Sul-americano de Clubes, ou Libertadores. De 1959 a 1966 apenas o vencedor da Taça Brasil representou o País na Libertadores, e de 1967 a 1969 o direito foi estendido também ao vice-campeão da Taça Brasil.

Ou seja: de 1959 a 1969 nenhum time brasileiro que tenha participado da Libertadores chegou à competição sem ser campeão ou vice da Taça Brasil. A relevância da Copa do Brasil é bem menor. Como já dito antes, ela dá 20% das vagas brasileiras para a Libertadores e seu título é muito menos importante do que o do Campeonato Brasileiro.

Torneio dos excluídos

A Copa Brasil, desde a edição 2001, não permite a participação dos times brasileiros classificados para a Taça Libertadores. Ou seja, os quatro times de mais destaque do País no ano anterior ficam fora da Copa. A tabela de 2009, a propósito, não consta de São Paulo, Grêmio, Cruzeiro e Palmeiras.

Além desses sentidos desfalques – já que teoricamente se tratam dos melhores times do País –, a competição, disputada no primeiro semestre do ano, ainda sofre a concorrência dos estaduais, cujo título é mais valorizado por alguns clubes, que chegam a escalar reservas nos seus compromissos da Copa.

O desinteresse das grandes forças do futebol nacional provocou, em algumas edições da Copa do Brasil, surpresas significativas, como os títulos de Criciúma em 1991, Juventude em 1999, Santo André em 2004 e Paulista de Jundiaí em 2005, sem contar os vice-campeonatos de Ceará em 2004, Brasiliense em 2002 e Figueirense em 2007.

Por outro lado, como essa pesquisa deixa bastante claro, a Taça Brasil as equipes mais poderosas do futebol nacional e só foi vencida por clubes que, de tanto prestígio, depois viriam a fundar o Clube dos Treze. Como prova de sua categoria superior, todos os campeões da Taça Brasil conquistaram também o título do Campeonato Nacional, a saber:

Bahia, campeão da Taça Brasil em 1959, campeão nacional em 1988.
Palmeiras, campeão da Taça Brasil em 1960 e 1967, campeão nacional em 1972, 1973, 1992 e 1994, além de campeão do Torneio Roberto Gomes Pedrosa em 1967 e 1969.
Santos, campeão da Taça Brasil em 1961, 1962, 1963, 1964 e 1965, vencedor do campeonato nacional em 2002 e 2004 e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa em 1968.
Cruzeiro, campeão da Taça Brasil em 1966, campeão nacional em 2003.
Botafogo, campeão da Taça Brasil em 1968, campeão nacional em 1995.

Vejamos como duas importantes enciclopédias do futebol brasileiro definem a Taça Brasil:

“Foi criada em 1989 pelo então diretor de futebol da CBF Eurico Miranda. Ele inventou a fórmula para contentar as federações com menos tradição no futebol, cujos times não conseguiam alcançar a Série A do Brasileirão, que havia desinchado a partir de 1987, com a criação das divisões. Inicialmente, a competição era disputada por todos os campeões estaduais mais os vices dos principais estados do País. Essa idéia foi sendo posta de lado e os critérios de classificação começaram também a atender interesses políticos e mercadológicos. Os clubes grandes do país não precisam mais vencer nada para participar da Copa do Brasil. São convidados simplesmente porque atraem público nos estádios e garantem a audiência da televisão. Dessa forma, a Copa Brasil, que nasceu com 32 times, passou a contar com 40 em 1996, 65 em 1999, 69 em 2000 (Nota do autor: Em 2009, assim como em 2008, a Copa terá 64 participantes).  Página 363 do segundo volume da Enciclopédia do Futebol Brasileiro, publicada em 2001 pelo jornal Lance!

“Criada pela CBF em 1989, a Copa do Brasil dá ao campeão uma vaga na Copa Libertadores, Sua primeira edição foi disputada por 32 rimes: 22 campeões estaduais de 1988 mais os vice-campeões dos dez estados com as melhores médias de público. Atualmente, jogam a Copa do Brasil 64 times das 27 unidades da federação. Um inchaço que começou em 1995, com a entrada de clubes convidados, sem nenhum critério técnico.” Página 292 do Anuário Placar, publicado pela Editora Abril em 2003.

Assim, não há qualquer propósito em comparar a Taça Brasil – que nos seus dez anos de existência aceitou apenas os campeões estatuais, reuniu os grandes esquadrões de uma etapa inigualável do futebol brasileiro e definiu os únicos representantes do País para a Taça Libertadores – com a atual Copa do Brasil, uma competição esvaziada dos melhores times brasileiros, que usa critérios no mínimo elásticos para congregar seus participantes e dá apenas uma das cinco vagas do Brasil na Libertadores.

