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FLUMINENSE ► Obrigado, Félix!

25 ago

E lá se foi Félix Miéli Venerando, meu maior ídolo tricolor, encerrando sua passagem nesta vida.

Quando criança, sempre que me perguntavam o que eu queria ser quando crescesse, eu respondia:

“Jogador de futebol.”

E emendava logo: “Goleiro do Fluminense. Como o Félix.” Na verdade, acho que eu não queria ser como o Félix. Eu queria ser o Félix, goleiro do Fluminense!

Como muitos de minha geração, Félix era meu ídolo e  meu goleiro de um time de botão inesquecível, aquele que tinha o rosto de cada jogador e qualquer torcedor recitava de cor: Félix, Oliveira, Galhardo, Assis, Marco Antônio, Denílson, Didi, Cafuringa, Samarone, Flávio e Lula.

Félix não foi só meu maior ídolo, foi também o goleiro que mais títulos conquistou com a camisa do Fluminense.

E foi, principalmente, o goleiro da era de ouro do nosso futebol, quando a paixão se tornou definitiva, os estádios abarrotavam nos clássicos regionais e os clubes  grandes semeariam a base de torcedores que garantiriam a sua eternidade.

Félix chegou em 1968 para o Fluminense. Numa quarta-feira ele desembarcava no Rio de Janeiro, vindo da Portuguesa de Desportos. Na quinta-feira fazia seu primeiro treino nas Laranjeiras. E no domingo seguinte, 24 de março de 1968, estreava brilhando no empate de 1 x 1 contra o Botafogo de Manga, Gerson, Jairzinho…

Na cobertura do jornal Última Hora, Ademir Menezes, o grande Queixada, assim escrevia em sua coluna:

FÉLIX: Muito bom, calmo, preciso, elástico. Félix foi uma barreira às pretensões botafoguenses, infundindo muita confiança a seus beques e isso é muito importante num time que precisava ressuscitarde suas próprias cinzas. Nota 8.

Já Armando Nogueira, em sua coluna no Jornal do Brasil, registrou assim a estreia do arqueiro tricolor:

Vale lembrar que o Fluminense atravessava um período de vacas magras, anos pobres de futebol e títulos, mas naquele 1968 começaria a formar aquela que seria uma das mais vitoriosas espinhas dorsais de sua história. E essa espinha dorsal começaria com Félix no gol.

No ano seguinte, no mítico Fla-Flu que decidiu o campeonato carioca de 1969, perante “apenas” 171.599 pagantes, Félix foi o grande nome da inesquecível conquista tricolor, aquela que gerou a antológica crônica de Nelson Rodrigues  que começava assim:

Amigos, a humildade acaba aqui. Desde ontem o Fluminense é o campeão da cidade. No maior Fla-Flu de todos os tempos, o tricolor conquistou a sua mais bela vitória. E foi também o grande dia do Estádio Mário Filho. A massa “pó-de-arroz” teve o sentimento do triunfo. Aconteceu então o seguinte – vivos e mortos subiram as rampas. Os vivos saíram de suas casas e os mortos de suas tumbas. E, diante da plateia colossal, Fluminense e Flamengo fizeram uma dessas partidas imortais.

Jogo que também mereceu uma coluna não menos antológica, apesar de menos conhecida, de Millor Fernandes na revista Veja, coluna que outro dia pretendo registrar aqui.

Na cobertura que o Jornal do Brasil fez daquela partida, sua banca de analistas esportivos (e preste bem atenção aos nomes) assim avaliou a atuação dos jogadores que estiveram em campo, em notas que iam de uma bola preta (pior) a 5 estrelas:

Logo em seu segundo ano, com o característico uniforme negro com o escudo tricolor que tão bem lhe caía no peito, Félix entrava para nossa história. Mas foi só o começo.

Sem descer a maiores detalhes, senão isto aqui daria um livro, lembro que Félix atingiu o que talvez viesse a ser o auge de sua vitoriosa carreira no ano seguinte, em 1970.

Não, não estou falando do tricampeonato da seleção brasileira no México, passo lógico e normal para o melhor goleiro do país.

Falo das atuações de Félix nos momentos decisivos do campeonato brasileiro de 1970, o primeiro conquistado pelo Fluminense, a Taça de Prata.

