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MÚSICA ► Chamar Wando de “ídolo brega” é ofender o povo brasileiro

Essa gente é muito engraçada. Alguns representantes desse jornalismozinho de boutique brasileiro abusaram do fácil e torpe clichê de chamar o recém-falecido cantor e compositor Wando de “ídolo brega”.

Brega, para quem não sabe ou finge não saber, é um termo elitista e preconceituoso criado para rotular todos aqueles que fazem sucesso popular, independente da vontade de uma mídia elitista e que tenta elevar à enésima potência seu poder como formadora de opinião.

Isso não é novidade.

Quando adolescente, sempre me irritavam aquelas velhas lojas de disco do centro da cidade que separavam músicas em gêneros para mim surreais: MPB, samba, sertanejo, pop nacional…

Ora, bolas: samba não é MPB? Sertanejo não é MPB?

Para “aquela gente”, não.

A minha percepção é que desde os anos 60, especialmente com o surgimento da bossa nova, houve uma tentativa espúria de se apropriar do termo “MPB” e só conferir essa classificação ao que melhor convinha a esses bacanas formadores de opinião.

Tom Jobim? MPB. Caetano? Ok. Chico? Claro, ok.  Candeia? Samba, não é MPB… Jovem guarda? Nem pensar!

Daí, na década seguinte, passaram a atacar violentamente todos aqueles artistas populares de verdade, que faziam – e muitos ainda fazem – sucesso por todos os rincões de nosso país.

Os artistas populares passaram a ser brega.

E o maior disparate é que essa “classificação” nada tinha a ver com qualidade, continuava não possuindo critério lógico algum.

Assim, enquanto os sambas de Chico eram cults e MPB, as criações antológicas de Benito Di Paula eram… brega?

“A Noite dos Mascarados”? MPB. “Retalhos de Cetim”? Brega.

Não há outra forma de explicar isso senão com palavras como elitismo, preconceito, discriminação e afins.

Mais curioso é observar que verdadeiros tatibitatis da elitista Bossa Nova, como “o pato aqui, o pato acolá”, “o barquinho vem, o barquinho vai” e congêneres, eram – e são – venerados como a descoberta da pedra filosofal da música brasileira.

Tudo depende de quem for o químico milagroso.

Peninha? Brega! Mas quando Caetano gravou Peninha… Ah, Caetano é bacana, Peninha então virou cult!

Para mim, toda essa situação é patética.

Superar essa barreira é difícil, quase impossível. Que o diga Roberto Carlos, agora “aceito” como maior intérprete de MPB do Brasil, depois de sofrer muito preconceito por suas origens – e aí não falo apenas de origem musical, não.

O pior é essa suposta elite “formadora de opinião” fingir não entender o que é popular, pelo simples medo que sempre teve do povo e de se misturar a ele. Ou melhor: medo do povo se misturar a ela.

É por essas e outras que sempre gosto de lembrar uma não tão antiga matéria de uma revista dominical em que a filha de um renomado casal bossanovista afirmou não ter sido criada para se misturar “com esse tipo de gente”. “Esse tipo de gente”, no caso, o povo do subúrbio e da Baixada que invade as praias da Zona Sul nos finais de semana de sol do verão carioca.

Uma coisa é a mídia impor e forjar uma idolatria. Outra é o artista ser visceralmente popular.

Parece difícil aceitar que João Gilberto, por exemplo, nunca foi nem será popular, enquanto Wando é um ídolo reconhecido e querido no Brasil inteiro, tanto que fez boa parte do país chorar com o anúncio de sua morte.

Uma morte tratada com o blasé habitual por aqueles que sempre estão do lado oposto ao do povo.

Por isso chamaram Wando de “ídolo brega”, em vez de ídolo nacional, o que ele eternamente será.

Queiram ou não.

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