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SAÚDE ► De médicos e de monstros: “Qual é o seu time?”

dr-jekyll__mr-hyde_1931_Enquanto pessoas que só posso reputar como possivelmente elitistas e/ou burguesas destilam preconceito contra o justo e lógico voto nordestino no PT (leia aqui quem quiser se informar e não ser chamado por FHC de ignorante), há muito por lutar para que o povo deste país seja livre para se expressar e não sofra nas mãos daqueles que detêm algum tipo de poder.

Como os médicos.

Essa uma classe contra a qual me esforço para dominar o preconceito: de antemão, não gosto, mas me esforço para não descriminar.

Inclusive conheço muitos ótimos médicos.

Mas a classe em si…

Pausa para esclarecimento: doravante, me expresso em relação à maioria, mas claro que há maravilhosas exceções. Se você por acaso caiu por aqui, for médico, e se sentiu atingido, não se sentiu uma dessas exceções, sinto muito.

Corporativista ao extremo, uma das mais corporativistas, se não a mais-mais, com o agravante de lidar com vidas humanas.

Para mim, as escolas de Medicina formam quase que açougueiros, gente que acha que lida com carne morta, que é médico para obter boa remuneração financeira, não por qualquer predestinação humana para salvar vidas.

Basta ver como habitualmente médicos nos atendem sem sequer olhar nos olhos do paciente.

Daí a surpresa positiva quando alguma mãe com o filho doente é atendida por algum médico estrangeiro trazido pelo programa Mais Médicos. Normalmente, o atendimento é em outro “estilo”.

É tudo questão de formação humana. Mas isso é outra história, outro post…

O caso aqui é a falta de pudor daqueles formados pela Medicina no Brasil e o corporativismo com que defendem-se uns aos outros.

Há um sem números de casos no país. Esses casos se avolumam. Toda família tem a sua história para contar.

Um médico assassinou minha avó. Incompetência, desleixo, irresponsabilidade…?

Tudo fica a cargo da nossa própria investigação, porque nada foi apurado por quem de direito.

O fato é que uma idosa entra para a sala de cirurgia para operar o cotovelo e tem a hérnia aberta. E é morta.

À época, um grande jornal carioca fazia, justamente, uma matéria em tom de denúncia em relação ao número cada vez maior de erros médicos.

Médicos que tiravam a vida de pacientes que foram a eles em busca de cura até para enfermidades bastante simples.

Como no caso de minha avó.

Um dos repórteres que assinavam a matéria, inclusive, foi à nossa casa levantar dados.

Mas tal reportagem nunca foi publicada.

Por quê? Ora, além da pressão corporativista, a mídia impressa tinha (como ainda tem) boa parte de seu faturamento publicitário sustentado por planos de saúde.

E, convenhamos, não caía bem para os planos de saúde ter um de seus hospitais de referência envolvido em casos assim, não é mesmo?

Eu acho o seguinte: se o sujeito decidiu ser médico, deveria ser pelo desejo supremo de salvar vidas – o dinheiro deveria ser secundário. Se não, que fosse ser banqueiro.

Veja o que acontece agora com a ameaça do Ebola – aliás, outro escancarado caso de preconceito. Como ainda há preconceito neste mundo, meu Deus!

Enquanto a doença restringia-se a países africanos, pouco se importavam com ela as “grandes nações”. Como começou a se disseminar em outros continentes, pânico generalizado.

E tome de EUA daqui, Inglaterra dali, França de acolá, ONU mobilizada, OMS desesperada, todo mundo oferecendo mundos e fundos para socorrer as vítimas, tratar a doença, descobrir sua cura.

Curiosamente, nenhuma dessas nações se mobilizou em termos de pessoal, de médicos a serem enviados para as áreas mais epidêmicas.

E de onde médicos aos montes estão participando voluntariamente de uma missão de apoio no combate ao Ebola?

Cuba, como de hábito.

Os médicos cubanos são formados para salvar vidas em primeiro lugar. Simples e nobre assim.

Enquanto isso, pensando no próprio umbigo, nossos médicos preocupam-se em fazer da sua posição meio de arregimentar voto para A ou B numa disputa eleitoral.

Uma covardia. Uma indecência.

São inúmeras denúncias de médicos coagindo pacientes para votar majoritariamente, pelo que se pode apurar em pesquisas, na candidatura do antidemocrata e repressor Aécio Neves – o “antidemocrata” e o “repressor” refletem minha opinião baseada em fatos.

