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FUTEBOL ► O misterioso caso da volta dos ingressos vendidos

O Engenhão já é um estádio difícil de encher, especialmente nos jogos noturnos. Há circunstâncias para lá de comentadas, como horários horríveis (ou muito cedo ou muito tarde), localização complicada, trânsito caótico, falta de áreas para estacionamento, insegurança no entorno, escuro e muito mal policiado…

E há o misterioso caso da volta dos ingressos vendidos, que parece desafiar a lógica.

Mas só parece.

Veja o caso de ontem, quinta-feira, quando Fluminense e Internacional decidiram uma vaga nas quartas-de-final da Copa Libertadores.

Jogo marcado para as 22h.

Me atrasei. Quando desci do carro no estacionamento do Norte-Shopping, olhei no celular a hora: 21h49min. Pensamento imediato: “Ferrou.”

Para quem não sabe, do shopping ao estádio, especificamente até a Ala Sul, meu ingresso, em média 25 minutos de caminhada tranquila. Consegui acelerar para transformar isso aí em exatos 20 minutos, pois quando cheguei à arquibancada o celular indicava 22h09min. Mas isso não vem ao caso.

O que vem ao caso é que assim que coloquei o pé na calçada, em frente ao shopping, na avenida Dom Helder Câmara, já me apareceu um cambista me oferecendo ingresso: “Ingresso para o jogo?”

Ignorei, mas nem tive tempo de pensar no absurdo da coisa, pois poucos metros adiante me ofereceram novamente: “Ingresso? Ingresso?”

Não, eu não queria e ignorei os cambistas, como sempre faço, mas eles não me ignoraram.

Sem exagero: até entrar no estádio, ao menos 15 vezes eu fui abordado. “Ingresso? Ingresso?” “Ingresso mais barato comigo!” “Já tem ingresso?”

Todos com um bolo de ingressos à mão. Até mulheres, o que não me lembro de ter visto antes nesse… hum… digamos… ramo.

O que mais me impressionou foi quando cheguei à rua Doutor Padilha. Em vez de uma viatura da PM, como de costume, estava parada uma da Guarda Municipal, com dois guardas postados. Ao lado deles, conversando, um cidadão, aparentemente conhecido deles. Pois não é que quando estou passando o sujeito me oferece ingresso para o jogo? Bem ali, como se os guardas não fossem agentes da lei.

Não foi a primeira vez. No Engenhão, essa avalanche de cambistas isso acontece muito além da conta. E numa cara de pau cada vez maior.

E sabe por quê? Por que os portais de notícias, horas antes, em suas editorias de esportes, davam conta da venda antecipada de toda a carga de ingressos para a partida, 36 mil.

E isso era fácil constatar, bastava navegar pela internet.

Na véspera, o Globo.com  já publicava:

Os torcedores do Fluminense que pretendem ir ao Engenhão para assistir ao jogo contra o Inter, nesta quinta-feira, pelas oitavas de final da Libertadores, devem se apressar. Apenas 2.313 ingressos ainda podem ser adquiridos, sendo 1.739 para o setor Oeste Superior e 574 para o espaço Premium, que será inaugurado nesta partida.

Na quinta, vários sites deram no fim da tarde que não havia mais entradas disponíveis. O ótimo Fim de Jogo, por exemplo, foi um deles, postando informe aparentemente oficial:

Informações Gerais:
 Data: 10/05/2012
 Horário: 22h
 Local: Engenhão
 Abertura dos portões: 19h

Preço dos Ingressos:
 Setor Sul – R$ 10,00 (meia entrada R$5,00) – Torcida do Fluminense – ESGOTADO
 Setor Oeste Superior – R$ 50,00 (meia entrada R$25,00) – Torcida do Fluminense – ESGOTADO
 Setor Oeste Inferior – R$ 40,00 (meia entrada R$20,00) – Torcida do Fluminense – ESGOTADO
 Setor Leste Superior – R$ 50,00 (meia entrada R$25,00) – Torcida do Fluminense – ESGOTADO
 Setor Leste Inferior – R$ 40,00 (meia entrada R$20,00) – Torcida do Fluminense – ESGOTADO
 Setor Norte – R$ 50,00 (meia entrada R$25,00) – Torcida do Internacional

Bem, sabendo disso e constatando no Engenhão visíveis espaços vazios, principalmente nas laterais de cada setor, nós pobres e tolos mortais, pensamos: “Benfeito! Esses cambistas morreram com os ingressos na mão, se deram mal.”

“Santa ingenuidade, Batman!”, diria Robin, o Garoto Prodígio.

Claro que “eles” não jogam para perder.

Sai o borderô da partida.

Público pagante: 29.430 (33.386 presentes).

Opa! Pera lá! Mas não havia sido esgotada toda a carga de ingressos? Que mágica é essa?

Onde foram parar esses sete mil que já haviam sido vendidos e não apareceram no borderô?

“Elementar, meu caro Watson!”, diria Sherlock, usando uma linha de raciocínio vulcaniana.

Provavelmente – dedução lógica – há uma cota de ingressos disponíveis para cambistas no Engenhão. Esses ingressos “saem” antes das partidas como vendidos.

Só que, na verdade, eles continuam à venda, com os cambistas.

O que não é vendido após o início da partida, é devolvido à bilheteria.

Isso explicaria o mistério da volta dos que não foram – no caso, a volta dos ingressos “vendidos”, assim, entre aspas.

É só o que parece fazer sentido nesse caso.

Porque não foi a primeira vez no Engenhão. Nem a segunda ou a décima.

Aí fica como mágica muito repetida: de tanto ver, você acaba descobrindo o truque.

Ou ao menos achando que descobriu – e assim se sentir menos bobo.

*** *** ***

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