A Taça Brasil teve finais memoráveis, como a de 1962, entre o Botafogo de Garrincha, Nilton Santos, Zagallo, Quarentinha e Amarildo, contra o Santos de Pelé, Zito, Gylmar, Mauro, Mengálvio e Coutinho – todos bicampeões da Copa do Chile alguns meses antes. Teve ainda a final entre esse mesmo Santos e o Cruzeiro de Tostão, Dirceu Lopes, Piazza, Raul e Procópio, decisão que colocou definitivamente não só o Cruzeiro, mas o futebol de Minas Gerais no mapa do futebol brasileiro.

Enfim, comparar a Taça Brasil, primeira competição nacional a reunir as grandes equipes do País, com a atual Copa do Brasil é um acinte à história do nosso futebol e aos grandes astros que a escreveram.

Por Torero às 10h14


27/03/2009

Unificação – A questão do Nome

(Fiz alguns cortes no texto de hoje, caso contrário ele não caberia num só post. Ele trata de uma questão fundamental na unificação do título, citado por vários leitores ontem: o nome do campeonato.)

Texto de Odir Cunha

De acordo com o Novo Dicionário Aurélio, de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, não há qualquer distinção entre os termos Copa, Taça, Campeonato ou Torneio. Vejamos:

Copa: Torneio desportivo em que se disputa uma copa ou taça.

Taça: Troféu com o feitio desse vaso.

Campeonato: Certame.

Certame: Competição.

Torneio: Competição esportiva; certame.

Por essas definições, percebe-se que campeonato é o mesmo que certame, que por sua vez é o mesmo que copa, que quer dizer o mesmo que taça e significa “torneio desportivo”. Ou seja, todos os termos representam uma competição esportiva que define um vencedor.

Taça, ou copa, designa o feitio do troféu e não sua forma de disputa. O termo vem do inglês cup, que quer dizer “em forma de taça, de xícara” (Dicionário Webster’s). Assim, uma competição de turno e returno, com jogos de ida e volta, que dê ao campeão um troféu em forma de taça, também pode ser batizada de Copa ou Taça.

Uma das Copas ou Taças mais conhecidas é a Davis, a mais importante competição por equipes do tênis. Jogada pela primeira vez em 1900, em um confronto entre norte-americanos e ingleses, leva o nome do estudante norte-americano Dwight Davis, que a idealizou, e é chamada de Copa (ou Taça) porque o troféu era uma saladeira de prata surrupiada por Davis da casa de seus pais.

Então, um campeonato pode ser chamado de taça, e vice-versa? Sim. Um dos grandes exemplos disso é a “The Admiral’s Cup”, uma das regatas mais famosas do mundo, que por muitos anos foi chamada de “World Championship of Offshore Racing” – ou seja, de “Campeonato” Mundial passou à “Copa”.

Fica evidente, portanto, que o Campeonato Brasileiro poderia se chamar Taça Brasil, e que a Taça Brasil poderia ter sido batizada como Campeonato Brasileiro, sem que perdessem suas essências, pois as palavras querem dizer a mesma coisa, assim como o objetivo dessas competições, que é eleger um vencedor, um campeão nacional.

Na verdade, o próprio Campeonato Brasileiro só se chamou assim, oficialmente, a partir de 1989. No começo, de 1971 a 74, era denominado de Campeonato Nacional de Clubes; de 1975 a 79, Copa Brasil; de 1980 a 83, Taça de Ouro; em 1984 voltou a ser Copa Brasil; em 1985 voltou a ser Taça de Ouro; em 1986, Copa Brasil de novo e em 1987 e 88 foi Copa União. Mesmo depois de se firmar como “Campeonato Brasileiro”, teve uma recaída em 2000, quando foi denominado Copa João Havelange, cujo título dois disputado pela quantidade recorde de 114 clubes.

Os vários nomes do “Brasileiro”

Ao longo dos seus 37 anos de disputa, o “Campeonato Brasileiro”, como é tratado genericamente pela imprensa, teve os seguintes nomes:

