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FLUMINENSE ► “Eu vi tudo, Prego. Eu vi tudo”, texto de Edu Rocha

Outro dia, navegando pela internet, dei de cara com um maravilhoso texto sobre Preguinho e Mano, dois atletas que estão no panteão de imortais tricolores.

João Coelho Netto, o Preguinho, provavelmente o maior atleta brasileiro da História, campeão em inúmeras modalidades esportivas sempre defendendo o nome do Fluminense.

Tamanho amor tinha Preguinho pelas cores tricolores que se recusava a defender o clube na passagem do amadorismo para o profissionalismo. Para Preguinho, não fazia sentido e era totalmente descabida a hipótese de receber dinheiro para vestir a camisa do Fluminense.

Mas o profissionalismo impunha isso e Preguinho batia o pé: pelo Fluminense jogaria apenas por amor.

Muitos foram os apelos para que Preguinho aceitasse a nova era seguisse defendendo o Fluminense, que seria o maior prejudicado caso ele se mantivesse irredutível em sua honrada posição.

O jeito encontrado por Preguinho foi singela e definitiva prova de amor ao Tricolor: se era desse jeito, tudo bem, ele aceitaria continuar jogando e marcando seus gols pelo Fluminense, mas, por contrato, ele estabelecia que receberia apenas um centavo por mês como salário.

Há muito que falar de Preguinho e há muito sobre ele tanto na rede, como na boa literatura tricolor, da qual o melhor exemplo é “A História do Fluminense”, escrita pelo irmão de Preguinho, o poeta Paulo Coelho Netto.

Outro irmão de Preguinho é o tema desta coluna. Emmanuel Coelho Netto, o Mano, atacante pela direita que formou histórica linha ofensiva com Zezé, Welfare, Machado e Bacchi no tricampeonato de 1917-18-19.

Mano perdeu a vida moço ainda, no auge da carreira, por complicações sofridas após uma violentada entrada de um adversário defendendo as cores do Fluminense, vítima dos poucos recursos médicos da época e do lado bárbaro do futebol de então, que não permitia substituições. Mesmo gravemente contundido, Mano fez questão de continuar em campo, vindo a falecer nove dias depois.

Mas neste post não pretendo ter a voz – ou a tecla. Apenas reproduzo o texto encontrado no site Fluminense & ETC, um texto muito bonito assinado por Edu Rocha e que merece todos os aplausos.

Lá na página original (o link é este aqui), parabenizei o autor e solicitei autorização para reprodução neste espaço. Talvez por ter lido bem após a publicação, não obtive resposta, mas creio que não se oporia a mais esta homenagem aos dois grandes atletas e ao próprio escritor.

*** *** ***

Setembro 10, 2011

Eu vi tudo, Prego. Eu vi tudo.

Dez de outubro de 1979, Rua das Laranjeiras, 382, Rio de Janeiro. Dona Linda acorda no meio da noite e vê que seu marido não está na cama. Levanta-se e o procura pelo modesto apartamento. Ele está de pé, observando um quadro emoldurado em madeira e vidro, pendurado na parede da sala, com a inscrição: “João Coelho Netto, o Preguinho, Grande Benemérito Atleta. Fluminense Football Club, 22 de Janeiro de 1952″. Na ocasião da entrega do diploma, Preguinho declarara: “eu mal sabia falar e o Fluminense já estava em minha alma, em meu coração e meu corpo”. Dona Linda vê o marido de 74 anos, alto e ainda forte, enxugar uma lágrima que escapa, com as costas da mão direita. Comovida, aproxima-se e o conduz gentilmente de volta à cama. Seria a última vez que Preguinho contemplaria o certificado emitido pelo clube que tanto amava, por quem tantas glórias conquistara e do qual era uma lenda viva.

Sessenta e sete anos antes de derramar sua derradeira lágrima, João, aos 7 anos, embolava-se nas pequenas ondas da Praia de Botafogo. Emmanuel, o Mano, seu irmão mais velho, então com 14, ensinava-o a nadar. Mano acompanhava de perto, protetor, mas procurava não interferir e deixava o garoto se virar sozinho. O pequeno era valente, afundava e demorava-se, mas voltava à tona e enfrentava as ondas. Mano exclamava: você mais parece um prego, João!

Prego. A menção a esse apelido, que acompanhou João por toda a vida e popularizou-se no diminutivo, faz qualquer tricolor de boa cepa transpassar-se de honra e crispar-se de orgulho. Preguinho. O super-atleta do Fluminense, o atleta mais completo do Brasil.

O pai de ambos, Henrique Coelho Netto, escritor e poeta famoso, fundador da ABL, autor de 130 livros e, acreditem, exímio capoeirista, mudara-se para a frente do FFC. O intuito era criar os 7 filhos dentro do lema “mens sana in corpore sano”. Para o desenvolvimento intelectual Coelho Netto implantou no clube as “vesperais de arte”, com recitais de poesia, sessões de literatura, ópera, teatro e dança, tranformando-o em concorrido centro cultural e social da Capital da República. Criou os filhos onde, em 1914, nasceria a Seleção Brasileira, e em 1918 seria construído o primeiro estádio do Brasil. A história da família Coelho Netto entrelaça-se e confunde-se com a do Fluminense.