Uma campanha do já veterano goleiro que muito diz sobre sua incrível autoconfiança e não menor capacidade de superação. Evidente que houve falhas. Como no gol de honra da Ponte Preta na goleada tricolor por 6 x 1. Ou no empate em um gol contra o Botafogo. Mas eram jogos que, de um ponto de vista prático, não importavam.

Importavam outras partidas. Como a histórica vitória contra o Palmeiras no Morumbi lotado, com Félix defendendo até um pênalti cobrado por Cesar e Flávio, o Minuano, marcando todos os gols do placar de 3 x 0. Ou a soberba atuação na última partida da fase classificatória, em Curitiba, contra o Atlético Paranaense, quando o Fluminense precisava de um pontinho para ir às finais e esse pontinho foi todo na conta do Gato Félix.

Reza a lenda que, após defender espetacularmente  uma cobrança de falta na meia-lua da área, no último minuto de jogo, o árbitro paulista José Faville Neto, assombrado com a defesa, cumprimentou Félix, pediu a bola de suas mãos e acabou o jogo ali mesmo.

Na terça-feira seguinte (o jornal não circulava às segundas), Armando Nogueira escrevia no JB:


E naquele quadrangular decisivo, Félix foi o esteio de nossa defesa, uma segurança que nos valeu o título, como atesta a cobertura do JB após vitória no Mineirão sobre o Cruzeiro de Tostão e Dirceu Lopes:


Ampliando, para o caso de uma justa dificuldade de leitura:

FÉLIX – Excelente atuação, constituindo-se na principal figura da vitória do Fluminense, salvando gols certos e dando tranquilidade aos companheiros.

Já na crônica de Armando Nogueira sobre o desfecho do campeonato, não houve economia no momento de falar sobre as atuações de Félix naquela campanha, após analisar jogador a jogador o vitorioso time tricolor:

Félix evidentemente não era um garoto, muito pelo contrário. Mas ainda reservaria glórias para a torcida tricolor.

Como em 1973, na inesquecível goleada de 4 x 2 sobre o Flamengo, numa noite de quarta-feira terrivelmente chuvosa, que nos valeu mais um campeonato carioca.

E um campeonato que para a torcida teve um grande herói: um senhor já lá com seus quase 37 anos que foi ovacionado ao final da partida.

Na cobertura do Jornal do Brasil, a análise da atuação do goleiro resume tudo:

Para quem tiver dificuldade com o tamanho da fonte do texto:

FÉLIX – Mais uma atuação perfeita. Parece que os anos, ao invés de prejudicá-lo, lhe dão maior categoria. Nota 10.

Na primeira foto da matéria, o zagueiro argentino Bruñel abraça Félix assim que soou o apito final.

E o reconhecimento da torcida tricolor ao seu ídolo não passou desapecebido aos olhos da reportagem do Jornal do Brasil:

Outro renomadíssimo – e saudoso – jornalista esportivo, Oldemário Touguinhó também não deixou de reconhecer os grandes méritos do Papel:

Félix ainda daria mais um título ao Fluminense. Dois anos depois, cabelos brancos teimando em aparecer,  o corpo irremediavelmente fustigado pelos anos de profissão e por corajosas saídas indo de cara à ponta das chuteiras de atacantes de todos os portes (coisa que os goleiros de hoje não fazem, eles vão com os pés, não arriscam a cara), o Papel foi a garantia do título da primeira Máquina de Francisco Horta.

Foi seu último título como titular, o último título que teve como espinha dorsal aquela que começou a ser montada em 1968, quando o franzino goleiro Félix Miéli Venerando deixou o Canindé para fazer história no Fluminense.

E uma história que parece ser desconhecida para um bando de bobocas que se dizem jornalistas, conhecem futebol por vídeos dos Gols do Fantástico e acham que Félix foi um turista acidental em um dos maiores times de futebol de todos os tempos, senão o maior deles, que foi a seleção brasileira de 1970.

Seleção na qual Félix teve papel fundamental durante toda a fase de preparação, as eliminatórias e a campanha no México.

