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FÓRMULA 1 ► Três décadas depois, um Rosberg no lugar mais alto do pódio

No GP passado de F1, na China, Nico Rosberg conquistou sua primeira pole-position e depois, praticamente de ponta a ponta, sua primeira vitória na categoria.

Por incrível que pareça, acompanhei com atenção a tudo isso. Talvez por causa do horário, acabei assistindo ao treino classificatório e torci pela pole de Rosberg. Depois, resolvi dar uma chance à Mercedes, pensando: “Vou ver a largada dessa corrida.” Bem, vi a largada e a corrida inteira, ficando bastante satisfeito com a vitória do ainda jovem e talentoso piloto.

“Mas por que diabos essa simpatia por um alemão filho de mãe alemã e pai finlandês?”

Justamente pela parte do pai finlandês, o campeão mundial de 1982, Keke Rosberg, meu último ídolo na F1. Na verdade, ídolo mesmo, na F1, só tive dois: Emerson Fittipaldi e Keke, que, portanto, foi meu segundo e último.

Por quê? Poderia ser Gilles Villeneuve, por exemplo. Ou Jackie Stewart, que tinha o grave “defeito” de disputar vitórias e campeonatos com Emerson. Ou ainda outros tantos grandes e carismáticos pilotos do tempo em que a Fórmula 1 em nada se assemelhava a um videogame cheio de não-me-toques como agora.

Mas Keke era um tanto diferente para mim. Talvez por eu ter sido um adolescente que torcia pelo sonho de Emerson em manter uma equipe brasileira e por Keke ter sido piloto da Copersucar.

Antes, Keke já se mostrara um piloto veloz até pilotando uma Theodore, mas sem nada a mais que o destacasse, a não ser o nome sonoro: Keke Rosberg. A minha admiração surgiu mesmo a partir daí, guiando os então amarelinhos protótipos nacionais da família Fittipaldi.

Com todas as dificuldades que a Copersucar enfrentava, Keke conseguiu mostrar serviço e chamar a atenção do circo. Lembro em particular de uma corrida em Interlagos, em 1980, na qual Keke levou o chefe ao desespero. Eu até achava que minha memória pudesse estar me traindo, mas encontrei um vídeo no YouTube com essa manobra. Vinha Emerson à frente de Keke ali pela sétima, oitava colocação. Emerson estava na caça do carro à sua frente e em uma das retas do circuito pegou o vácuo e abriu para fazer a ultrapassagem. Só não contava com Keke, que, abrindo mais ainda, ultrapassou não só o chefe Emerson como o carro adiante, ganhando duas posições na mesma manobra. Quase o finlandês perdeu o emprego no dia seguinte…

Veja ali a partir de 31’50” do vídeo:

Keke era assim. Quem vê Nico pilotar, com seu estilo mais limpo e seguro de guiar, e viu Keke, sabe que o filho está muito mais para o professor Alain Prost do que para o pai, o Finlandês Voador. Não é defeito, são apenas estilos diferentes.

A figura de Keke também era muito carismática, com aqueles cabelos louros, bigodão, óculos escuros e seu estilo extremamente arrojado, realmente parecia bem um viking dos tempos modernos. Ou um herói de história em quadrinhos.

Da Copersucar, Keke foi para a Williams, onde se tornaria campeão em 1982. Um dos maiores campeões, aliás, apesar de haver conquistado apenas uma vitória na temporada. “Mas como assim?”

Ora, é fácil ser campeão recebendo um monte de bandeiradas na frente dos outros quando se tem o melhor carro. E a Williams de 1982 de Keke Rosberg, apesar de ser um carro muito bom, com um extremamente confiável motor Ford-Cosworth e admirável equilíbrio, estava muito longe em potência, velocidade, das escuderias montadas com os recém-chegados motores turbos. Keke sabia que havia ao menos oito carros de quatro equipes diferentes mais rápidos que o dele. Para compensar isso, o finlandês fazia zebra, grama e terra de pista. Voava baixo como se estivesse guiando um kart. E ficava sempre à espreita para beliscar um pódio aqui, outro ali, até conquistar sua única vitória no ano e, no fim, um campeonato muito improvável.

Esse estilo de Keke, infelizmente, parece banido da F1 de boutique de hoje, onde qualquer ultrapassagem pode ser penalizada com o “cantinho do castigo” por representar uma manobra perigosa. Inimaginável, nos dias atuais, um duelo como os protagonizados por dois dos maiores botas dessa categoria, Keke Rosberg e Gilles Villeneuve, que no vídeo abaixo aparecem nas estreitas ruas de Long Beach, em 1982.

Long Beach com ruas estreitas o suficiente para diminuir a diferença entre os motores Ferrari e Williams. E Gilles Villeneuve, para quem não sabe, é aquele moço que chegou em 1981 a pilotar um F1 sem aerofólio dianteiro debaixo de chuva. Muita chuva. Seria preso hoje.

Bem, nas temporadas seguintes a Williams também se bandeou para a Era Turbo, mas o carro perdeu aquele equilíbrio que o fazia parecer um kart. Em 1986, Keke foi contratado pela McLaren, o que não deu muito certo. Lembro que o belo carro vermelho e branco simplesmente não aguentava o pé do finlandês. Reza a lenda que um repórter teria perguntado a Rosberg se ele não estaria exigindo muito do carro, pisando muito forte, além do que o motor McLaren aguentava. Keke mandou na lata: “Me contrataram porque eu piso fundo. Eles que tratem de fazer o motor aguentar meu pé.”

Cansado e/ou frustrado, Keke deixou a Fórmula 1 no fim daquele mesmo ano.

Keke foi um piloto espetáculo, vibrante, guerreiro. Extremamente hábil. Muitos dizem que, se fosse mais cerebral, usasse mais os miolos que os pés, poderia ter conquistado mais vitórias e títulos. Pode ser, mas parece que o prazer de Keke sempre foi pisar forte, abusar da velocidade, extrapolar limites de carros e pistas, sair nas quatro rodas sobre zebra e grama e seguir em frente.

Como nessa caça, em Kyalami, 1985, alargando o quanto podia a maltratada pista de asfalto:

Ou segurando essa rodada no Canadá, também em 1985:

E convenhamos que fazer uma largada como essa em Long Beach (com certeza uma manobra para os comissários de hoje colocarem “sob investigação”) e segurar no braço na rodada mais adiante é coisa para muito pouca gente:

Como se vê, um estilo impossível de não ser admirado por uma legião de fãs da velocidade hoje órfã de adrenalina na F1, uma categoria onde as corridas são decididas nos boxes ou através de mirabolantes estratégias de engenharia.

Por levar o nome do pai, Nico tem minha torcida, assim como simpatizo com Lewis Hamilton por ser dos poucos pilotos atuais a provocar emoção numa corrida de Fórmula 1 por sempre tentar ultrapassar quem estiver à sua frente.

Afinal, o objetivo da corrida é esse – ou não?

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