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IMPRENSA ► Os perigos da má informação: o caso Cristóvão

17 fev

Na ótima temporada que o Vasco cumpriu em 2011, destacou-se o trabalho de Cristóvão Borges, auxiliar de Ricardo Gomes, que com muita competência tocou o barco na impossibilidade do treinador principal seguir exercendo sua atividade à frente do elenco vascaíno.

Bom para o Vasco. Para o futebol, também. Cristóvão é boa gente, foi um baiano bom de bola, do qual guardo boas lembranças do tempo em que envergou a camisa do Fluminense. Inclusive, uma lembrança das mais bacanas de uma vitória tricolor teve a participação direta de Cristóvão, autor de um golaço que fechou um clássico 3 x 0 contra o Flamengo em 1979.

E até por isso fiquei irritado de tanto ouvir inverdades sobre o passado futebolístico de Cristóvão. Não sei quantas vezes na reta final do campeonato brasileiro, li, vi e ouvi em diferentes mídias que Cristóvão havia sido um volante muito voluntarioso  e de razoável técnica.

A primeira coisa que me passava à cabeça ao ouvir o que para mim é uma tremenda asneira: “É sério isso?”

Porque não parecia.

Cristóvão veio para o Fluminense em 1979, direto da Bahia, ainda em idade juvenil, se não me engano. Talentoso centroavante, o baiano esbanjava habilidade e logo tinha chance em um dos mais jovens ataques já escalados no Fluminense, com Robertinho na ponta-direita e Zezé na esquerda.

No ano seguinte, 1980, fez parte da seleção brasileira de nonos que foi campeã do tradicional Torneio Internacional de Toulon, na qual também jogou outros dois garotos tricolores, o mesmo Robertinho e o extrema adaptado à meia-esquerda Mário. Cristóvão foi titular na estreia contra a China (8 x 0, marcou dois gols) e no decorrer da partida final substituiu o centroavante Baltasar, o Artilheiro de Deus.

Em 1983 foi para o Atlético Paranaense, envolvido na negociação que trouxa o Casal 20, Washington e Assis, para o Flu, e dali Cristóvão seguiria sua carreira.

Apenas na parte final de sua trajetória como jogador Cristóvão atuou mais recuado, utilizando sua habilidade para facilitar a saída de bola de seus times. Acabou chegando à seleção brasileira e participando do grupo que conquistaria a Copa América de 1989.

Agora, daí a dizer que Cristóvão foi um volante… É o mesmo que dizer que Nilton Santos ou Altair foram zagueiros, posição na qual os vitoriosos laterais-esquerdos encerraram suas carreiras.

E mais irritado eu ficava ao reparar que o texto parecia ensaiadinho, sempre dizendo que Cristóvão fora um volante voluntarioso e de alguma técnica.

“Óbvio que esses caras não viram Cristóvão jogar e pegaram a primeira informação que chegou no ouvido. Mas de onde saiu isso?”

Bem, meio sem querer, olhando algumas coisas velhas e ainda não arrumadas após mudar de casa, descobri!

Folheando uma Enciclopédia do Lance!, estava lá a sentença fatal: “Armador e volante.” E mais, para cravar a faca no fundo no peito, exatamente essas palavras: “Jogador clássico, sem muita técnica, mas muito esforçado taticamente e eficiente na marcação.”

Esse é um retrato ruim de nosso jornalismo atual. O menos culpado é o Lance!, até. Cometeu um erro, vá lá, acontece. Chato é ver tanta gente “profissional” engolir qualquer coisa que caia na boca, sem nem cuspir.

Por isso o jornalista deveria ter maior responsabilidade com o que escreve. Não com suas opiniões, já qeu cada um tem o direito a ter a sua e ser respeitado, mas com fatos.

Porque um fato inverídico repetido à exaustão acaba tornando-se verdade.

A internet está aí mesmo para provar isso, com seus diversos casos de hoaxes que fizeram história.

Enfim: Cristóvão foi um centroavante de muita habilidade e que eventualmente jogava de ponta-de-lança, aquele 10 que chegava na área para as jogadas de gol. Voluntariedade nunca foi seu forte: em vez de correr, Cristóvão era dos que faziam a bola correr por ele. E apenas na parte final da carreira recuou para uma posição de armador. Chamar de volante o faria ser confundido com os atuais cabeças de bagre área que inundam nosso futebol.

E para quem tiver dúvida, pergunto se um “volante de alguma técnica” faria o que Cristóvão fez no final desse Fla x Flu de 1979. O placar apontava 2 x 0 Flu, o Fla todo no ataque, Paulinho Goulart defendendo pênalti de Zico, jogo aberto, muito espaço para contra-ataque… Até que, no finzinho, quando já faltavam pernas aos jogadores, Cristóvão deu essas três gingadas à frente de Manguito e explodiu a torcida tricolor:

Nada mal, hein?

*** *** ***

Licença Creative Commons
Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

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Publicado por em 17 de fevereiro de 2012 em Futebol, Imprensa

 

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