1971 – Campeonato Nacional de Clubes (1ª divisão); Campeonato Nacional de Clubes da Primeira Divisão (2ª divisão).
1972 – Campeonato Nacional de Clubes Primeira Divisão(1ª divisão); Campeonato Nacional de Clubes da Segunda Divisão (2ª divisão).
1973 e 1974 – Campeonato Nacional de Clubes.
1975 a 1979 – Copa Brasil.
1980 – Taça de Ouro (1ª divisão); Taça de Prata (2ª divisão).
1981 – Taça de Ouro (1ª divisão); Taça de Prata (2ª divisão); Taça de Bronze (3ª divisão).
1982 e 1983 – Taça de Ouro (1ª divisão); Taça de Prata (2ª divisão).
1984 – Copa Brasil (1ª divisão); Taça CBF (2ª divisão).
1985 – Taça de Ouro (1ª divisão); Taça de Prata (2ª divisão).
1986 – Copa Brasil (1ª divisão); Taça de Prata (2ª divisão).
1987 – I Copa União – Módulo Verde e I Copa Brasil – Módulo Amarelo (1ª divisão); Módulo Branco e Módulo Azul (2ª divisão).
1988 – II Copa União (1ª divisão); Divisão Especial (2ª divisão); Divisão de Acesso (3ª divisão).
1989 – Campeonato Brasileiro (1ª divisão); Divisão Especial (2ª divisão).
1990 – Campeonato Brasileiro Série A (1ª divisão); Segunda Divisão (2ª divisão); Terceira Divisão (3ª divisão).
1991 – Campeonato Brasileiro Série A (1ª divisão); Segunda Divisão (2ª divisão).
1992 – Campeonato Brasileiro Série A (1ª divisão); Primeira Divisão (2ª divisão); Série B (3ª divisão).
1993 – Campeonato Brasileiro.
1994 a 1999 – Campeonato Brasileiro Série A (1ª divisão); Série B (2ª divisão); Série C (3ª divisão).
2000 – Copa João Havelange – Módulo Azul (1ª divisão); Módulo Amarelo (2ª divisão); Módulo Verde e Módulo Branco (3ª divisão).
2001 – Campeonato Brasileiro (1ª divisão); Segunda Divisão (2ª divisão); Terceira Divisão (3ª divisão).
2002 a 2008 – Campeonato Brasileiro Série A (1ª divisão); Série B (2ª divisão); Série C (3ª divisão).

Ranking só dos “Campeonatos Brasileiros”

Se a intenção é considerar campeão brasileiro apenas os times que venceram competições denominadas “Campeonatos Brasileiros”, então a classificação só poderá levar em conta o campeonato nacional a partir de 1989 e ainda pular o ano de 2000, no qual ele foi chamado de Copa União.

Assim, teríamos a seguinte lista considerando apenas os “campeões brasileiros”:

1 – Corinthians, 4 títulos (1990,1998, 1999 e 2005)
São Paulo, 4 títulos (1991, 2006, 2007 e 2008).
3 – Santos, 2 títulos (2002 e 2004).
Palmeiras, 2 títulos (1993 e 1994).
Vasco da Gama, 2 títulos (1989 e 1997).
6 – Flamengo, 1 título (1992).
Grêmio, 1 título (1996).
Botafogo, 1 título (1995).
Cruzeiro, 1 título 2003).
Atlético/PR, 1 título (2001).

O Flamengo, por exemplo, teria três de seus títulos nacionais computados à Taça de Ouro (1980, 1982 e 1983) e mais um à Copa União, dividido com o Sport (1987).

O Internacional ficaria sem nenhum “Campeonato Brasileiro”, pois seus três títulos foram conquistados quando a competição se chamava Copa Brasil: em 1975, 1976 e 1979.

O São Paulo, por sua vez, ficaria sem os títulos da III Copa Brasil (1977) e de outra Copa Brasil, disputada em 1986.

Por aí se vê a bagunça que seria a catalogação dos títulos nacionais se a nomenclatura for levada ao pé da letra. Se o campeão da Copa Brasil ou da Taça de Ouro pode ser considerado campeão brasileiro, por que o vencedor da Taça Brasil ou do Torneio Roberto Gomes Pedrosa/Taça de Prata não pode?

Porém, se o objetivo da CBF – a exemplo das entidades de países onde o futebol é mais rico e organizado – é considerar todas as competições nacionais oficiais, que deram ao seu vencedor o status de campeão brasileiro, então não há como não reconhecer este período a partir de 1959, quando foi realizada a primeira edição da Taça Brasil.

Conclusão

Não se pode considerar uma divisão entre o Campeonato Nacional antes e depois de 1971, já que a única alteração significativa entre essas fases foi a mudança de nome. O sistema de disputa continuou baseado em jogos eliminatórios e somente a partir de 2003 é que a competição, seguindo o exemplo de muitas outras da Europa, foi realizada em turno e returno, com pontos corridos.

Assim, caso a intenção seja considerar “campeonato” apenas as competições em pontos corridos, o Campeonato Brasileiro só pode ser chamado dessa maneira a partir de 2003, quando este regulamento passou a prevalecer. Parece mais sensato, entretanto, que a história da competição seja contada a partir de 1959, quando a primeira disputa nacional oficial e regular foi organizada e chancelada pela entidade máxima do futebol brasileiro à época, a Confederação Brasileira de Desportos, presidida por João Havelange de 1958 a 1975.

