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CARNAVAL ► Não está na hora de parar de chamar aquilo que vem na cabeça das escolas de samba de comissão de frente, não?

Como digo no título do post, acho uma grande bobagem, quase uma hipocrisia, esse negócio de continuar chamando aquilo que vem à frente das escolas de samba (de samba mesmo?) de comissão de frente.

O nome mais correto daquilo seria algo tipo “coreografia de abertura”, como alguns críticos têm comentado. E essa coreografia de abertura, sim, seria avaliada pelos jurados da Liesa.

E não, não digo com isso que deveriam acabar com a comissão de frente. Muito pelo contrário. Acho que a comissão de frente deveria perder o duvidoso status de quesito, até para que tenha novamente o prestígio de segmento nobre de uma escola de samba.

Porque o que essas coreografias de abertura fazem pouco ou nada têm a ver com comissão de frente. Apresentar a escola? Fala sério, isso é um detalhe pouquíssimo percebido naquela variedade de passos marcados e coreografias distintas.

Entendo que muita gente goste de ver aquilo. Eu, de minha parte, já acho um saco, assim como tudo que parte para o exagero. E é um exagero de detalhes tamanho que chega a incomodar de tanta atenção que tenho que prestar nos movimentos, na representação, na mensagem, reparar se alguém erra o passo, se a fantasia está completa…

Para mim, além de ser uma sujeira visual (basta ver pela TV como o uso de carros alegóricos e tripés acaba deixando até o abre-alas em segundo plano na imagem), essa abertura dos desfiles não tem categoria, elegância, classe, nada que respeite a liturgia de uma comissão de frente na tradição das escolas de samba.

Fora que são tantas as coreografias que é praticamente impossível assistir a todas elas de um único ponto da pista, de um único setor de arquibancada. Logo, é produto para a TV ver. Ou melhor: para ver pela TV.

E pior: hoje ainda rasga descaradamente o regulamento da Liesa, desfilando com mais de 15 componentes.

Achei muito curioso quando a Unidos da Tijuca usou aquele truque de ilusionismo com a participação de 45 figurantes na coreografia de abertura do ano passado e na transmissão pela TV criaram o mito de que “o regulamento permite a participação de até 15 componentes aparentes na comissão de frente”.

De onde diabos saiu esse “aparentes”?

Este ano, a mesma coisa. E não foi só a Unidos da Tijuca, claro. Com até mais de 45 componentes. E de novo a transmissão global salientou que o regulamento diz que “a comissão de frente deve ter de 10 a 15 componentes aparentes”.

E eu repito: de onde diabos eles tiram esse “aparentes”?

Aí já não acho estranho, acho suspeito.

Tenho baixado o regulamento do ano passado. O deste ano está disponível lá no bom site da Liesa.

Não há em lugar algum, seja nos itens de obrigatoriedades ou no manual dos julgadores, qualquer referência a isso (de que são permitidos componentes “aparentes”) que torne lícito o uso desse artifício, a participação de mais que 15 componentes na comissão de frente.

Clicando nas reproduções da página de obrigatoriedades e da página referente ao quesito no manual dos julgadores que postei é possível vê-las em tamanho maior. Eu não achei em lugar algum a palavra “aparentes” ou algo que o valha.

E aí se torna tudo uma grande hipocrisia mesmo, porque o que a transmissão tenta fazer criando esse “aparentes” é justificar a coreografia de abertura dentro do quesito comissão de frente.

Ou alguém tem acesso a um regulamento diferente daquele que nós, meros mortais, temos.

Então mais lógico e honesto seria acabar com o quesito comissão de frente e criar o quesito coreografia de abertura, com liberdade para usar 20, 30, 60, 200 ou quantos componentes quisessem nesse segmento, com direito a carro alegórico, tripé, adereços, carrinhos de pipoca, cachorro-quente, churros…

A comissão de frente, como segmento fundamental na liturgia das escolas de samba, merece ser preservada. Deveria sair de julgamento e virar obrigatoriedade, como ala de baianas e ala de crianças.

Aí poderíamos ver novamente abrindo o desfile de uma escola de samba algo que nos faça lembrar toda a história e tradição não só daquela agremiação que está entrando na Avenida, como de todas que surgiram e desfilaram ano após ano desde o início do século passado, na Presidente Vargas, na Rio Branco, na Praça Onze…

Algo de classe, elegância, categoria, que nos transmita aquele sentimento de respeito que merece uma escola de samba.

Algo que realmente saúde o público e peça passagem.

Algo que mereça ser chamado de comissão de frente.

*** *** ***

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Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

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  1. 22 de março de 2011 às 13:23

    Assino em baixo.
    Seria extremamente apropriado resgatar no tempo o papel da velha-guarda nos desfiles das escolas de samba.
    Melhor ainda, trazer para frente da escola, esses baluartes cada vez mais escondidos em fantasias e literalmente brincando de pique-esconde na avenida. Cada vez é uma posição diferente. Seja atrás de uma alegoria, entre alas de enormes esplendores, na parte traseira de uma alegoria, ou quando muito encerrando o desfile. Não sem antes estar devidamente invadida pela imensidão de camisas que ano a ano ocupam espaços nas escolas, naufragando toda uma tradição sofridamente construída ao longo do século passado.
    Vale até uma campanha.
    Vvelha guarda como comissão de frente e depois o quesito de julgamento para introdução do enredo.

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