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CARNAVAL ► Fortuna é a grande campeã do desfile de 2182 com um Havaí no Rio de Janeiro

O Grêmio Recreativo e Financeiro Escola de Renda e Entretenimento Acadêmicos da Fortuna foi o grande campeão do carnaval de 2182 do Rio de Janeiro. Com um desfile arrojado em criatividade e de fulgurante esplendor, o resultado oficial apenas corroborou aquilo que todos sabíamos desde o final da passagem da Fortuna. Desse modo, houve uma grande injeção de papéis da campeã na Bolsa de Valores Brasil e o valor de suas ações dispararam, com a cotação da escola batendo todos seus recordes. Em segundo lugar ficou a Unidos do Ouro Preto e a Mercadores do Terceiro Milênio foi a terceira classificada. Milionários da Globalização e Capitalistas da Alegria foram os últimos colocados e assim tiveram suas ações retiradas da bolsa principal de nosso mercado econômico, podendo capitalizar durante um ano apenas em pregões secundários.

A ideia de homenagear o Havaí foi uma iniciativa conjunta do conglomerado financeiro que controla as agências de turismo havaianas e das agências de turismo cariocas. Daí surgiu o enredo “O Havaí é logo ali”. Assim, 80 mil havaianos entupiram nossos hotéis e resorts e se encantaram com o desfile das escolas de renda.

Vale destacar o ótimo comportamento desse imenso grupo, seja na cidade como simples turistas, seja no Rendódromo, como público da Fortuna. No Rendódromo, os havaianos aguardaram ordenadamente em seu espaço o esvaziamento das arquibancadas por parte dos espectadores da Unidos nas Finanças & no Lazer até serem teletransportados aos lugares a que tinham direito.

Em troca dessa homenagem patrocinada, as agências havaianas ofereceram diversos pacotes turísticos aos cariocas, tendo sido vendidos nada menos que 125 mil deles até o momento que o colunista produz estas linhas. De quebra, as ações do conglomerado turístico tiveram uma alta realmente compensadora na principal bolsa de valores norte-americana.

 Exuberância de luxo, tecnologia e criatividade nos palcos alegóricos

Provavelmente, o ponto determinante da vitória da Acadêmicos da Fortuna foi o requinte no desenho e na confecção referentes ao quesito Palcos Alegóricos. A começar pelo palco propriamente dito, que atendia à obrigatoriedade de figuras humanas e que representava os vulcões que compõem a paisagem do arquipélago havaiano. Os componentes, dispostos por tamanho e trajando fantasias em degradê (da cor do fogo à cor do barro) com o colorido das impressionantes lavas expelidas em erupções vulcânicas, carregavam adereços que lançavam jatos de fogo e lama que reproduziam com incrível semelhança imagens de chamas vivas que tanto vemos em documentários geológicos. Esses jatos, ao cair, transformavam-se em barro úmido que escorria sobre os componentes e pelo palco inteiro, tal como as lavas se derramam sobre o que encontram pela frente nas encostas vulcânicas. O impacto visual foi realmente espetacular.

Mas não foi apenas esse palco alegórico que extasiou público e jurados do desfile da Fortuna. As imagens tridimensionais formadas com lasers, reproduzindo as famosas praias daquelas ilhas do Pacífico e suas míticas águas, inclusive com holografias de grandes surfistas da História literalmente na crista das ondas, deixaram até a nós, da imprensa, sem palavras.

Vale aqui o registro de um colega de outro veículo de comunicação. Ao passar pela área de bastidores algumas horas antes do desfile começar, ele ouviu uma criança perguntar à mãe se aquele palco não havia sido esquecido, porque não havia nada nele. Ainda nos comove a ingenuidade infantil, incapaz de vislumbrar o absurdo talento tecnológico dos artesãos de nosso carnaval.

