Início > Cinema > CINEMA ► De Woody Allen aos tempos de Luiz Severiano Ribeiro: “Cinema é a maior diversão”

CINEMA ► De Woody Allen aos tempos de Luiz Severiano Ribeiro: “Cinema é a maior diversão”

Acho até que já andei escrevendo coisa parecida por aqui. Mas sempre que o controle remoto esbarra em um filme de Woody Allen a primeira coisa que me vem à cabeça é aquele slogan que marcou época do grupo de cinemas Luiz Severiano Ribeiro: “Cinema é a maior diversão”.

Memória direta para os cinemas da Cinelândia, a quase uma hora de viagem balançante, cruzando a Avenida Brasil a bordo do 326 (Bancários-Castelo), muitas vezes com aquele recado básico deixado para a mãe junto ao telefone: “Fui ao cinema na cidade.”

É, porque para quem morava (moro ainda) na Ilha do Governador, principalmente adolescente, ir ao Centro naqueles tempos, passando da ponte e saindo da Ilha, era como ir “à cidade”. Outra cidade.

Normalmente, a “viagem” era logo depois do almoço, para chegar ao cinema antes da 15h e aproveitar a promoção de pagar um ingresso bem baratinho. Com sorte – e alguma grana sobrando – ainda dava para assistir a outro filme na mesma tarde.

E a Cinelândia, para um garoto que, além de amar Elvis e gostar dos Beatles (mais, graças à tia Ester) e dos Rolling Stones (menos, graças à tia Ester), adorava ir ao cinema, era um paraíso em terra.

A começar pelo Metro Boavista, o melhor cinema do Rio de Janeiro, com sua imensa tela que fazia a cortina parecer levar horas para abrir. O cinema perfeito: tela imensa, decoração bonita e visão desobstruída. Foi no Metro que vi uma das cenas que mais marcaram minha história cinematográfica. E não foi na tela. Ocorreu durante “Indiana Jones e o Templo da Perdição”, a segunda aventura de Indy nas telonas (no caso do Metro, telona mesmo). Por algum motivo, só consegui ir a uma sessão no final da tarde ou início da noite. Isso implicava na companhia de muitos engravatados, o pessoal que saía de seus escritórios de trabalho ali no Centro direto para o cinema. Uma plateia diferente, por certo. Mais velha. Mais madura, provavelmente. Menos espontânea… de maneira alguma! Quando o vagãozinho desgovernado de Indy voa dos trilhos que acabavam do nada e cai certinho em outro trilho muito além, eu vi algo que jamais imaginaria: um monte de gente de paletó e gravata levantando, dando hurras, quase comemorando um gol. Fosse época dos chapéus de palha e eles estariam sendo atirados ao alto. Todo mundo acompanhou o voo do vagão meio que pensando: “Ah, não, ele não vai cair naquele outro trilho, não vai, isso é mentira demais, muita cascata, muita…” E daí a plateia veio abaixo. Uma cena mentirosa, previsível, simplesmente brilhante nas mãos de um Steven Spielberg. Uma cena de cinema.

Havia o Odeon, claro, hoje felizmente (muito) bem reaproveitado, com seu balcão que me recorda a pior experiência que vivi na Cinelândia: filme ruim (“O Último Tubarão”, de plástico, por sinal) e uma dor de dente que me impediu de esvaziar o saco de pipoca. E logo num dia em que fomos em grupo passar a tarde divididos em dois cinemas, dois filmes, voltando direto para a aula no Colégio Estadual Prefeito Mendes de Moraes, onde estudávamos. Segundo grau, hoje ensino médio.

Por falar em pipoca, ali na Cinelândia a melhor era a da bomboniére dos cines Palácio, que dividiam o mesmo hall. Palácio I e Palácio II. O Palácio II era o antigo balcão do Palácio I. Com a reforma, ficou assim: o Palácio I, ainda um grande cinema, com ampla capacidade; e o Palácio II, pequeno, aconchegante, em formato de semiarena, com as poltronas dispostas da altura da tela para cima, o que não deixava nenhum fio de cabelo incomodar a visão. Na verdade, ali a cabeça da fila da frente ficava na altura dos nossos joelhos, quando muito. Apresar de eu adorar o Metro Boavista, acho que o Palácio II era meu predileto. Foi lá, por exemplo, que vi sentado na escada o épico e longuíssimo “Reds” numa nublada tarde de domingo (sem desconto na entrada, infelizmente, porque a promoção não rolava nos fins de semana).

Se o Palácio II talvez fosse meu favorito, o tradicional Pathé era, com certeza, o que eu achava mais desconfortável. Poltronas duras demais. E imagine que numa tarde de verão desabou o mundo sob forma de água durante uma sessão. Tudo alagado porta afora e Cinelândia adentro. Não me restou jeito senão entrar para a sala novamente e assistir a mais uma sessão de um filme que nem era lá grande coisa. Coisa alguma, para ser mais honesto. Se não me engano, “Os Caçadores da Serpente Dourada”, um pastiche sem talento de “Os Caçadores da Arca Perdida”. Com as mesmas cenas mentirosas, inverossímeis, mas sem um Spielberg na direção, chatas. E ali entendi definitivamente a diferença entre um grande diretor de cinema e “os outros”.

Esses eram meu “Clube dos Cinco” da Sétima Arte, porque estavam a apenas um ônibus e cerca de uma hora de distância de casa. Mais tarde também frequentei o cine Vitória, ali na Senador Dantas. Digo “mais tarde” porque o Vitória, um baita cinema, amplo, confortável, bem localizado, ficou durante muitos anos entregue aos filmes eróticos. Até que voltou a exibir filmes convencionais, o que os habitués da vizinhança demoraram um pouco a perceber. Lembro que depois de um dos primeiro filmes que vi ali, sessão encerrada já de noite, fiquei esperando meu pai me buscar e reparei que as moças que andavam para lá e para cá, definitivamente, não passeavam na porta dos outros cinemas. No máximo, ali na rua das Marrecas, onde havia uma saída lateral do Metro Boavista. Uma rua imprópria para menores.

Havia mais alguns cinemas “adultos” na Cinelândia, em suas ruas menores, os quais, evidentemente, não frequentei e nem conheci, a não ser pela programação dos jornais.

Bem, o post seria sobre Woody Allen, “A Última Noite de Boris Grushenko” e “Tudo Pode Dar Certo”. Acabaram saindo algumas linhas de pura recordação e celebração aos tempos em que o cinema era a maior diversão – ou uma das principais. Volto a Woody Allen outro dia, assim como pretendo voltar aos cinemas e filmes antigos.

*** *** ***

Licença Creative Commons
Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: