Início > Carnaval > CARNAVAL ► O que vi do desfile do grupo Especial pela TV

CARNAVAL ► O que vi do desfile do grupo Especial pela TV

Nos últimos carnavais tenho optado por cobrir os desfiles da Intendente Magalhães para OBatuque.com. Me atraem mais que os desfiles da Sapucaí, especificamente os de domingo e segunda. Mas a esposa está grávida, minha bebê vem aí e quis passar o carnaval com a Fernanda, me limitando carnavalescamente a ir atrás de alguns blocos na Ilha do Governador e a um desanimado olhar na transmissão do desfile do grupo Especial pela Rede Globo.

Primeiro ressalvo que não vi todas as escolas. De umas vi o desfile inteiro, de outras boa parte, de algumas, nada. Apenas aqueles melhores momentos muitas vezes menores que um videoclipe com os quais a Globo tapa parte de sua programação da tarde da terça-feira de carnaval. O que é praticamente o mesmo que nada.

Mas algumas anotações eu fiz para registrar aqui.

*** *** ***

► Eu gosto muito do talento para produzir um bonito visual do carnavalesco da São Clemente, Fábio Ricardo. Fez bons desfiles por aí, como na Acadêmicos da Rocinha, e achei a São Clemente de muito bom gosto nas fantasias e alegorias. Muitas cores, mas bem dosadas, bem distribuídas.

Aparentemente, o enredo não ajudava muito. É meio batido, apesar da boa sacação de mostrar a cidade através da sua criação por Deus e seus anjos arquitetos. Gostei disso. Mas falar do Rio de Janeiro parece funcionar melhor a reboque de um grande samba-enredo, o que não foi o caso. Talvez tenha faltado isso. Mas a escola estava visualmente muito bonita.

► Depois da São Clemente, veio a Imperatriz Leopoldinense. O enredo ao menos passa uma mensagem positiva e fala de saúde. Mas achei amplo demais – para o meu gosto, que fique claro. O que me incomodou mesmo foi a profusão de cores que Max Lopes promoveu numa escola que fica tão bonita em seu verde e branco. Não achei o conjunto muito harmônico pela TV, achei confuso mesmo, embora tudo estivesse quase sempre bonito e bem acabado, marca do trabalho do campeoníssimo carnavalesco.

Achei que o samba entrou muito acelerado, quase como as horríveis gravações do CD. Com a queda de ritmo ao longo da passagem da escola, encontrou um tom melhor.

► A Portela é uma daquelas escolas vítimas do incêndio do início de fevereiro na Cidade do Samba e que estavam fora do julgamento oficial da Liesa. Equivocadamente, em minha particular opinião. E apresentou um desfile de quem sabia que jogava um amistoso. Tinha que respeitar quem pagou ingresso para assistir, mas nenhum jogador ia arriscar quebrar a perna numa dividida.

Foi outro enredo sobre o Rio de Janeiro, desta vez enfocando mares e navegações. Não aconteceu.

Ainda assim a Portela apresentou uma linda águia, em tons de forte azul, do mesmo modo que a cabeça da escola. Essa cabeça, em azul e branco, como manda o figurino portelense, foi o que de melhor a agremiação mostrou. É sempre muito bonito uma escola de samba se apresentar predominantemente em suas cores e ser facilmente reconhecida. A Portela entrou assim. Mas dali para trás, porém, foi murchando e nem cheguei a ver o final.

► Depois da Portela veio a Unidos da Tijuca, campeã do ano passado, com mais um tema que dá liberdade para a imaginação de seu criativo carnavalesco Paulo Barros produzir tudo que queira. Desta vez, o tema era sobre medo no cinema. Vago. E achei mais vago ao ver a comissão de frente mostrar cavaleiros sem cabeça e o primeiro carro ser um navio fantasma. A lenda do cavaleiro sem cabeça é um conto de 1800 e qualquer coisa que foi adaptado para o cinema, assim como o navio fantasma é uma lenda que vem de uma ópera mais antiga ainda. Ou seja: cabe tudo num tema desses, assim como pode faltar um monte de coisas, já que a escola não se limitou a falar de obras de terror criadas originalmente para a salinha escura.

