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RIO DE JANEIRO ► Lei Seca, um atestado de incompetência

A blitz da Lei Seca é um sucesso no Rio de Janeiro e tem sido exportada para outras capitais do Brasil.

Estatísticas mil têm sido mostradas para avaliar positivamente tal ação.

Para mim, porém, não passa de um tremendo atestado público de incompetência do Estado para fazer valer sua autoridade, suas leis.

Não que a Lei Seca seja ruim. Não é. Eu mesmo, que por motivo de trabalho dirijo muito à noite, tenho uma sensação maior de segurança sabendo que no meu trajeto há vários pontos onde uma blitz da Lei Seca pode estar armada.

Mas é uma ação puramente paliativa.

Os problemas da Lei Seca, do meu ponto de vista, não se concentram na ação propriamente dita, mas em suas causa e consequência.

A causa, como mencionei antes, é o fato das leis do país não serem respeitadas pelos cidadãos. As leis em geral, as do trânsito mais especificamente. Simples assim. Se o cidadão respeitasse as leis, não seria preciso existir uma blitz da Lei Seca.

A consequência é justamente não haver praticamente consequência efetiva alguma. O sujeito é parado numa blitz visivelmente embriagado, diz que não vai fazer o teste do bafômetro, é autuado, recebe uma multa, em a certeira apreendida e… vai para casa! Ou faz o teste, comprova-se o estado etílico proibitivo, é multado, perde a carteira, é autuado, isso, aquilo e… vai para casa!

Nem os carros são apreendidos, se os infratores conseguirem quem os busque.

Aí fica difícil explicar a blitz da Lei Seca a pessoas de países onde realmente exista a noção de cidadania.

Acaba todo o cenário se tornando uma paródia daquele antigo quadro de um programa humorístico que terminava sempre com o bordão “não precisa explicar, eu só queria entender”.

Aproveitei aqui para fazer uma pausa e buscar na internet de que programa era esse quadro, já que eu não recordava. Nos arquivos do Globo.com, encontrei: é do humorístico “O Planeta dos Homens” e o personagem era o macaco Sócrates. Para quem não lembra ou não é da época, “O Planeta dos Homens” surgiu no rastro do estrondoso sucesso cinematográfico de “O Planeta dos Macacos”.

E veja que curiosa a citação que achei na página do portal sobre o programa: “Sócrates, o filósofo do grupo, vivia constantemente intrigado com as contradições dos humanos. Ao assistir a um anúncio na TV de um carro capaz de rodar a 180 km por hora, ele perguntava: ‘Mas as leis brasileiras não proíbem que se dirija a mais de 80 km por hora?’ Antes que alguém pudesse responder, Sócrates encarava a câmera e dizia: ‘Não precisa explicar. Eu só queria entender’.”

Completamente atual, não? E, quarenta anos depois, aplica-se perfeitamente em relação à Lei Seca.

Imagine-se conversando com um canadense, um suíço ou mesmo um americano. O gringo vai perguntar o que é isso e você explica que a Lei Seca foi criada para flagrar infratores no trânsito, especialmente os que dirigem embriagados. Provavelmente, o gringo talvez o crive de perguntas, tipo: “Mas vocês não têm policiamento rodoviário para fazer isso?” Ou: “Não é proibido dirigir após ingerir bebida alcoólica? Então por que vocês brasileiros bebem e dirigem, se é proibido?”

Pois é. Com cara de tacho, você pode tentar não dizer que o brasileiro não é um sujeito muito chegado a respeitar as leis…

Aí o gringo de repente pergunta quanto tempo os motoristas infratores pegam de cadeia. Sem graça, você talvez até deixe escapar em meio a um sorriso amarelo: “Cadeia…?”

Difícil explicar que o sujeito pode estar completamente embriagado que mesmo assim não será preso. Vai ficar só na autuação mesmo. Na pior das hipóteses, uma fiança chinfrim e tudo bem. O resto fica para depois e normalmente dá em nada.

Enquanto isso, os motoristas da cidade continuam transformando nossas vias em verdadeiros cenários de duelos do Velho Oeste em versão asfaltada. Vale tudo, menos respeito às leis e ao próximo.

O trânsito carioca é onde o cidadão revela sua má índole, acontece de tudo. Os bandidos armados de veículos automotores fazem o que querem, sem que haja qualquer ação por parte do Estado para impedi-los.

Ontem mesmo estava eu ali pelos 80km/h na Linha Vermelha quando passa na faixa ao lado, quase invadindo a minha, um bólido a, no mínimo, uns 140kh. Até balançou meu Paliozinho. Mais a frente deu para perceber as luzes de freio do descerebrado: ele reduziu por causa do pardal eletrônico. Passando o pardal, lá foi ele acelerando impune a mil novamente, mais um assassino motorizado à solta nas vias da cidade.

Já contei aqui a experiência de um tio nos EUA (leia aqui), avançando um sinal em uma rua deserta e logo sendo surpreendido por uma viatura policial.

Algo inimaginável no Brasil. Porque no Brasil não há policiamento ostensivo de trânsito, daquele tipo que o gringo acima teria citado, em que as viaturas ficam a postos ou circulando para ir atrás de maus motoristas, que inflijam as leis do trânsito. Os mais antigos  hão de lembrar do seriado CHiPs (mais aqui), com os patrulheiros John e Poncharello tomando conta das ruas californianas. No Brasil? Inimaginável. Avanço de sinal, manobra perigosa, dirigir sem manter distância do veículo à frente, ultrapassagem em trecho proibido… Tudo infração que deveria ser coibida pela ação policial. Uma ação que não existe. Daí cria-se uma Lei Seca.

E assim o trânsito continua matando. Impunemente.

Quando você viu um motorista bêbado matar alguém neste país e ser jogado imediatamente atrás das grades?

Nunca, né? Afinal, aqui é a terra do “tadinho”, tanto que se o motorista, tropeçando nas próprias pernas, trocando letras e exalando o equivalente à ingestão de 3l de álcool puro, disser que não vai fazer o teste do bafômetro, ele não faz – e nem seria necessário em qualquer lugar sério. No Brasil. não há qualquer rigor na aplicação das leis – ou elas são aplicadas apenas quando melhor convém a alguém, sabe-se lá o critério.

Em países civilizados, motorista bêbado é sinônimo de cana. Aliás, não só motorista bêbado, qualquer criminoso. Independente de nome e idade. Aqui, o máximo que acontece é o sujeito virar manchete, se famoso for.

Por isso temos no Brasil, no Rio de Janeiro em particular, o pior trânsito do mundo, o mais assassino. Um trânsito que mata mesmo.

E não mata porque o motorista não sabe dirigir, mas porque o motorista é imprudente, mal-intencionado. Há uma diferença fundamental entre má direção e direção imprudente: a intenção.

O motorista imprudente, que viola deliberadamente as leis do trânsito, é um assassino à solta. Um serial killer em potencial.

Por isso morre-se mais no trânsito do Rio de Janeiro do que em muitos conflitos armados mundo afora. E isso vale para outras capitais e cidades brasileiras.

Enquanto isso, nossas autoridades se comprazem com uma blitz para brasileiro ver, como a Lei Seca. Para brasileiro ver, porque o gringo não entende. Nem vale a pena explicar. É mico.

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