Detalhe: devido a um decreto da Fifa de que todas as entidades nacionais de futebol deveriam se dedicar apenas ao futebol, a CBF foi criada e desmembrou-se da CBD em 24 de setembro de 1979, mas obrigou-se a manter o caráter oficial de todas as competições nacionais realizadas até aquela data. No site oficial da CBF a data de sua fundação não é 1979, e sim 20 de agosto de 1919, portanto a própria CBF assume que ela é a mesma entidade desde o tempo em que era denominada CBD e que organizou a Taça Brasil, o Roberto Gomes Pedrosa, a Taça de Prata, o Campeonato Nacional, a Copa Brasil, a Taça de Ouro, enfim, todas as competições que deram ao seu vencedor o status de campeão brasileiro.

Observação: Na verdade, a CBF não é herdeira apenas da CBD, mas também da pioneira Federação Brasileira de Sports, fundada em 8 de junho de 1914, que em 20 de agosto de 1919 mudou o nome para Confederação Brasileira de Desportos. Ainda no seu site oficial, a CBF assume também as campanhas da Seleção Brasileira nos tempos em que a Federação Brasileira de Sports dirigia o futebol brasileiro. Portanto, entende-se que todas as competições oficiais disputadas desde 8 de junho de 1914 são automaticamente reconhecidas pela CBF.

Assim, nada mais coerente e natural do que esperar que a CBF, que é a mesma CBD, anuncie a Unificação dos títulos nacionais a partir de 1959, quando, a pedido da Fifa, organizou a primeira edição da Taça Brasil com o intuito de definir, ano a ano, um campeão brasileiro.

Por Torero às 09h37


28/03/2009

Unificação – Como foi nos outros países

(Continuando o debate sobre a unificação, hoje coloco a parte do texto em que se fala como é a situação dos primeiros campeonatos nos outros países. Nao é questão de imitar, mas de ver a experiência alheia e adaptar o que for interessante)

Texto de Odir Cunha

O que fica evidente quando se pesquisa a história dos campeonatos nacionais em outros países com o futebol mais rico e organizado do que a brasileiro, é o acentuado respeito ao passado. Desde que um torneio nacional oficial tenha sido realizado com o intuito de escolher o campeão do ano, não importam quais eram as regras ou a forma de disputa, ele está inserido na história e tem o mesmo peso dos títulos atuais.

É uma questão de respeitar a própria evolução do esporte, de admitir que cada época tem as suas circunstâncias – obviamente mais dificultosas à medida que mais antigas –, mas todas contribuíram para a evolução do futebol.

A Espanha é um grande exemplo disso. Seu primeiro campeonato nacional foi realizado em 1929, mas desde 1902 já era jogada a Copa da Espanha, que por ser a única competição nacional nesse período de 1902 a 1928, dava e ainda dá aos seus vencedores o título de campeão espanhol.

Assim, na lista oficial de campeões de futebol da Espanha, não há qualquer diferenciação de períodos: ela começa com o título de Viscaya Bilbao, em 1902, e segue ano a ano, fazendo a transição da Copa da Espanha para o Campeonato Espanhol sem qualquer distinção. A criação da Liga Espanhola, em 1930, não tirou dos antigos campeões os méritos de suas conquistas.

O mesmo exemplo serve para a França. O Campeonato Francês é disputado desde 1933, mas a lista de campeões da França começa em 1918, quando a única competição nacional era a Copa da França. Assim, do Olympique de Pantin (1918) ao Cannes (1932), todos os vencedores da Copa da França também são considerados campeões nacionais.

O Campeonato Italiano também só é disputado nos moldes atuais a partir de 1930, quando o futebol se tornou profissional no país. Entretanto os títulos de 1896, data da primeira competição, até 1929, o último antes do profissionalismo, têm o mesmo valor dos obtidos posteriormente. Tanto é assim, que no ranking dos campeões italianos o Genoa aparece em quatro lugar, com nove conquistas, todas antes da era profissional (1898, 1899, 1900, 1902, 1903, 1904, 1915, 1923 e 1924).

No site oficial da Federação Italiana de Futebol, ou Federazione Italiana Giuoco Cálcio, comprova-se que mesmo o primeiro campeonato italiano da história, jogado em apenas um dia, próximo ao Torino, deu ao Genoa a primazia de entrar para a história como o primeiro campeão italiano:  Il primo campionato della storia si gioca proprio a Torino nel 1898 – tutto in una sola giornata – e lo vince il Genoa che conquista così lo scudetto tricolore (http://www.figc.it/it/12/2051/Storia.shtml).

O primeiro campeonato italiano que englobou todo o País – cuja área é inferior ao do Estado do Maranhão – foi realizado em 1913, com os times divididos em grupos Norte e Sul, cujos campeões se enfrentaram na final, com vitória do Pro Vercelli sobre a Lazio por 6 a 0.