Esses bobocas são tão bobocas como ignorantes em relação à história de nosso futebol e seus grandes personagens. Porque só sendo um profissional ignorante e incompetente para imaginar que um time que tivesse líderes natos como Pelé, Gerson, Tostão, Jairzinho, Paulo Cesar Lima, Clodoaldo, Carlos Alberto Torres, Piazza, Brito… Vou parar a lista por aqui e retomar o raciocínio.

Só sendo um “profissional” ignorante e incompetente para imaginar que um time com essas feras todas iria para uma Copa do Mundo com um goleiro que não fosse de sua inteira, total e completa confiança.

Para esses frutos das benesses do nosso pobre jornalismo esportivo, faria bem uma passada de olhos por linhas como estas. Assim como para os tricolores mais novos que por (má) ventura possam ser contaminados por essa tacanha e maciça disseminação de má informação.

O time de botão

Eu não pretendia escrever tanto. Mas é difícil escrever pouco sobre um personagem que foi um herói em sua infância e seu maior ídolo em um clube repleto de ídolos imortais. Na verdade, poderia escrever um livro com minha visão de torcedor sobre um dos jogadores mais vitoriosos da história do Fluminense. Tenho lembranças na mente que encheriam páginas e mais páginas sobre Félix, Fluminense e eu, claro.

Como disse um torcedor em um dos muitos comentários que li sobre o falecimento de Félix na internet, a torcida do Fluminense sabia perdoar as eventuais falhas do nosso goleiro – até porque todo goleiro falha. Em vez de xingá-lo, a torcida sofria. E perdoava porque sabia de sua completa identificação com o clube, sabia o que ele dava ao Fluminense, sabia que  quando fosse o momento, um momento decisivo, ele seria nossa garantia de título. De mais um título.

Eu sofria. Menino, moleque, quando Félix levava um gol, não era um goleiro qualquer sendo vazado. Era meu herói, era o próprio Fluminense sendo ferido.

Sei que é difícil as novas gerações entenderem isso, nesta era de atletas mercenários e marqueteiros, sem caráter e identificação clubística qualquer. Mas naquele tempo…

Lembro um domingo de1973. Nós morávamos ali pertinho do campo da Portuguesa, aqui da Ilha do Governador. Eu obviamente não lembro por que meu pai não foi ao clássico contra o Botafogo. Terceira rodada do campeonato nacional.

O que lembro era que Félix faria sua estreia no campeonato, voltando de contusão, menos de um mês após a conquista do título carioca de 1973. E eu estava ansioso por causa disso. Em casa, ouvi o Bota fazer 1 x 0. Aborrecido, não resisti ao convite dos colegas para jogar bola no imenso descampado que existia ali por onde hoje termina o Corredor Esportivo e começa a Estrada das Canárias. E afinal, o jogo estava lá pela metade do segundo tempo, não parecia que ia acontecer muito mais coisa, não.

Voltando para casa, ouvi alguém dizer que o Botafogo tinha goleado o Fluminense. Eu não acreditei, achei que era alguma brincadeira, algum ruído na comunicação – embora, claro, na época sequer imaginasse o que viesse a ser um ruído na comunicação.

E não acreditava por alguns motivos bem relevantes. Primeiro, quando saí de casa o jogo estava só 1 x 0. Depois, estava quase no fim, como poderia virar uma goleada? Isso seria uma tragédia. Terceiro, e mais importante: como o Félix levaria um monte de gols de repente assim?

Pois foi bem pior: o Flu não só fora goleado, como Félix voltara a sentir a contusão e falhara miseravelmente em ao menos um dos gols botafoguenses. Eu fiquei chocado, não queria acreditar nisso. Principalmente vendo os gols na TV. Félix falhara. E ao menos um dos gols foi um triste frango. O segundo, o que desmontou o time. Uma cabeçada sem jeito de Ferreti, para o chão. Félix foi traído pelo quique da bola – ou melhor, pelo não quique. A bola que deveria quicar correu mansamente sob o corpo do goleiro, aninhando-se no fundo da rede.

Chorei, provavelmente sem que ninguém percebesse. Mas não sei se chorava porque o Fluminense fora goleado ou porque Félix havia falhado. Ou as duas coisas. Eu sofria com a falha do meu ídolo e sofria também com a derrota do meu time.