Digo “especialmente” porque não vou tolamente dizer que foi apenas a favor dele que ocorreu essa ação. Já vi/ouvi relatos de que o mesmo ocorreu em relação a Marina Silva no primeiro turno das eleições, do mesmo voto que imagino que alguém de jaleco tenha sugerido o voto em Dilma Rousseff.

Fora as coações entre os próprios médicos.

Mas, intrinsicamente, não faz diferença em nome de quem esses médicos pediram votos, se para A, B ou C.

O fato é que NÃO PODE.

O crime ético, moral e humano foi cometido. Creio que seja, também, crime profissional, mas com certeza o corporativismo dessa classe nada vai fazer a respeito.

O mesmo corporativismo que tentou impedir a chegada de médicos estrangeiros para atender prioritariamente à população mais carente do país. Em condições que nossos médicos preferem não enfrentar.

SALVAR VIDAS, sacou? Cuidar da saúde humana.

Eu reproduzo abaixo um artigo escrito na Carta Capital por Maria Gabriela Curubeto Godoy, médica psiquiatra, doutora em Saúde Coletiva e professora-adjunta de Saúde Coletiva da UFRGS, conforme os créditos.

É absolutamente chocante que nossos médicos se prestem a um papel desses.

Há quem tente justificar, nos comentários sobre a matéria, dizendo que profissionais de outra categoria fazem o mesmo.

Cara, você que pensa assim, entenda que Medicina é para salvar vidas humanas. Como diz a Constituição em relação a preconceito, é algo que independe de credo, raça, opção sexual, orientação política…

E essa é a minha opinião. Deixe-me postá-la enquanto tenho direito a ela…

E parabéns à médica que prestou um ótimo serviço ao público em geral ao levantar a necessidade de uma grande discussão em relação a esse estado de coisas – o que prova que ainda há salvação para a classe.

O link original é este aqui.

*** *** ***

Política

Opinião

 

“Para quem você torce?”, pergunta o doutor

 

O uso da relação médico-paciente para influenciar o voto é abuso de autoridade. O silêncio dos Conselhos de Medicina os torna coniventes

por Maria Gabriela Curubeto Godoy — publicado 20/10/2014 15:41, última modificação 20/10/2014 16:43

Bruno Magalhães

Médicos em ato pró-Aécio

Profissionais da saúde participaram da Caminhada Cidadã da Saúde em apoio a Aécio Neves em Minas Gerais

Imaginemos a seguinte situação: você vai ao seu médico, que, ao final da consulta pergunta:

– João, para que time você torce?

– Para o Flamengo, doutor.

– Flamengo? Hmm… O Flamengo persegue a classe médica e prejudica o Brasil. O Botafogo é melhor. Vamos fazer o seguinte, vou acrescentar na sua prescrição, mas sem escrever nada: torcer pelo Botafogo, certo?

Outra versão de conversa semelhante poderia ser:

– João, qual é a sua religião mesmo?

– Espírita, doutor.

– Hmm… Seria melhor você adotar o catolicismo, João. É melhor para todos nós, sobretudo os médicos.

Essas conversas aparentemente sem sentido foram encenadas aos milhares pelo Brasil afora, mas não tendo como tema o futebol ou religião, mas a política e a escolha eleitoral. Relatos feitos em redes sociais e conversas pessoais registradas por diversas pessoas mostraram pacientes desabafando sobre o assunto. A maioria deles não quis tomar nenhuma atitude que viesse a colocar em risco a relação com seu doutor ou doutora. Alguns até devem ter se convertido à crença “prescrita” pelo doutor, que usou da sua relação de confiança e vínculo para fazer apologia a suas escolhas eleitorais.

O tema levantou debates acalorados entre médicos e estudantes de medicina nas redes sociais. Enquanto alguns defendiam fazer campanha eleitoral explícita ou sutil com seus pacientes, outros acusavam tal atitude de ser antiética. Uma busca na legislação do Portal do Conselho Federal de Medicina sobre o tema revela muito pouco sobre o tema, mais especificamente, textos que tratam de situações que envolvem médicos enquanto candidatos.

Apenas o CRM da Paraíba lançou uma cartilha voltada a médicos candidatos para orientar seus profissionais. Nela, proíbe-se o profissional, durante o período eleitoral, de realizar consultas gratuitas na própria residência, distribuir amostras grátis de medicamentos e intermediar a realização de cirurgias. Por outro lado, o CRM de Goiás foi multado pelo TSE no valor de 30.000 reais por fazer propaganda eleitoral contra uma candidata enviando correspondência a todos os médicos do estado.

