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MÚSICA ► “Meu Deus, como é possível um homem compor como Cartola?”

“Espera aí, David, de onde você tirou isso agora?”, quem por ventura estiver lendo este post pode querer saber.

Bem, estava eu no computador na noite de sexta-feira quando a esposa deixou a TV do quarto ligada e foi para a sala. Felizmente, tenho um certo filtro que me permite ignorar sons que não me interessem, especialmente quando estou escrevendo ou quando esses sons venham da programação da TV Globo, canal em que a TV ficou ligada.

Assim segui eu, concentrado no mundinho das teclas e da tela, até que, como aquele som da realidade que vai aos poucos invadindo e nos despertando de nossos sonhos, comecei a identificar algo que parecia se esgueirar por esse tal filtro sonoro. E comecei a reconhecer os inconfundíveis acordes da música de Cartola.


Era o programa da série “Por Toda a Minha Vida”, destinado a um dos maiores compositores de nossa História, senão o maior deles.

Dê-se o crédito a quem merece. Eventualmente – bem eventualmente, em minha opinião – a Globo também exibe produtos de qualidade.

Daí que tive que parar o que estava fazendo para mais uma vez acompanhar a história de Cartola.

E a cada música que se apresentava, especialmente na inconfundível voz do compositor, o que me vinha à cabeça era essa divagação retórica, em tom ao mesmo tempo de súplica, de agradecimento e de espanto: “Meu Deus, como é possível um homem compor como Cartola?”

Um homem como eu, você, que nasce, aprende a engatinhar, depois a falar, a andar, cresce…

Aparentemente, um homem como todos os outros.

Mas esse é daqueles diferentes. É Cartola.


E enquanto via o programa, a indagação não me saía da cabeça: “Meu Deus, como é possível um homem compor como Cartola?”

Uma vez Nelson Rodrigues escreveu uma crônica intitulada “sem Palavras”, sobre um Fla-Flu.

Eu a reproduzo aí abaixo.

Eu diria que tudo já se disse sobre o Fla-Flu. Chamá-lo de “maior clássico da terra” é repetir, textualmente, o que milhões de sujeitos já disseram. Ótimo seria que se pudesse fazer, em jornal, como nas dedicatórias. E, então, eu escreveria, com o mais delicioso impudor: – Meus senhores e minhas senhoras: – “Não tenho palavras”. No dia seguinte, reescreveria: – “Continuo sem palavras”. E assim, sucessivamente, chegaria ao meu fim profissional, sem uma linha.

Sem um milésimo do talento do nosso grande mestre de imagens literárias, eu humildemente tomo a liberdade de descaradamente plagiá-lo e dizer que, se tivesse que responder a essa minha própria indagação antes de escrever qualquer outra coisa, ficaria sem palavras posts sem fim – e assim nada mais escreveria.


Mas tenho que perguntar mais uma vez, meu Deus: como pode um ser humano compor como o mestre Cartola?

*** *** ***

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