Outro assombro foi o palco que representava as praias havaianas fora d’água, ou seja: suas areias. Imenso, foi coberto por areia trazida do Havaí mesmo e mostrava centenas de clones humanos espalhados ao sol, sob a sombra dos coqueirais e à brisa da tarde, com um incrível detalhe: cada espectador que veio assistir à escola de renda Fortuna tinha o rosto automaticamente escaneado ao ser alocado nas arquibancadas. À medida que esse palco passava pela Avenida, esses rostos eram randomicamente inseridos nas cabeças dos clones do palco alegórico. Assim, a plateia da Acadêmicos da Fortuna literalmente se via nas areias havaianas. Um recurso inédito nos desfiles e de impacto sem precedentes. Não à toa, conforme o palco passava levantava os gritos de “Já lucrou!”.

Destaques sem fim 

Mesmo em coisas mínimas, a Fortuna mostrou esmero e requinte. Como em dois tripés ao fim do desfile que cumpriam duas obrigatoriedades do regulamento: o representante da velha guarda e a representante da ala das baianas (ala há muitas décadas bem substituída pela ala das cariocas). Todos sabemos que há uma pressão cada vez maior pela derrubada dessas obrigatoriedades, totalmente anacrônicas em relação ao nosso tempo e que pouco ou nenhum significado ou interesse possuem. Pois mesmo nesses casos a escola campeã mostrou o porquê da justiça de sua vitória, tornando esses itens de algum modo atraentes. No caso da obrigatoriedade da velha guarda, pela primeira vez o representante foi o irmão do representante do desfile anterior; e a representante da extinta ala das baianas vestia uma fantasia espacial repleta de luz.

Já que foi mencionado, não há como deixar de destacar a ala das cariocas, com suas formosas e desnudas mulheres muito bem-vestidas com colares havaianos estilizados feitos de conchas coloridas. Ressalte-se o capricho da comissão de design gráfico da escola, que organizou as cariocas por tonalidade de pele, numa outra espécie de degradê muito bonito, com as brancas à frente, passando pelas louras, as mais morenas, até chegar às negras. Por isso os tapas-sexo tinham a cor da pele de cada componente da ala, para não quebrar a harmonia visual e deixar a sensação de estarem completamente despidas, o que o regulamento proíbe – por isso a necessidade do tapa-sexo.

O quesito Alas Coreografadas foi outro ponto alto (incrível harmonia entre luxo e coreografia), assim como o excelente trabalho do engenheiro de áudio, que desenvolveu um software especialmente para harmonizar o som dos uqueleles havaianos com as tradicionais e carioquíssimas batidas tecno que dominam as boates e os botequins do Rio de Janeiro. Um trabalho de primeira qualidade que talvez não obtivesse o efeito desejado se os engenheiros sonoros da agremiação não conseguissem distribuir o áudio wireless com extrema fidelidade por toda a pista do Rendódromo. Mereceu amplamente as notas 10 no quesito Efeitos Sonoros.

Enfim, uma vitória incontestável de quem mostrou que há ainda sempre o que inovar no desfile das escolas de renda e entretenimento do carnaval carioca.

Substituição do homem pelo holograma

Cresce com força nos bastidores a antiga solicitação de muitos diretores das agremiações que desfilam no carnaval para que seja permitida a completa substituição do elemento humano por hologramas. Segundo aqueles que fazem lobby por essa ideia, não faz mais sentido, com todo o desenvolvimento tecnológico e as responsabilidades financeiras, o investimento em tantas pessoas quando é possível conseguir o mesmo efeito e desfilar com a mesma grandeza utilizando apenas hologramas.

O retorno financeiro seria muito maior com a utilização única de hologramas, pois o custo para isso é ínfimo, se comparado com a presença de humanos desfilando. Seria necessário gastar apenas com softwares adequados, um investimento baixíssimo e de retorno garantido.

“Não faz mais sentido algum trabalharmos com homens nos desfiles, é um gasto injustificável”, afirmou confiável fonte. “Há uns 100 anos fizemos o mesmo com o som, substituindo dezenas de músicos por um único técnico de computação e assim aumentamos nossos lucros.”

