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TELEVISÃO ► HBO, “O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas” e a síndrome do roteirista frustrado

Já escrevi algo sobre o filme totalmente anos 80 “O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas”. Foi neste post aqui.

O que esqueci de registrar foi algo que lembrei ontem, assistindo à obra de Joel Schumacher pela enésima vez, desta vez com minha esposa, sob o pretexto de que a Fernanda ainda não o tinha visto. Sabe como é, o tal conflito de gerações, coisas a que estão sujeitos casais com razoável diferença de idade. Neste caso, conflito cinematográfico.

O lance é que o filme, exibido na HBO, estava dublado. E o primeiro ponto negativo é algo que também já registrei neste espaço particular, a proliferação de falsos canais de cinema nas TVs por assinatura.

Veja você que a HBO, um canal de “cinema”, exibe o filme apenas dublado, sem opção de áudio original e legendas. Coisa muito televisiva e pouco cinematográfica, não é?

Pois bem. Para piorar, a dublagem é a mesma de décadas atrás. Décadas mesmo. Já havia visto há muitos anos o filme dublado e a dublagem era a mesma.

“Ô, cara, deixa de ser chato! E daí que era a mesma dublagem?”

Entendo perfeitamente que, se alguém estiver lendo até aqui, resmungue esse pensamento acima, totalmente justificável.

O problema é que essa dublagem simplesmente é daquelas que revelam o que chamo de “síndrome do roteirista frustrado”, mal que parece acometer boa parte de tradutores e, especialmente, responsáveis por dublagens.

Nada contra a dublagem propriamente dita. Tecnicamente, acho a dublagem brasileira a melhor do mundo.

O problema é ver alterações no texto original que modificam o sentido do que é dito e até o contexto geral de uma cena. E a dublagem de “O Primeiro Ano do Resto de Nossas Vidas” é repleta de exemplos. Ao ponto de, a determinado ponto (“ao ponto”, “a determinado ponto”… horrível, eu sei), eu passar a murmurar cada vez mais baixo os erros com receio que minha esposa se irritasse com minhas chatas observações e deixasse de ver o filme.

O pior de todos os casos do filme é quando a personagem Wendy (vivida pela ótima Mare Winningham), que trabalha como assistente social, leva um fora de uma cidadã carregada de filhos que, após receber seu cheque, diz que ela, a Wendy, deveria comprar roupas novas, se arrumar melhor e arranjar um homem, em vez de ficar se preocupando com aquilo. “Aquilo”, no caso, a situação da pessoa necessitada, porque Wendy havia perguntado à mulher, antes de entregar o cheque, se ela não tinha interesse em fazer algum curso de capacitação, conseguir um emprego etc.

Pois a dublagem simplesmente transformou o fora em satisfação sobre o que a mulher faria com o dinheiro! Acabou saindo algo assim da boca da mãe necessitada: “Agora vou comprar roupas novas, me arrumar melhor e arranjar um homem.” Pode isso?

Isso foi o mais grave, porque não é só caso de estilo. Detona o significado da cena. Mas há diversas outras cenas em que uma ou outra palavra omitida ou mal colocada empobrece o texto original.

É uma situação delicada, de difícil solução. Eu diria que há muitos filmes para pouco pessoal trabalhando nessa área.

E canal de televisão por assinatura já foi sinônimo de qualidade e capricho. Não é mais.

Resta-nos sofrer e torcer para que ainda continuem a existir canais de cinema de verdade. Assim, ao menos os felizardos que entendem a língua original podem ver um filme conforme ele foi escrito.

E não uma versão peculiar de quem o traduziu e/ou dublou.

*** *** ***

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Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

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  1. SERGIO BRITO
    25 de janeiro de 2011 às 15:47

    Por isso que não aprendi Inglês. Acaba dando confusão com a língua da gente.rs
    David, acho que existe um projeto articulado entre os produtores/exibidores/tv´s de transformar todo o cinema e mera passagens de imagens sem significância maior. Tudo descartável, inclusive a mente do telespectador/espectador/pagante.
    Sergio

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    • 25 de janeiro de 2011 às 22:10

      Supondo e mesmo acreditando que haja vida inteligente do outro lado da telinha, Sérgio, é bem capaz mesmo de existir um projeto desses…rsrsrs. Isso me lembra um filme de ficção científica em que os alienígenas tentam dominar uma pequena cidade através de filmes exibidos no único cinema de lá. Pelo visto, as nossas televisões estão se tornando “o único cinema de lá” a serviço de alguma força maligna!

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  2. 19 de abril de 2011 às 20:05

    cara esse filme é demais, e a dublagem foi feita na bks alias muito bem feita!!!
    depende da operadora de cabo, a opção ingles e legendas é sim disponibilizada! liguei para sua operadora e reclame! é uma falha deles!, se sua operadora for via cabo analogico sem chance.

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    • 21 de abril de 2011 às 9:15

      É mesmo, Ronan. Você teve essa sorte de poder optar entre dublagem e legenda, eu, não. As versões legendadas desse filme sempre foram legais.

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