Na lista oficial dos campeões italianos, o Pro Vercelli, hoje na quarta divisão do país, aparece em sétimo lugar, com sete títulos, à frente de clubes tradicionais como Roma (3), Fiorentina (2), Napoli (2) e Sampdoria (1). Todos os títulos do pro Vercelli foram conquistas no período de 1908 a 1922, portanto oito anos da realização da primeirqa Copa do Mundo, em pleno amadorismo. Nem por isso, porém, são renegados pela federação italiana.

Na Argentina, até 1967 o campeonato nacional era disputado apenas por equipes da região metropolitana de Buenos Aires – e por isso chamado de “Campeonato Metropolitano”. No entanto, todos os seus campeões, desde 1891, são considerados oficiais pela AFA – Associação de Futebol Argentino.

Desde 1991 cada turno do Campeoanto Argentino passou a valer como um campeonato, dando origem aos Apertura e Clausura, que se mantem até hoje. Portanto, considerar dois campeões na mesma temporada, como aconteceu no Brasil em 1968 (Santos, campeão do Robertão, e Botafogo, campeão da Taça Brasil) não é novidade.

Na Alemanha, onde o campeonato nacional é um dos mais bem cotados e o que apresenta a maior média de público, a Bundesliga (nome que se dá à primeira divisão do futebol no país) foi fundada na temporada de 1963/64, quando o Colônia foi campeão, mas as competições são consideradas oficiais desde 1903, quando o Leipizig a venceu e o DFC 1892 Praga ficou em segundo lugar.

É de se notar que a competição alemã passou por vários percalços antes da criação da Bundesliga: não foi realizada entre 1915 e 1919 e entre 1945 e 1947 devido às Guerras Mundiais; contou com a participação de times da Áustria, anexada pelo governo nazista, entre 1939 e 1944 (tanto, que o Rapid Viena foi o campeão de 1941); passou a ser jogada apenas por times da Alemanha Ocidental com a divisão do país, em 1948, e só voltou a reunir equipes das duas Alemanhas em 1992, com a queda do Muro de Berlim. Mesmo assim, não discriminou qualquer competição nacional oficial realizada desde 1903, dando a seus vencedores o título de campeão alemão.

Na Inglaterra, cujo campeonato nacional só não é mais antigo do que o da Escócia, que começou em 1881, a lista de campeões começa em 1889, quando o Preston North End ficou com o título, seguido pelo Aston Villa. Desta primeira competição participaram apenas 12 clubes, quatro a menos do que a edição da Taça Brasil que teve o menor número de participantes (16, em 1959).

Desta forma, pelo exemplo de países onde o futebol tem se mostrado mais organizado e próspero do que o brasileiro (tanto que seus clubes fazem dos nossos fornecedores de craques), percebe-se que o respeito ao passado, às origens de seu futebol, faz com que os resultados de suas competições nacionais prevaleçam, quaisquer que sejam as épocas em que tenham sido realizados.

Constatação importante

Após a primeira viagem de um time brasileiro à Europa, em março e abril de 1925, quando o Clube Atlético Paulistano deixou ótima impressão ao perder apenas uma partida em dez jogos e estrear goleando a Seleção da França por 7 a 2, o jornalista Américo R. Netto, enviado especial do jornal O Estado de São Paulo, logo ao desembarcar escreveu um artigo especial em que comparou o estágio do futebol francês com o brasileiro. Lidas hoje, estas linhas causam surpresa, por mostrarem como os franceses estavam atrasados.

Américo Netto disse que os campos franceses tinham dimensões erradas (“muito largos e muito curtos, tendendo mais para o quadradro”) e não conheciam a drenagem, o que os tornava “empedrados ou lamacentos”. Possuíam “pouca ou nenhuma conservação, em contraposição com as boas condições dos brasileiros”.

O jornalista escreveu ainda que os vestiários não tinham água, ou muito pouca, a ponto de não permitirem “banho freqüente e completo”; que os jogadores usavam vestuário pouco apropriado (“usam botinas grossas e pesadas, que lhes retardam os movimentos e tornam pouco precisa a justa ação de passar ou chutar”) e que os jogadores eram inferiores aos brasileiros em habilidade e agilidade:

“Na França, os jogadores são escolhidos por altura e peso. O mais alto e forte é julgado melhor do que o de físico pouco avantajado. Isto por influência do rugby, o esporte dominante em território francês, que exige homens grandes e pesados… São menos rápidos do que os brasileiros. Falta-lhes também a facilidade de improvisar, de arranjar de momento combinações surpreendentes… Treinam menos do que os brasileiros, motivo por que o Paulistano sempre conseguia dominá-los melhor no segundo tempo, quando se mostravam mais cansados”.