O lado feio do nosso carnaval

Infelizmente, nem tudo foi beleza e rendimento no carnaval carioca deste ano. A Secretaria de Segurança Pública registrou ocorrências em diversas regiões da cidade, todas provocadas por grupos organizados de vândalos, baderneiros, verdadeiros terroristas, dispostos a tumultuar nossa tão pacífica, profissional e lucrativa festa.

O incidente de maior gravidade ocorreu próximo à área do Rendódromo. Em uma ação ousada, os terroristas agiram junto ao palco onde se realiza um dos maiores empreendimentos financeiros do orçamento anual do estado.

Segundo as autoridades, um grupo de vândalos, estimado em número superior a trezentos, passava pela Avenida Rio Branco, a mais tradicional via pública destinada a meditação e workshops financeiros durante o período carnavalesco, dispostos em pequenos subgrupos de vestimentas similares. Eles avançavam em alto vozerio, acompanhado de pancadas em aparelhos de couro e metal que provocavam desagradável barulho, perturbando a paz e assustando os tradicionais frequentadores do local, além de violar a lei municipal que proíbe agrupamentos violentos desse tipo.

Os criminosos portavam ainda estandartes com nomes que identificavam diversas falanges que participavam da ação.

Instigação à baderna

Felizmente, a polícia repressora e mantenedora da ordem agiu com extremo e necessário vigor, dispersando os bandidos, efetuando dezenas de detenções e apreendendo boa parte do belicoso material que portavam.

Dentre esse material, panfletos apócrifos que estimulam jovens a se unirem a uma causa que os criminosos abusadamente chamam de cultural. Eles se autointitulam Caçadores da Arte Perdida e seu lema seria “Escolas de Samba, Hoje e Sempre!”. Na opinião de investigadores, trata-se de uma tentativa de extremistas fanáticos de trazer de volta antigos e bárbaros hábitos carnavalescos surgidos quase dois séculos atrás e há muito banidos de nossa sociedade.

Naqueles tempos, antes ainda da Revolução Financeira do século retrasado, em vez de Escolas de Renda e Entretenimento, desfilavam no carnaval essas desordeiras e poluidoras (física e sonoramente) instituições então chamadas de Escolas de Samba, algo totalmente extinto em nossa ordeira e evoluída sociedade atual.

Ainda segundo os investigadores, a audaciosa ação deste ano na Rio Branco teria como motivação os 250 anos da primeira competição entre aqueles antigos bandos.

Mais terror nos subúrbios da cidade

A ocorrência no centro financeiro, porém, esteve longe de ser a única provocada por esses grupos terroristas que têm agido com cada vez maior atrevimento a cada carnaval.

Em diferentes e distantes regiões da cidade, a polícia recebeu vários e desesperados apelos de cidadãos aflitos para que algo fosse feito a fim de que a ordem fosse restabelecida em sua vizinhança.

Nos subúrbios houve a maior incidência de tumultos, especialmente na região de Oswaldo Cruz. Há relatos dramáticos sobre fatos presenciados naquela paragem, pois não era possível aos órgãos de Ordem Pública rechaçar tantas manifestações realizadas quase ao mesmo tempo em diferentes pontos do Rio de Janeiro.

Apesar do receio geral da população em se manifestar a respeito, nossa reportagem conseguiu com exclusividade entrevistar uma nervosa e apreensiva dona de casa, que não sabe mais o que fazer para afastar os filhos da influência desses grupos terroristas. Mas ela só aceitou nos receber sob a preventiva exigência de anonimato.

Desordem apavorante

Yara Martins (nome fictício) mora numa conhecida via do subúrbio carioca. Viúva, é mãe de três filhos, com idades de 8, 9 e 14 anos. Assim como muitas outras mães da região, não sabe como afastar as crianças do que ela chama de “estranha atração” exercida pelos terroristas.

“Não sei mais o que fazer. Nem eu nem minhas amigas. Todo ano tem sido assim. Quando chega essa época, quem pode manda os filhos pra casa de parentes em cidades vizinhas. Mas quem não pode, como eu, acaba aqui, sofrendo”, desabafa Yara.