Mas o que vale é o entretenimento e entendo essa licença “poética”. Isso dá um desfile divertido como o que a Tijuca fez, embora novamente pecando pelo exagero de encenações e coreografias em detrimento de harmonia e evolução, o que se torna repetitivo (perde-se o efeito surpresa) e pouco tem a ver com uma escola de samba. Isso é algo que me incomoda muito.

Incomoda tanto quanto ver – ou não ver – o casal de mestre-sala e porta-bandeira escondido entre a alegoria da comissão de frente e o abre-alas.

Em minha opinião, Paulo Barros mais uma vez produziu um espetáculo muito bonito e interessante, mas no lugar errado. Acho que ele poderia fazer mais com menos. Questão de gosto pessoal mesmo.

De todo modo, do meio para o fim já não consegui assistir mais e apaguei.

► Apaguei e perdi o desfile da Vila Isabel. Tinha muita curiosidade em ver o primeiro trabalho de Rosa Magalhães na escola de Noel. Mas estava nas últimas já na passagem da Unidos da Tijuca e um tema sobre cabelo, definitivamente, não é algo que me dê aquela motivação suficiente, capacidade de superação necessária, para superar o sono e me manter acordado.

► Perdi o desfile da Vila e, na sequência, o da Estação Primeira de Mangueira. Um desfile que – parafraseando o bordão de Sílvio Santos em relação a filmes que exibia no passado – não vi, mas gostei. Gostei porque um enredo sobre Nelson Cavaquinho tem tudo a ver com nossa cultura e a cultura das escolas de samba. Parabéns para a Mangueira por ter feito enredo um dos grandes baluartes de sua história, que 100 anos completaria em 2011 se vivo fosse. Algo raro nestes tempos repletos de desfiles patrocinados e enredos absolutamente pobres, um mal que, felizmente, não tem afligido a Verde e Rosa nos últimos anos.

Em virtude disso, a Mangueira teve a minha torcida para que vencesse o carnaval.

► A segunda-feira começou com o desfile da minha escola, a União da Ilha do Governador. Fiquei muito satisfeito em ver a Ilha respeitar o público e o esforço de todos que a ajudaram e colocar na Avenida o melhor carnaval que fosse possível – a escola foi das “queimadas” em fevereiro. E não foi pouco o que a escola levou para o Sambódromo.

Qualquer um que me conheça sabe que prefiro enredos nacionais (temos muita história para contar, personagens interessantes, lendas de origens afro e indígena…), mas as viagens de pesquisa de Charles Darwin que geraram o emblemático livro “A Origem das Espécies” é um enredo. E Alex de Souza finalmente realizou aquele trabalho que deve colocá-lo definitivamente no time dos grandes.

Não vou me estender mais sobre o desfile, já que até agora tem sido bastante enaltecido e a Ilha recebeu o Estandarte de Ouro de Melhor Escola, com justiça. O visual colorido estava lindo, o samba funcionou (gosto muito do refrão principal), Ito Melodia parece melhorar a cada ano e por aí vai.

Mas abro um parágrafo para discordar da observação que ouvi em uma rádio (desculpe, não lembro qual), dizendo que o desfile estava lindo, mas que não se pode falar de Darwin sem mencionar sua visão científica que batia de frente com a religiosa teoria do criacionismo. Discordo, já que a sinopse deixa claro tratar apenas das viagens do cientista que originaram o livro.

► Após ver minha escola, foi vez da minha ex-escola. É mais ou menos assim: é praticamente impossível gostar de escola de samba, viver na Ilha e não torcer pela agremiação da comunidade. Digo por mim. Mas, por influência paterna e por sua própria história, dividi por muito tempo meu coração tricolor com o vermelho e branco do Salgueiro.

