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MUNDO ► O desastre de Chernobyl, 20 anos depois

02 abr

Outro dia estava assistindo ao excelente documentário (mais um) do Discovery Channel “O Desastre de Chernobyl”, realizado 20 anos após aquela tragédia, em 2006. Uma reprise, não era inédito, mas ainda não tinha tido a oportunidade de ver.

Repleto de imagens impressionantes, até então inéditas, o programa se utiliza de depoimentos de quem viveu aqueles decisivos dias da humanidade (por que não?) para reviver os momentos que antecederam à explosão nuclear da usina e tudo o que foi feito – ou tentado – para minimizar as consequências da tragédia.

Ao se assistir a uma produção dessas, “impressionante” é um adjetivo que se torna redundante, mas do qual é difícil escapar ao falar sobre tudo o que ocorreu. E impressionante foram a coragem e a dedicação das centenas de milhares de soviéticos de diversas origens e formações que se dedicaram a impedir, ao custo da própria vida e saúde, uma tragédia ainda maior, que praticamente devastaria a vida humana na Europa.

Sem condições minimamente ideais e muitas vezes à base de puro improviso, essas pessoas jamais reconhecidas e de comovente resignação evitaram uma verdadeira catástrofe.

Nos dias que correm, quando as notícias sobre a explosão e consequente vazamento ocorridos na usina nuclear de Fukushima, no Japão tomam conta do noticiário, “O Desastre de Chernobyl” é um grande alerta.

Não sei se a emissora tinha o programa já definido em sua grade antes de 11 de março, quando um violento tsunami atingiu o Japão. Se não o tinha, fez muito bem em exibi-lo em um momento como este.

Em 1986, ainda recém-empossado como secretário-geral do partido comunista que comandava a União Soviética, Mikhail Gorbachev ainda sofria com as contrainformações por parte dos serviços secretos soviéticos, enquanto paulatinamente formava as bases que mudaria o país e teriam como motes as palavras glasnost (“transparência”) e perestroika (“reestruturação”). Gorbachev sabia que o regime, àquela altura, estava falido, em franca decadência e que deveria ser abandonado. Talvez – e provavelmente – por isso as informações tanto custassem a chegar ao seu gabinete.

Quando finalmente teve posse de (quase) todas as informações referentes ao acidente e de suas pavorosas consequências, o líder soviético tratou de alertar o mundo e a exigir de seus comandados a maior transparência possível sobre as medidas que estavam sendo tomadas.

Como o programa mostra, tal transparência, ironicamente, acabou se restringindo aos soviéticos, pois conforme a nuvem radioativa alastrava-se com maior ou menor carga pela Europa, governos ditos abertos, democratas ou liberais agiam como o agonizante regime socialista que ainda insistia em dominar a União Soviética.

Na França, por exemplo, as autoridades oficialmente negavam qualquer presença radioativa nos céus da nação, embora os fatos provassem o contrário.

Essa contrainformação oficial é que deve nos manter alerta hoje para o que acontece na Ásia. Todos sabemos que o mundo de 2011 vive em torno do dinheiro e há muitas implicações envolvidas na explosão de Fukushima. Não há por que não desconfiarmos das notícias divulgadas quanto à movimentação da onda radioativa ou à real gravidade dos sucessivos vazamentos que continuam a ocorrer.

Mas o documentário exibido pelo Discovery Channel nos lembra de que ainda existem heróis entre nós. E heróis que jamais serão reconhecidos. À época daquela tragédia, o número de mortos anunciados, de algumas dezenas, era patético. Depois, as vítimas oficiais chegaram a cerca de 4.500. Nunca qualquer estatística incluiu aquelas centenas de milhares de pessoas que foram expostas à radioatividade, seja entre os que trabalharam para evitar um mal maior e ou aqueles que formavam as populações de cidades próximas à usina e que ficaram expostas dias a fio ao perigo.

Nenhuma das pessoas que morreram – e ainda morrem – por doenças decorrentes da exposição à radiação faz parte da relação oficial de vítimas fatais de Chernobyl.

Mas uma reflexão que me deixa particularmente chocado com a humanidade em geral talvez tenha sido minha maior motivação para registrar estas linhas aqui.

Para conter o vazamento, numa ação que, como mencionado acima, custou a saúde e futuramente a vida de milhares e milhares de pessoas, a União Soviética construiu uma cúpula sobre a usina, algo feito com incrível dificuldade e perseverança e sob terríveis condições.

A cúpula, porém, foi construída com uma vida útil prevista de 30 anos.

Hoje, com o desmembramento da União Soviética, os cuidados com a usina estão a cargo da Ucrânia, um país em sérias dificuldades econômicas e que luta como pode para finalizar uma nova e mais segura proteção antes que a atual, já em vias de deterioração, ceda de vez.

A nova proteção está orçada em um bilhão de dólares e vai sendo construída aos poucos, já que é um dinheiro que o país não tem e que tenta reunir com grande sacrifício.

E aí a revolta com a coisa toda. Para a realização de uma Copa do Mundo ou uma Olimpíada, por exemplo, um bilhão de dólares chega a ser um gasto que não chamaria de irrisório, mas padrão. Para transmitir jogos do campeonato brasileiro de futebol as televisões brasileiras se propõem a gastar praticamente esse valor. Atualizando: as últimas informações veiculadas pela imprensa dão conta de que apenas a absurda e desnecessária reforma do Maracanã vai custar em torno de um bilhão de reais.

Há muitas empreitadas de um bilhão de dólares espalhadas pelo planeta, em especial no mundo do entretenimento. Há muitos negócios de um bilhão de dólares – e acima – no mundo dos negócios.

Será que ninguém se dispõe colaborar com uma fatia que seja para reunir um bilhão de dólares para evitar a extinção da vida humana em metade do planeta?

Pois é isso que ocorrerá em caso de nova explosão ou ruptura total da cúpula de proteção de Chernobyl.

É por aí que vemos como a humanidade ainda é pequena e tem muito para a se desenvolver a ponto de poder ser chamada de civilizada.

Para quem se interessar e ainda não viu, fica a recomendação para assistir ao documentário do Discovery Channel, que também pode ser visto em DVD.

E quem assiste a esse documentário ainda pode ter, ao menos, uma reles esperança na humanidade, esperança essa vinda do sacrifício daquelas centenas de milhares de soviéticos que lutaram para impedir o pior, com sacrifício da própria vida.

*** *** ***

Licença Creative Commons
Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

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2 Comentários

Publicado por em 2 de abril de 2011 em História, Mundo, Televisão

 

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2 Respostas para “MUNDO ► O desastre de Chernobyl, 20 anos depois

  1. Eduardo R. V.

    2 de abril de 2011 at 20:11

    Para salvar o sistema financeiro dos EUA, o governo gastou muito, muito mesmo… to errado?

    Dinheiro o mundo tem, o que não tem é vergonha na cara (na falta de expressão pior).

    Curtir

     

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