Início > Futebol > FUTEBOL ► “Como Eles Roubaram o Jogo”: em preto no branco, tudo aquilo que a gente ouve falar da Fifa, mas não tem muito onde pesquisar

FUTEBOL ► “Como Eles Roubaram o Jogo”: em preto no branco, tudo aquilo que a gente ouve falar da Fifa, mas não tem muito onde pesquisar

Nas minhas últimas férias consegui reler, desta vez com maior atenção, o livro “Como Eles Roubaram o Jogo – Segredos dos Subterrâneos da Fifa”, do jornalista inglês David Yallop.

O livro apresenta uma série de denúncias contra tudo aquilo que hoje comanda o Football Association. E “tudo aquilo” podemos entender como Fifa, João Havelange, Adidas, Joseph Blatter, Coca-Cola e outros nomes físicos e jurídicos conhecidos no meio esportivo.

Muita gente com senso crítico mais apurado vive com a sensação de que a Fifa fede. Outro tanto de gente tem certeza disso.

Faço parte do grupo que tem certeza de que o futebol é o que menos importa à dona Fifa.

E o livro pega muito pesado quanto a isso, especialmente com o brasileiro João Havelange, que seria o maior responsável pela deterioração moral e esportiva da entidade.

Tive duas motivações básicas para registrar a leitura desse livro aqui. A primeira, pela leitura em si e as denúncias fartamente documentadas, segundo o autor, que contém. A segunda, o recente lançamento do livro “João Havelange – O Dirigente Esportivo do Século XX”, de José Mario Pereira e Silvia Marta Vieira.

Não li essa obra em homenagem a João Havelange, mas, pelas resenhas publicadas, parece uma óbvia publicação chapa branca, que ignora todas as denúncias feitas contra o mandatário maior do futebol mundial no livro de Yallop, publicado em 1998. Não é uma publicação investigativa.

David Yallop, por sua vez, é um renomado jornalista investigativo, tendo escrito, inclusive, o polêmico “Em Nome de Deus – uma Investigação em Torno do Assassinato do Papa João Paulo I”, sobre a morte de Albino Luciani, livro que tenho vontade de ler.

Duas coisas chamaram a minha atenção desde a primeira leitura de “Como Eles Roubaram o Jogo”. A primeira, as contundências das denúncias. A segunda, uma entrevista a que assisti do autor em que o repórter pergunta se ele não teve muitos problemas após a publicação, problemas sob a forma de processos judiciais por calúnia, difamação e coisas do tipo. Pois Yallop respondeu que jamais sofrera qualquer processo legal, simplesmente porque ele estaria fartamente documentado e as pessoas porventura atingidas pelo livro sabiam disso.

Claro que uma informação dessas dá uma credibilidade maior ao trabalho do autor.

Mas, investigações à parte, nem tudo são flores no livro de Yallop. O jornalista britânico não consegue disfarçar um certo preconceito em relação ao futebol e às práticas sul-americanas (algumas vezes não sem razão), o que pode gerar um certa antipatia.

Para Yallop, os britânicos representam o bastião moral da sociedade, inclusive esportiva. Já os sul-americanos… Enquanto João Havelange é pintado como Diabo, seu antecessor, Stanley Rous, é um santo de boas intenções. Ao longo das páginas, é óbvio esse “dois pesos, duas medidas” do autor.

Sem querer me prolongar explicitando o conteúdo da obra, deixo um exemplo claro. Quando Geoffrey Hurst chutou aquela bola que não entrou, mas que juiz e bandeirinha disseram que foi gol e assim praticamente decidiram a Copa do Mundo de 1966 em favor da Inglaterra, Yallop argumenta que a reação do atacante inglês seria prova maior de que a bola ultrapassara a linha fatal.

Imediatamente após o chute, Hurst saiu vibrando, comemorando o suposto gol. Para Yallop, isso mostra que a bola ultrapassou a linha e só por isso o jogador festejou, pois, sendo britânico, seria incapaz de uma conduta antiesportiva que tentasse ludibriar a arbitragem.

Para quem lê o livro, fica claro que se em vez de um jogador inglês fosse um argentino (apenas imaginando uma simples troca de camisas), Yallop usaria a mesma reação do jogador (sair vibrando) para acusá-lo de maliciosamente tentar confundir os juízes da partida.

Lá pelas tantas comecei a considerar essa postura do autor até um tanto engraçada e ingênua. E quis registrá-la aqui mais por curiosidade. Até porque não preciso ser amigo do cara para reconhecer um trabalho bem feito.

E felizmente as falhas do livro, do meu ponto de vista, detêm-se a essas questões de julgamento de valor e não de apresentação de fatos. E isso é o que realmente importa.

Porque quando o assunto é fraude, corrupção, jogo sujo de bastidores, David Yallop parece muito bem embasado, seguro de suas afirmações e sempre garantindo possuir toda a documentação que solidifique suas acusações.

Talvez daí a falta de processos da parte de qualquer um dos nomes acusados no livro.

Eu recomendo “Como Eles Roubaram o Jogo – Segredos dos Subterrâneos da Fifa”, de David Yallop, a meus amigos e a todos aqueles que acompanham futebol ou esportes em geral.

Assim fica mais fácil entender certas coisas aparentemente absurdas e/ou sem sentido que envolvem a preparação da Copa de 2014 no Brasil. Da mesma forma que ocorreu nos preparativos das Copas de 2010, 2006, 2002, 1998, 1994…

Após a leitura do livro, até o mais inocente fã de futebol vai ter a certeza de que o jogo sujo no esporte mais popular do planeta vai muito além de uma partida disputada debaixo de temporal num campo de terra.

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Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

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  1. 16 de agosto de 2016 às 13:34

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