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VIDA ► Da série “Coisas que Nunca Mudam”: “Brutalidade”, de Paulo Coelho Neto

09 jan

gladiadoresEu disse a mim mesmo que quando tivesse a chance de fazer meu primeiro post de 2013 começaria com o texto abaixo, extraído de um artigo do saudoso escritor Paulo Coelho Neto originalmente publicado na Revista do Fluminense, março-abril de 1963, e posteriormente reproduzido em sua íntegra no livro “O Fluminense na Intimidade –  Volume II”, de 1969.

Veja bem a atemporalidade do texto. Parece que foi escrito ontem.

BRUTALIDADE

O carioca já foi tido, em dias que não vão longe, como o povo mais educado do mundo. Esse conceito era proclamado principalmente pelos estrangeiros que aqui aportavam, e os habitantes da Cidade Maravilhosa esmeravam-se para mantê-lo e aprimorá-lo. Mas, no último decênio, a transformação tornou-se tão impressionante que os próprios sociólogos, aturdidos e confundidos, não conseguem interpretar o fenômeno, limitando-se a atribui-lo a desequilíbrios econômicos generalizados e a uma neurose que se apossou da humanidade e cada vez mais se exacerba ante a sombria perspectiva, sempre iminente, duma guerra atômica total, que poderá fragmentar o nosso mísero planeta ou lançá-lo definitivamente fora de sua órbita, com todas as glórias e grandezas de que nos orgulhamos.

A brutalidade fez-se hábito e o crime, com requintes de estarrecedora selvageria, passou a ter cronistas especializados e páginas inteiras de jornais e revistas consagradas a proezas de facínoras que exibem, arrogantes, mãos estranguladoras de criancinhas ou fuziladoras de jovens e brilhantes estudantes, cruelmente sacrificados, e chefes de família cujas mortes deixam na miséria inúmeros inocentes que nenhum governo procura amparar. Enquanto isso, trêfegos apóstolos da tolerância, que jamais sofreram na própria carne a perda de um ente querido, chacinado na rua ou na porta de sua casa, debatem sobre s condições de conforto, segurança e recuperação social que devem ser dadas aos sicários que usam e abusam do “direito” de matar” Causa admiração que, até hoje, nenhum demagogo profissional, à cata de votos e de popularidade, se tenha lembrado de apresentar um projeto de lei criando a Corporação dos Bandidos e amparando seus filiados com salário mínimo, estabilidade, direito de greve, férias, licença prêmio, abono de Natal, aposentadoria e, em caso de morte no presídio, auxílio para funeral e montepio aos herdeiros… 

Não sei se o leitor já foi espectador de certas lutas sangrentas, verdadeiras carnificinas, que não ocorrem nem nas planícies africanas entre os estúpidos rinocerontes, remanescentes do período quaternário. Essas cenas de ferocidade, denominadas Vale Tudo, nada mais são que revivescência das arenas romanas, em que nem faltam as vestais porque as moças – todas elas são mães em potencial – se exibem com mais agressividade que os lutadores, exigindo, de pé, aos gritos frenéticos e histéricos, o massacre, o extermínio, o sangue do vencido. Isso pode ser o que quiserem, menos Esporte. Quando a mulher dá, em público, tão deprimente demonstração de insensibilidade, ela, por natureza, a ternura e a piedade, é porque a Civilização está abalada nos seus fundamentos. (…)

Conta o escritor Hilário Cintra, no excelente livro “A Inspiração Franciscana”, que, consoante historiadores probos, Triboulet, célebre jogral da corte de Francisco I, de França, foi certa vez perseguido por um cortesão, que o ameaçou de morte. Triboulet, que só era bobo nas vestes e nas truanices obrigatórias, procurou o monarca e queixou-se da vindita em perspectiva.

                -Não tenhas receio. Se alguém, seja quem for, tiver a ousadia de cometer esse atentado, mandarei enforcá-lo.

Triboulet não hesitou na resposta:

                -Caro primo, não seria melhor mandar executá-lo quinze minutos antes? (…)

 

Infelizmente, há coisas que parecem não mudar ou mudam apenas muito lentamente, seja na sociedade brasileira ou em relação à própria civilização humana.

Em relação à civilização e à sua “civilidade”, deixando bem claro.

Parafraseando Lavoisier, parece que na vida humana nada se modifica, apenas se metamorfoseia.

Em meio a toda essa barbárie que vivenciamos em nosso dia a dia, a humanidade parece caminhar a passos de cágado – com todo respeito aos cágados, possivelmente mais velozes que a evolução humana.

*** *** ***

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Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

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Publicado por em 9 de janeiro de 2013 em Brasil, Vida

 

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