Realmente a história do Salgueiro ainda hoje me encanta. Mas esse Salgueiro que me encantava desapareceu como um truque da comissão de frente da Unidos da Tijuca após o antológico “Peguei um Ita no Norte”. Dali para cá, no meu entender, a escola foi caindo numa formuleta de enredos e sambas que ano a ano me faziam descurti-la mais e mais. E pior: pelo tanto que gostava, tornei-me muito crítico com o que o Salgueiro leva para a Avenida. Ao ponto de me perguntarem se eu sou antissalgueirense. Muito pelo contrário.

Feito esse prólogo todo, me sinto mais à vontade para dizer que não gostei de nada no Salgueiro. Nada. Mais uma vez, achei um enredo pequeno para o Salgueiro. Um samba pequeno para o Salgueiro. Um trabalho que não está à altura do que Renato Lage pode oferecer.

A ideia era até divertida, mas não ficou clara para mim a ligação Rio-cinema (o carro “Pandeiros e Balangandãs”, por exemplo, achei que estava mais para a Broadway que para o Cassino da Urca). E ainda houve alguns erros que uma escola do porte e com o caixa que o Salgueiro tem não pode cometer.

Dez minutos de estouro de cronômetro? Fala sério. Deve ser algum tipo de recorde no Sambódromo. “Ah, mas foi azar, os carros não entravam…”. Azar, não, incompetência. Tanta estrutura na Cidade do Samba, tantos ensaios técnicos e os carros não conseguem fazer a curva, a ponto de quase esmagar uma pessoa?

Como alguém que ainda tem alguns filetes de sangue salgueirense correndo nas veias, acho que a escola tem que reciclar. Ser menos comercial e mais Salgueiro. Voltar-se para enredos que tenham mais a ver com sua história (funcionou com “Tambor”, não funcionou?) e, com o devido respeito ao esforço da ala de compositores, produzir um samba bom de verdade.

Uma observação: a bateria estava vestida com uniforme do Bope, em referência ao filme “Tropa de Elite”. Veja bem, não acho que estivesse fantasiada, estava mais para vestida mesmo. Parecia uma réplica do uniforme verdadeiro, com muito pouca estilização. Do meu ponto de vista, isso não é fantasia, não é caricatura, é representação.

► Depois de mais uma decepção com o Salgueiro, veio a Mocidade Independente de Padre Miguel, com outro enredo que não me diz grande coisa. Talvez se fosse amarrado por um grande samba… Mas não era o caso.

O que mais gostei da Mocidade, ao menos, foi uma das coisas que mais gostei de tudo que vi, a beleza alva (ou gélida), da ala das baianas, inteiramente de branco (ou gelo…). Tá, as geleiras nevando atrás também estavam legais. E fiquei impressionado com a caracterização dos ritmistas da bateria – que bateu bonito.

Mas acho que o carnavalesco Cid Carvalho deu uma certa exagerada nas fantasias. Não estavam feias, mas muito carregadas. Os componentes pareciam meio sufocados por tantos detalhes, tantos penduricalhos.

E aqueles patins na comissão de frente… Ainda vou falar apenas de comissão de frente no futuro.

► Chegou a hora da escola aparentemente apadrinhada pela emissora que transmitia o desfile. Já comentei isso em post anterior. Isso acaba gerando uma certa antipatia por parte de simpatizantes de outras escolas, mas, sinceramente, não é meu caso. Tanto que, apesar de hoje em dia não acreditar mais em Papai Noel o suficiente para imaginar que uma escola de samba do Rio de Janeiro faça um estado de enredo por pura inspiração ou simples homenagem, eu gostei da história de Santa Catarina contada por Cahe Rodrigues. E, no fim das contas, após ter que refazer todo seu carnaval, a escola parece que ainda deixou de receber 500 mil reais dos catarinenses.