Curioso notar que em 1925, apesar de toda a precariedade de seu futebol, com campos quadrados e sem drenagem, jogadores escolhidos pelo porte físico trajando vestuário inadequado, enfim, com todas essas dificuldades, a França já tinha uma competição nacional regular desde 1918, o que o Brasil – que já possuía craques como Friedenreich, Neco e Araken e um futebol campeão sul-americano em 1919, só viria a ter 41 anos depois, com a primeira edição da Taça Brasil.

Reconhecer as primeiras competições nacionais oficiais como de igual valor às que são disputadas hoje é, acima de tudo, uma questão de coerência. Pois se não se pode oficializar competições que não tenham exatamente os mesmos moldes atuais, então todos devemos admitir que a maior parte da história do futebol terá de ser apagada.

É oportuno lembrar, por exemplo, que nas quatro Copas do Mundo iniciais – de 1930 a 1950 – os campeões fizeram apenas quatro partidas e nem precisaram jogar eliminatórias. Em 1950 o Uruguai enfrentou apenas a Bolívia para se classificar para o quadrangular decisivo, com Brasil, Suécia e Espanha. Hoje as seleções campeãs do mundo precisam passar por longas eliminatórias e ainda jogam sete partidas na fase final.

Assim, o mais sensato é que, a exemplo de países como Espanha, Alemanha, Itália e Argentina, todas as competições nacionais, desde que oficiais e disputadas regularmente – como foram os casos da Taça Brasil e do Robertão/Taça de Prata –, tenham o mesmo peso das atuais e deem aos seus vencedores o mesmo status dos campeões posteriores. Afinal de contas, sem esses pioneiros o futebol não teria evoluído.

Por Torero às 08h58


31/03/2009

Unificação – Quarta e última parte

(Coloco hoje a última parte do dossiê de Odir Cunha sobre a Unificação dos títulos brasileiros. Ela fala das formas de disputa, talvez a questão mais comentada pelos leitores.)

Texto de Odir Cunha

Não há qualquer relação entre a importância de uma competição esportiva e sua forma de disputa. Há campeonatos de pontos corridos de baixíssimo nível técnico, que despertam pouco interesse, enquanto há outros disputados em jogos eliminatórios, popularmente chamados “mata-mata”, que são verdadeiros espetáculos e atraem audiências enormes. Na verdade, as principais competições do futebol adotam o sistema de jogos eliminatórios, a saber: Copa do Mundo, Eurocopa, Copa América, Liga dos Campeões da Europa, Libertadores da América, Mundial de Clubes da Fifa…

É importante ressaltar isso porque alguns críticos da Taça Brasil dizem que ela não poderia ser considerada um campeonato nacional porque era jogada no sistema “mata-mata”. Ora, uma coisa não tem nada a ver com a outra. A Taça Brasil adotou o melhor e mais viável sistema para a época.

Não se pode esquecer que a Taça Brasil foi iniciada no final dos anos 1950, em que nem se pensava em ter patrocínio nas camisas dos clubes, as tevês não pagavam direitos de imagem e as placas de publicidade nos estádios rendiam muito pouco. Os clubes viviam das arrecadações, mas mesmo estas não eram tão significativas, já que os ingressos eram bem mais baratos do que hoje.

A CBD era uma entidade de tão poucos recursos que, por absoluta falta de verba, o presidente João Havelange não acompanhou a Seleção à Copa da Suécia, em 1958. Assim, nada mais natural do que, ao idealizar a primeira competição nacional oficial, no ano seguinte, Havelange pensasse em uma fórmula justa, mas ao mesmo tempo economicamente viável.

É verdade que em 1959 alguns países europeus já faziam seus campeonatos nacionais em dois turnos e pontos corridos, mas não há termo de comparação entre as dimensões dos países europeus com o Brasil. Não se pode esquecer que toda a Europa, com exceção da Rússia, cabe no Brasil. É oportuno lembrar, ainda, que os estados brasileiros, em média, são maiores do que os países da Europa, o que faz com que nossos campeonatos estaduais equivalham-se, em logística, aos campeonatos nacionais europeus.

Não havia a mínima possibilidade econômica de que no final dos anos 50 o Brasil tivesse uma competição em turno e returno reunindo clubes de todos os cantos do País. Justamente pela fala de verbas é que a única competição de clubes realizada até ali era o Torneio Rio-São Paulo, viabilizado pela pouca distância entre as duas cidades que contavam com a maior quantidade dos times mais representativos do País.

A solução encontrada pela CBD para uma competição nacional foi torná-la seletiva, apenas com os campeões estaduais; estabelecer jogos eliminatórios em melhor-de-três partidas; dividir o País em duas chaves – Norte-Nordeste e Centro-Sul – e promover a entrada dos campeões de São Paulo e Rio de Janeiro, os centros reconhecidamente mais fortes do futebol nacional, a partir das semifinais.