Este ano foi pior para a dona de casa. Ela passou pela traumática experiência de notar a  ausência dos três filhos e descobri-los acompanhando um numeroso grupo de baderneiros: “Foi horrível. Eu não entendo, oriento tanto as crianças…”

Após soluçar por alguns instantes, Yara Martins continuou: “Eu estava ouvindo o barulho que eles faziam ao longe, sabia que aqueles homens estavam chegando. Então mandei as crianças para seus quartos e aguardei quieta na cozinha, prestando atenção no som passando pela frente de casa e acompanhando ele ir diminuindo aos pouquinhos. Eu achava que meus filhos estavam em segurança.”

Ela toma fôlego e continua: “Já estava respirando aliviada, achando que as crianças estavam em seus quartos, quando achei a casa muito quieta. Eu não percebi, simplesmente não percebi. Durante o barulho da passagem deles por aqui, as crianças devem ter se aproveitado para sair e eu não notei, não sei como isso foi acontecer.”

“Quando entendi que eles não estavam em casa, saí como uma louca portão afora e vi um grupo grande já quase dobrando a esquina. De longe reconheci o corpinho do meu caçula atrás. Corri gritando como uma louca e numa laçada só agarrei os três  para tirá-los de lá. Eles nem me olhavam, só forçavam, querendo se livrar de mim e ir atrás daquele bando. Os dois menores eu consegui segurar, mas o mais velho era mais forte, ele foi…”

Nesse ponto, Yara irrompe em lágrimas. Há dois dias ela não vê seu primogênito, mas tem a esperança de que logo ele esteja de volta: “As pessoas dizem que, quando isso acontece, eles voltam depois, quando acaba o carnaval. Eu tenho fé.”

Feitiçaria?

Mas o que mais assusta não só Yara Martins, como todas as mães cariocas que já vivenciaram experiência semelhante, é o estranho fascínio que esses grupos exercem sobre a criançada. “Eu não entendo”, explica. “Eles são estranhos, se vestem de maneira inadequada, alguns usam pouca roupa, fazem gestos esquisitos com o corpo, batem paus e mãos em umas caixas… Pior: há velhos entre eles! E crianças! Não sei que tipo de mãe expõe o próprio filho a uma maluquice dessa.”

Yara e muitas de suas amigas têm uma explicação na ponta da língua para isso: “Eu e minhas amigas achamos que é alguma feitiçaria. Só pode ser. Pelo modo que eles passam, fazendo algazarra, com aquele vozerio, todos juntos, dizendo as mesmas frases, se requebrando, com aquelas roupas esquisitas… e aquele som! Meu Deus, só pode ser feitiçaria!”

Nosso tempo com dona Yara chegava ao fim. Abalada, preferimos não expor ainda mais sua aflição pela ausência do filho. Pedimos apenas que ela tentasse explicar um pouco melhor, até como alerta às mães de toda a cidade, como seria o tal som que caracterizaria a feitiçaria que ela e as amigas julgam capaz de envolver suas crianças: “Ah, moço, é diferente. Eu nunca ouvi. São umas batidas meio secas. Às vezes parece coco caindo, um monte deles, um atrás do outro. Outras vezes parece ripa de madeira batendo no chão ou numa mesa… É um barulho muito diferente. Faz um tum-tum… Deixe ver se me lembro, mas é tão difícil… Ah, é mais ou menos assim: ‘bum-bum-pati-cum-bum-prugurun…’”

Dona Yara se esforça para puxar pela memória: “É isso, mais ou menos isso: ‘bum-bum-paticumbum-prugurundum-bum-bum-bum-paticumbum- prugurundum’. Aí eles fazem também uns ‘tá-tá-tás’ no meio… É um som horrível desses. É feitiçaria, moço. É feitiçaria!”

E assim deixamos Yara Martins, sozinha ao portão, olhar perdido no horizonte ao pôr do sol, orando pela volta do filho querido.

O filho que foi atrás do que os terroristas chamam de escola de samba e ainda não voltou.

Definitivamente, isso não pode continuar assim.

É preciso cortar esse mal pela raiz.

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