Fora esses exemplos, inúmeros outros ocorreram, como o apoio da Associação Médica Brasileira (AMB) a um candidato à presidência, o mesmo tendo ocorrido com diversos sindicatos médicos. Quanto aos Conselhos de Medicina, com exceção do de Goiás, mais explícito, todos mantiveram silêncio conivente com tais atitudes de seus congregados.

As situações descritas envolvem pelo menos duas linhas de discussão. Primeiro, o uso político da relação médico-paciente. Depois, a adesão político-eleitoral de instituições médicas a um determinado partido ou candidato, considerando que representam médicos com diversos posicionamentos político-ideológicos.

Quanto à primeira questão, o(a) médico(a) utilizar o momento de encontro com o paciente para dissuadi-lo, convencê-lo ou reforçar que volte em determinado candidato caracteriza infração do artigo 40 do Código de Ética Médica, no Capítulo V, que trata da Relação com Pacientes e Familiar e diz ser vedado ao médico “aproveitar-se de situações decorrentes da relação médico-paciente para obter vantagem física, emocional, financeira ou de qualquer outra natureza”.

Considerando-se histórica e sociologicamente a constituição da Medicina Científica Moderna, esta exerce sua função social alinhada aos interesses dominantes através do “poder médico”. Portanto, a relação médico-paciente já pressupõe uma assimetria de poder entre as partes. A utilização dessa relação para influenciar o paciente em um momento de fragilidade e sofrimento, que é geralmente o que o leva a consultar um médico, caracteriza um abuso de autoridade.

Dentre as várias pessoas que fizeram seus desabafos pessoalmente ou em redes sociais sobre o fato de terem sido abordadas por seus(suas) médicos(as), nenhuma delas pretendeu dar seguimento a qualquer tipo de ação, seja nos respectivos Conselhos de Medicina, cujo silêncio deixa nas entrelinhas uma possível conivência com a situação, seja em outras instâncias legais. O motivo? Embora discordem do posicionamento político de seus doutores, não querem colocar em risco o atendimento e a relação.

O silêncio dos pacientes como forma de ação e/ou resistência caracteriza experiências de submissão a determinadas ordens, o que denota, de fato, o exercício de um “poder” advindo da autoridade médica que não é questionado pelo paciente quando o percebe exercido sobre ele. Esse poder tampouco é limitado a partir da tentativa de acionamento dos mecanismos legais vigentes em função do vínculo e confiança técnica no referido médico ou do medo de retaliação no próprio cuidado à saúde.

Assim, infelizmente, esse tipo de ação micropolítica vigente em muitas consultas médicas continuará acontecendo. Ação antiética, mas sancionada subliminar ou expressamente pelas instituições médicas.

Alinhavando, então, com o segunda questão acima assinalada, que trata da adesão político-eleitoral de instituições médicas a um determinado candidato, vale destacar que as mesmas representam coletivos maiores, com distintos posicionamentos político-ideológicos. O posicionamento de uma instituição médica (sindicato, associação, conselho ou outro) pode ser feito desde que seguindo o estatuto, que costuma pressupor uma assembléia aberta e ampla de seus membros, o que não parece ter sido o caso de algumas dessas instituições.

No caso dos Conselhos de Medicina, cabe lembrar que sua principal missão trata de questões que regulamentam a profissão. A adoção de um alinhamento político-partidário até caberia a um sindicato, talvez até a uma associação, pois nesses se associa quem quer. Mas um Conselho representa a instituição obrigatória de inscrição e contribuição de todos os médicos que desejam manter ativa a autorização para sua atividade profissional. Cabe questionar, portanto, a utilização do dinheiro arrecadado e oriundo de todos os médicos em campanhas específicas anti ou a favor de qualquer candidato que seja, como fez o CRM de Goiás.

O legado desta campanha eleitoral no segundo turno deixa o País dividido. Não seria diferente para a categoria médica, na qual também rebatem essas cisões. A liberdade política está garantida na Constituição Federal, cabe fazê-la valer nas instituições, inclusive as médicas.

* Maria Gabriela Curubeto Godoy é médica psiquiatra, doutora em Saúde Coletiva e professora-adjunta de Saúde Coletiva da UFRGS

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Categorias:Brasil, Política, Saúde
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