Dentro das circunstâncias, foi uma decisão democrática e justa, pois não fechava a possibilidade de um time de um centro menor competir pelo título da Taça Brasil e assim conquistar a vaga para representar o País na Libertadores. Não havia divisões, e um campeão estadual do Piauí, por exemplo, poderia ir galgando fase por fase até defrontar-se com os times mais poderosos e afamados do País.

Nada menos do que 16 Estados participaram da primeira edição da Taça, em 1959. Número que foi crescendo gradativamente até que a partir de 1964 todas as unidades da Federação fossem representadas, com exceção de Mato Grosso. Isso dava a muito mais equipes a possibilidade de se chegar ao título nacional do que hoje, por exemplo (o Campeonato Brasileiro de 2009, assim como o de 2008, terá equipes de apenas nove Estados: Bahia, Goiás, Santa Catarina, Pernambuco, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo).

Em 1959 os 16 times e Estados participantes foram: CSA (Alagoas), Bahia (Bahia), Ceará (Ceará), Rio Branco (Espírito Santo), Vasco (Guanabara – Estado que oficialmente existiu de 1960 a 1975 e ocupava a área do atual município do Rio de Janeiro), Ferroviário (Maranhão), Atlético (Minas Gerais), Tuna Luso (Pará), Auto Esporte (Paraíba), Atlético (Paraná), Sport (Pernambuco), Manufatura (Rio de Janeiro), ABC (Rio Grande do Norte), Grêmio (Rio Grande do Sul), Hercílio Luz (Santa Catarina) e Santos (São Paulo).

Em suas dez edições, a Taça Brasil teve no mínimo 16 participantes (1959) e no máximo 22 (1964, 65 e 66), com uma média de 20,3 times por competição. Suas regras, claras e bem definidas, jamais foram contestadas. Os participantes não dependiam de convite, sorteio ou qualquer tipo de apadrinhamento para conseguir um lugar na competição. O mérito era unicamente esportivo, pois dependia do título estadual. A obediência ao regulamento era absoluta. Nenhum título ficou sub judice e nunca houve problemas com acesso ou rebaixamento, já que, como já foi dito, a vaga para a Taça Brasil era obtida através do título estadual.

A fórmula, ao mesmo tempo que enxuta, dava a todos os times brasileiros que participavam nas divisões principais de seus Estados, cerca de 200, a oportunidade de alcançar o título nacional. Houve, sem dúvida, uma representatividade bem maior do que nos dias atuais. E tanto foi democrática, que a primeira Taça Brasil não foi erguida por times paulistas ou cariocas, de maior projeção na época, mas por uma equipe do Nordeste, que depois de eliminar CSA, Ceará e Sport, passou pelos poderosos Vasco e Santos em séries melhor-de-três.

O fato de os times de Rio de Janeiro e São Paulo entrarem apenas nas semifinais da competição, e de equipes de Minas Gerais e Rio Grande do Sul também entrarem adiantadas na chave era aceito e justificado pelo maior desenvolvimento do futebol nesses centros. Isso é o que em outras modalidades se chama handicap e é uma forma tão legítima de se elaborar a chave de uma competição, que a Fifa a utiliza no seu Campeonato Mundial de Clubes disputado no Japão.

Desde 2005 o Mundial de Clubes da Fifa segue o seguinte formato: os campeões da Concacaf, Ásia, África e Oceania entram nas quartas-de-final, enquanto o campeão europeu (Liga dos Campeões) e o sul-americano (Taça Libertadores da América) iniciam a competição já nas semifinais.

Assim, para se conseguir o título mais almejado do planeta, um participante do Mundial de Clubes da Fifa terá de fazer, no máximo, três partidas. Na verdade, porém, isso nunca aconteceu, pois as equipes sul-americanas ou européias sempre vencem, o que reduz o número de jogos que um time tenha realizado para vencer a competição em apenas dois.

Já foi ainda mais rápido, pois por 24 anos, de 1980 a 2004, o título foi decidido em apenas uma partida, jogada em campo neutro, no Japão. Isso nunca tirou, entretanto, a importância do evento. Ao contrário. Os times que o venceram costumam destacar a conquista em seus sites oficiais, em letras garrafais no alto de seus estádios e até inserindo estrelas sobre o seu distintivo. Ou seja, uma única partida, de acordo com a importância do evento e dos contendores, pode, sim, valer muito mais do que uma competição longa, com uma infinidade de equipes.

É oportuno lembrar que outros esportes têm fórmulas mais sintéticas para definir seus campeões. No tênis, por exemplo, a Taça Davis, sua competição por equipes mais importante, o campeão de um ano tinha o direito de, na temporada seguinte, entrar apenas no confronto final. Os outros países jogavam entre si e saía um finalista que jogava pelo título com o campeão do ano anterior. Essa fórmula foi utilizada anualmente de 1900 a 1971 (a competição não se realizou apenas durante as duas Guerras Mundiais).