Em função da educação imposta pelo pai, Preguinho transformou-se em algo parecido com um super-herói da vida real. Praticava e competia em nove, sim eu disse no-ve, modalidades esportivas: natação, remo, futebol, vôlei, basquete, saltos ornamentais, hoquei sobre patins, polo aquático e atletismo (salto em distância e altura, corridas curtas e longas). Ganhou nada menos que 387 medalhas, a maioria de ouro, e 55 títulos. Foi titular e artilheiro, por anos a fio, do Flu e da Seleção Brasileira, da qual foi capitão e autor do primeiro gol em Copas do Mundo, em 1930, no Uruguai. Uma de suas mais celebradas façanhas aconteceu em 1925, quando ganhou uma competição de natação na Praia de Botafogo, donde saiu, de roupão, para o clube. Lá, mudou de roupa a tempo de integrar o time de futebol e ser campeão do Torneio Inicio. Atuava como amador, e, mesmo após o advento do profissionalismo, jamais aceitou receber qualquer pagamento para defender o Tricolor.

Preguinho, entretanto, não se vangloriava de suas façanhas e conquistas. O motivo para tal modéstia era doloroso: ele carregava no peito a magoa da perda de seu irmão mais velho, e por isso não se permitia certas atitudes. Tenho, cá pra mim, que o furor esportivo desmensurado, quase insano e a energia sobre-humana, eram consequência direta dessa perda. Uma homenagem ao tutor e ídolo ausente. Uma necessidade de realizar, pelos dois, tudo que o irmão não pudera em função da partida prematura e inesperada.

Eis a bela e trágica história de Mano – Emmanuel Coelho Netto.

Mano é o primeiro agachado, da esquerda para a direita

Mano, jogador de raça invulgar, era titular do Flu, tendo conquistado o tricampeonato estadual, de 1917 a 1919, integrando a que é considerada a melhor equipe da era do amadorismo . Em 1922, aos 24 anos, disputava peleja contra o São Cristóvão, no Laranjal, quando recebeu uma entrada violenta no abdome. É atendido com uma massagem, pelo treinador, que o aconselha a não retornar ao jogo. Acontece que naquela época ainda não havia substituições e Mano recusou-se a desfalcar o Tricolor. Retornou, com hemorragia interna, à ponta direita e jogou em condições precárias até o apito final, sob os olhares apreensivos de todos.
 
Eis a verdade, amigos: nosso Mano sangrou até a eternidade em honra do Fluminense Football Club. Saiu das Laranjeiras para o leito de casa onde agonizou por nove dias e nove noites, antes de nos deixar. Uma sede insaciável o acometia, mas toda água sorvida vasava-lhe pelas artérias, qual vaso furado. Alternava momentos de sofrimento e serenidade, e somente chorou quando seu pai anunciou-lhe a chegada do sacerdote para ministrar-lhe a extrema unção. A possibilidade de perecer não lhe passava pela cabeça, pois, assim como Preguinho, não pensava em derrota, apenas no embate, ao qual entregavam-se por inteiro. Nas palavras de seu pai –  “Voltei-me. Ele inclinara a cabeça e então vi as lágrimas da sua juventude, os seus sonhos desfolhando-se às gotas, todos os seus amores despedindo-se.”

Em primeiro de outubro daquele ano, o Berço da Seleção fervilhava, em dois cenários contrastantes. De um lado, uma multidão de 25 mil pessoas, lotação máxima do maior estádio do país, chegava excitada. Era o dia do esperado embate entre Brasil, atuando de tarjas negras, e Uruguai, pelo Sul-americano do Centenário da Independência, sediado nas Laranjeiras. De outro, um cortejo fúnebre de duzentos carros, com representações de diversos clubes, acompanhava o corpo do jovem guerreiro rumo ao cemitério. Dois anos após o episódio, Coelho Netto escreveu “Mano, o livro da saudade”, relato sobre a agonia do filho.

Ao adentrar os Céus, Mano foi recebido por doze legiões de anjos perfilados, em respeitoso silêncio. À sua passagem, oravam: Pai, recebei este filho em Vossa casa e concedei-nos sua coragem e abnegação, para que bem possamos combater o mal.

Cinquenta e sete anos depois, os mesmos anjos receberam Preguinho, com a mesma reverência. À sua passagem, oravam: Pai, recebei este filho em Vossa casa e concedei-nos sua força e inquebrantável determinação, para que bem possamos combater o mal.

O reencontro caloroso dos irmãos inundou de paz o coração dos anjos, que sorriram. Pela primeira vez, Preguinho permitiu-se vangloriar de seus feitos imortais. Estava ansioso por relatar a Mano tudo que realizara, após sua partida, na defesa das três cores que traduzem tradição. Mas foi interrompido pelo mais velho, com um abraço, um largo sorriso e as seguintes palavras: Eu vi tudo, Prego. Eu vi tudo.

ST
Edu Rocha

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