E isso hoje faz todo o sentido do mundo. Porque Fluminense e Félix se confundiam numa coisa só, uma simbiose completa clube-jogador.

Você sabe quantos jogadores hoje em dia você pode “confundir” com o clube que defende? Conte nos dedos. De uma mão apenas, claro.

Mas, naqueles tempos, nos tempos em que os goleiros agarravam sem luvas e cortavam o dedo para não desfalcar o time (São Castilho…), acredite, isso acontecia.

E aconteceu com Félix, o Gato Félix, o Papel. O goleiro que mais títulos conquistou para a sala de troféus do Fluminense.

O goleiro do meu time de botão, meu herói, meu maior ídolo.

E que agora partiu para integrar de vez o panteão de heróis das três cores que traduzem tradição, deixando ali nas Laranjeiras, na rua Álvaro Chaves, o seu legado.

À sua família, Félix, meus sentimentos. E a você, neste momento de sua passagem, o muito obrigado de um torcedor tricolor.

*** *** ***

Licença Creative Commons
Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

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7 Comentários

Publicado por em 25 de agosto de 2012 em Fluminense, Futebol

 

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7 Respostas para “FLUMINENSE ► Obrigado, Félix!

  1. Sérgio Tonelotto

    25 de agosto de 2012 at 8:59

    Parabéns pela homenagem. Sou botafoguense e pelo que me lembro foi o único frango que vi o Félix levar e realmente aquele lance desmontou o time do Fluminense no jogo. Na Copa de 70, lia e ouvia vários jornalistas falando que o Félix não era o goleiro ideal. Injustiça! Ele provou em campo, principalmente no jogo contra a Inglaterra. Não considero aquele gol contra o Uruguai uma falha, o cara chutou tão errado, que não deu para fazer muita coisa, mas goleiro não pode errar, vacilar.
    Me lembro dele venddedor do Ponto Frio na Nsa Sra. de Copacabana, um ar meio tristonho, de quem está ali sem saber muito o porque.
    Assim como o Garrincha é eterno para nós, que o Félix sempre seja o mesmo para vocês, defendendo a meta tricolor pela eternidade.

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  2. opiniaododavid

    25 de agosto de 2012 at 12:49

    Valeu, Sérgio. Muito legal você ter lembrado do mesmo jogo! Às vezes achamos que nossa memória se confunde em meio a tantas recordações. Infelizmente, Félix se foi com essa mágoa de ter sua participação na Copa de 70 menosprezada. Mas seus companheiros, pessoas de muita personalidade, como Paulo Cesar Caju, têm prestado depoimentos contra esse tipo de opinião. Uma pena que muitos grandes nomes do nosso futebol, que foram ídolos de verdade, como o próprio Garrincha, acabaram não tendo após deixar os campos a atenção merecida, não é mesmo?

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  3. Almir

    5 de setembro de 2012 at 23:07

    Meu amigo, vc que eh escritor, escreva logo. Concordo com vc, Felix, merece um livro, sou vascaino, mas depois do Andrada, ele tb eh o meu idolo.

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    • opiniaododavid

      8 de setembro de 2012 at 1:00

      Obrigado pela força, Almir! Andrada era realmente um grande goleiro, era o goleiro adversário que eu mais temia. E estava em um time do botão do Vasco que eu também tinha! Era comum ganhar times de botão do Fluminense acompanhado de um time adversário, para poder jogar contra. Assim eu tinha dos outros grandes do Rio também. Lembro muito do rosto no botão de alguns jogadores do Vasco daquele tempo, como Andrada, Valfrido, Renê, Buglê, Fidélis, Alcir e o Luís Carlos (que depois jogou no Fluminense, trocado pelo Dirceu). Legal como certas coisas ficam na nossa memória.

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  4. renato

    10 de julho de 2013 at 15:45

    muito legal. vou guardar essa homenagem ao félix. eu sempre digo que o nome dele foi a terceira coisa que aprendi a falar: mamãe, papai, félix, oliveira, galhardo, assis e marco antônio…

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    • opiniaododavid

      23 de julho de 2013 at 9:41

      Muito legal, essa escalação é do meu time de botão, a que mais tenho na ponta da língua…rs.

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