Qualidade X Quantidade

No caso da Taça Brasil, havia uma irrefutável justificativa técnica e histórica para que os campeões carioca e paulista entrassem apenas nas semifinais. Assim como o futebol de América do Sul e Europa dividem entre si todos os 18 títulos de Copa do Mundo já realizados, havia uma hegemonia inquestionável de São Paulo e Rio de Janeiro quando a Taça Brasil foi instituída.

Sem competições nacionais interclubes que servissem de referência, um dos parâmetros mais importantes era o Campeonato Brasileiro de Seleções, que, como o nome diz, vinha a ser disputado entre seleções de cada Estado da Federação. Jogada pela primeira vez em 1923 e mantida, com algumas interrupções, até 1956, a competição tinha sido realizada 24 vezes até 1959, data do início da Taça Brasil, e até ali apresentava o saldo de 13 vitórias cariocas, 10 paulistas e uma da Bahia, em 1934.

Além disso, fatores econômicos e sociais faziam das cidades de Rio de Janeiro e São Paulo os dois maiores pólos de atração do País. Seus clubes de futebol eram os mais ricos, os mais divulgados pela mídia, conseqüentemente os de maior prestígio e apelo popular, e aqueles para os quais normalmente se dirigiam os melhores atletas surgidos em outras regiões da nação. Até 1966 as Seleções Brasileiras se resumiam a convocar jogadores em atividade nessas duas cidades, e até 1959 o único torneio interestadual disputado regularmente – e com grande repercussão – era o Rio-São Paulo, realizado anualmente desde 1950.

De qualquer forma, o sistema da Taça Brasil não impedia equipes de outros centros de chegar ao título, já que reservava aos demais clubes brasileiros no mínimo 50% das vagas nas semifinais da competição – mesma medida, como já foi dito, que a Fifa adota em seu Mundial de Clubes.

Como se adotava o confronto direto em melhor-de-três partidas, o número mínimo de jogos que um clube teria de fazer para chegar ao título era quatro. Pode parecer pouco, mas, além da comparação já feita com o Mundial Interclubes, que em 50% de suas edições foi decidido em apenas um jogo, é interessante lembrar mesmo em Copas do Mundo entre Seleções, o título de futebol mais cobiçado do planeta, o campeão das quatro primeiras edições (1930/34/38/50) só realizou quatro partidas.

Na média de todas as 18 Copas do Mundo realizadas o campeão jogou 5,66 partidas. Em dez edições de Taça Brasil o campeão disputou 5,9 jogos. Portanto, se nas competições mais importantes, aquelas que encabeçam o currículo de todo clube ou seleção nacional, não se precisou jogar uma infinidade de vezes, por que esse critério deve ser relevante para se avaliar a importância de um evento?

Em São Paulo há uma Copa de futebol amador que leva o nome de uma cerveja. No ano passado participaram 208 times, divididos em 52 grupos de quatro times cada um. Jogaram-se 639 jogos para se definir o campeão. Não importa o nome do vencedor, mas fica a pergunta: será que ele, após processo seletivo tão exaustivo, teria adquirido qualidade suficiente para enfrentar Milan ou Boca Juniors, que chegaram à final do Mundial da Fifa com apenas uma partida?

A prova de que o processo de seleção da Taça Brasil era eficiente é que nos oito anos em que seus campeões representaram o País na Taça Libertadores (em 1966 e 69 o Brasil não participou), estes conseguiram dois títulos e dois vice-campeonatos, com 50% de participação em finais da competição sul-americana, índice que só seria superado nos anos 90.

Nos anos de Taça Brasil, o Santos sagrou-se bicampeão da Libertadores em 1962/63 e o Palmeiras foi vice-campeão em 1961 e 68. Nos anos 70, os clubes brasileiros conseguiram apenas um título (Cruzeiro, em 1976) e dois vices (São Paulo, em 1974, e Cruzeiro, em 1977). E nos anos 80, em dez competições, Flamengo (1981) e Grêmio (1983) foram campeões e o Grêmio foi vice em 1984. Portanto, o rendimento dos representantes brasileiros saídos da Taça Brasil foi superior.

Vê-se, portanto, que além de oficial, justa e única forma viável de se organizar uma competição nacional na época em que foi criada, a Taça Brasil adotou uma fórmula de competição democrática e universal, que conseguiu o seu objetivo de eleger um digno campeão brasileiro e classificá-lo para as disputas da Taça Libertadores da América com ótimas condições de bem representar o nosso futebol.

Por Torero às 00h30

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Publicado por em 20 de dezembro de 2010 em Futebol

 

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