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FUTEBOL ► Bola dentro, Seedorf, bola dentro…

07 abr

seedorf_coletivaBem, uma semana depois da tola expulsão contra o Madureira, lá estava o craque Seedorf dando uma entrevista coletiva. E mais uma vez mostrando por que é um profissional do futebol diferenciado.

Entrevista de jogador assim é rara. Dá gosto ouvir um atleta que pensa além das quatro linhas. Em muitos casos, porém, um jogador desse nível está muito acima dos profissionais que o entrevistam.

Não esqueço Petkovic.

O craque sérvio tinha notória aversão pela pobre mídia esportiva brasileira e vez por outra não conseguia conter seus impulsos.

Certa vez, à saída de um treino do Vasco, ele avisou com antecedência aos repórteres que não daria qualquer entrevista ao deixar o estádio.

Pois bem. Petkovic saindo e aquele bando de profissionais em cima, como se o jogador houvesse pregado para postes.

Daí que um dos profissionais mais insistentes mandou: “Pet, Pet, por favor, só duas perguntinhas?” Ao que o craque rebateu, com a mesma magistral frieza com que batia na bola: “Tudo bem, qual é a segunda?”

Voltando a Seedorf, obviamente foi dado destaque na coletiva ás suas declarações ainda sobre a expulsão.

Pura fofocagem.

E ignorância jornalística.

E digo ignorância jornalística porque ouvi a entrevista de Seedorf e o que me pareceu de mais interessante não repercutiu nas mídias.

Questionado sobre a interdição do Engenhão, Seedorf deu, digamos, uma resposta de primeiro mundo a um bando de jornalistas de terceiro. Em outras palavras: “Acho triste que aconteça, mas se há problema, deve ser reparado. Só não entendo como os brasileiros gostam de se expor ao mundo de uma forma totalmente desnecessária. O Estádio está com problemas? Precisa ser fechado para consertar? Tudo bem, mas sem necessidade de fazer tanto barulho. Ouvi e li algumas coisas totalmente desnecessárias. Não entendo a necessidade de expor o país desse jeito, ainda mais ás vésperas de competições internacionais tão importantes. Isso acontece no mundo todo. Se tem problema, vai lá e repara, mas sem tanto barulho, discretamente. Não há necessidade de tudo isso. Trabalho aqui, vivo aqui, minha mulher é daqui, me sinto brasileiro. Eu não agiria assim com meu país.”

A repercussão dessa declaração na mídia brasileira? Zero. Ao menos eu não vi ninguém comentar nada a respeito. Nem na rádio que reproduziu a coletiva.

Não há aí, na declaração de Seedorf, a falácia “o que é bom a gente divulga, o que é ruim a gente esconde”. É mais uma questão, pelo que entendi, digamos, de informação estratégica. Mal comparando, como na 2ª Guerra Mundial, quando aprendemos – e quase todo mundo ainda acha isso – que os EUA participaram de mais um conflito generalizado sem serem atacados em seu próprio território.

Não foi bem assim. Na verdade, lá pelas tantas, o Japão sabia que precisava atingir os EUA na América para ter uma chance real de vencer o conflito. Carregou, então, centenas de explosivos em balões meteorológicos e os lançou na esperança de atingir solo inimigo.

E os japonenses ficaram aguardando. Aguardando notícias. Que, como Godot, nunca vieram. Sem notícia qualquer a respeito, entenderam que a missão havia fracassado e abortaram o plano, não sabendo que obtiveram sucesso em seus testes, com vários balões chegando ao continente americano, inclusive fazendo vítimas.

Apenas não souberam porque isso era uma informação estratégica e não havia sentido na imprensa dos EUA divulgar o sucesso inimigo. Nem os japoneses nem o mundo ficaram sabendo, tanto que ainda hoje a maioria das pessoas acredita que os EUA jamais foram atingidos em seu território (fora os arquipélagos do Pacífico, claro) durante as duas guerras mundiais das quais tomaram parte.

Lógico, uma coisa é uma situação de guerra; outra, uma questão politico-esportiva.

De todo modo, veja que a questão é interessantíssima, dá margem a uma ótima e relevante discussão.

Mas será que os repórteres que estavam na coletiva, por exemplo, entendem assim? Provavelmente não, pois ninguém fez qualquer réplica.

E o resto da imprensa, será que não teve acesso a essa entrevista? Ou não teve interesse em discutir isso?

Ou será que a carapuça cai tão bem na cabeça da imprensa brasileira que ela, a imprensa, preferiu não se dar ao trabalho de discutir ou se indispor com alguém que ela própria idolatra e cuja opinião, livre de qualquer suspeita, não poderá desqualificar?

Ou ainda: será que a imprensa brasileira, em especial a esportiva, perdeu por completo a capacidade de discutir coisas sérias? Que para essa imprensa importante mesmo é saber como é o novo corte de cabelo do Neymar, quantos anos o goleiro Bruno vai ficar na prisão ou quantas caipisaquês o Fred toma nas suas noites de folga?

Como gosto de dizer: não é questão de concordar ou não. Mas de discutir, respeitando as diferenças.

Claro, para tudo há exceções. Mas, na imprensa esportiva brasileira, elas estão em número cada vez menor.

É minha opinião.

*** *** ***

Licença Creative Commons
Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

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Publicado por em 7 de abril de 2013 em Futebol, Imprensa

 

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