A Grande Rio não conseguiu refazer todo seu carnaval, longe disso. Como nada é tão ruim que não possa piorar, ainda desfilou debaixo de um aguaceiro. Mas a concepção de seu carnavalesco, como disse, parecia bem atraente. Me deixa imaginar que a agremiação de Duque de Caxias faria um carnaval para as cabeças. Assim como a União da Ilha, coincidentemente. E quero destacar duas ou três coisas mais.

Aquele lobisomem da comissão de frente é um dos bichos mais assustadores que já vi na Avenida. Sai pra lá! Pena que a pista escorregadia tornava difícil os passos do componente caracterizado como a fera.

Eu não consegui ouvir o CD do grupo Especial (muito ruim a gravação!), então só reparei com atenção nos sambas na hora do vamos ver. E o da Grande Rio, dentre as escolas que vi, foi o que mais gostei, muito bem sustentado por uma primorosa exibição da bateria comandada por Mestre Ciça.

Acho que algumas vezes o Ciça exagera. Aquela coisa tipo o guitarrista que toca demais e acaba meio que se masturbando com a guitarra, tocando para ele, deixando a melodia de lado. Daí que surgem coisas que até não gosto, como batidas funk em desfile de escola de samba. Mas este ano Ciça pareceu um gênio sob controle, com as batidas todas encaixadas no samba-enredo, que funcionou legal.

Ah, e teve o Guga. Guga é 10, um ídolo do Bem de nosso esporte e que esbanjou carisma e simpatia.

Mas não gostei, por exemplo, daquela sujeira na cabeça da escola, repleta de camisas de diretoria, deixando a impressão de que a pista fora invadida. Também não gostei dos estandartes que formavam a palavra “superação”. Acho pieguice. Ninguém precisa ter pena da Grande Rio. Que viesse lá no fim, tudo bem, todas fazem. Mas, na frente, não gostei.

E acho que, com todos os percalços, a escola poderia ter dado uma caprichadinha a mais nas fantasias de algumas alas.

► Quando perguntado se não estaria sendo repetitivo ao fazer Maria Clara Machado de enredo na Porto da Pedra menos de 10 anos depois de mostrá-la (com brilhantismo, por sinal) na União da Ilha, Paulo Menezes disse que era apaixonado pela escritora e autora teatral e que ela oferecia história e material suficiente para novas e diferentes abordagens. Não discordo, muito pelo contrário. E ainda que não fosse assim, qualquer reedição sobre Maria Clara Machado vale mais do que uma penca desses enredos que temos visto por aí.

Por isso estava muito curioso para assistir à Unidos do Porto da Pedra, até porque gosto bastante do trabalho do Paulo Menezes. E o início estava muito bonito e cativante.

Infelizmente, porém, estava nas últimas. Ir atrás de blocos, mesmo comportadamente, cansa, e terça ainda tinha mais. Não aguentei ver até o fim.

► A última a desfilar foi a Beija-Flor, quando eu já estava devidamente embalado nos braços de Morfeu. A Beija-Flor que viria a ser a campeã deste carnaval com seu enredo sobre Roberto Carlos.

Bem, como não vi, não tenho muito a comentar. Apenas que RC até tem uma história interessante e é o maior ídolo popular do país, o que por si só já justificaria o enredo. Mas imagino que tenha sido meio complicado para a escola de Nilópolis driblar todas as manhas e manias de seu homenageado.

Só não entendi, numa imagem que vi num telejornal, o que Boni (o José Bonifácio Sobrinho), homem-forte da Globo durante muitos anos, fazia no carro que, se não me engano, representava a Jovem Guarda. Ele cantava na época?

Coisas do nosso carnaval.

*** *** ***

Enfim, foi isso aí que decidi registrar do que acompanhei pela TV do desfile do grupo Especial deste ano.

*** *** ***

Licença Creative Commons
Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: