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BRASIL ► Fordlândia: uma história e tanto que não deveria ser esquecida

26 dez

fordlandiaApesar da pobreza cultural em que se transformaram as mídias brasileiras, ainda é possível encontrar vida inteligente e relevante por aí.

No país em que mais valem os quadris desafinados  e desnudos de Cláudias e Anittas (entre outras) do que uma boa interpretação musical vestida na sua telinha, Fordlândia, a inusitada aventura industrial de Henry Ford em terras amazônicas no início do século passado, é muito pouco conhecida pelo povo brasileiro.

Entre outras fontes, podemos nos socorrer da Wikipédia, que, depois de uma pesquisa de verificação pelo Google, me parece conter um conteúdo bem fidedigno em relação aos fatos que se desenrolaram no norte do país:

Fordlândia foi o nome dado a uma vasta área de terra adquirida pelo empresário norte-americano Henry Ford, através de sua empresa Companhia Ford Industrial do Brasil, por concessão do Estado do Pará, por iniciativa do governador Dionísio Bentes e aprovada pela Assembleia Legislativa, em 30 de setembro de 1927. A área de 14.568 km² fica localizada no município de Aveiro, no estado do Pará, às margens do Rio Tapajós.Ford tinha a intenção de usar Fordlândia para abastecer sua empresa de látex necessário a confecção de pneus para seus automóveis, então dependentes da borracha produzida na Malásia, na época colônia britânica. Os termos da concessão isentavam a Companhia Ford do pagamento de qualquer taxa de exportação de borracha, látex, pele, couro, petróleo, sementes, madeira ou qualquer outro bem produzido na gleba. As negociações foram conduzidas pelo brasileiro Jorge Dumont Villares, representante do governador Dionísio Bentes, que visitou Henry Ford nos EUA. Os representantes da Ford, para receber a área, foram O. Z. Ide e W. L. Reeves Blakeley.A terra era infértil e pedregosa e nenhum dos gerentes de Ford tinha experiência em agricultura equatorial. As seringueiras, árvores de onde se extrai o látex, plantadas muito próximas entre si, o oposto das naturalmente muito espaçadas na selva, foram presa fácil para pragas agrícolas, principalmente micro-organismos do gênero Microcyclus que dizimaram as plantações.Os trabalhadores das plantações recebiam uma alimentação típica norte-americana, como hambúrgueres, instalados em habitações também ao estilo norte-americano, obrigados a usar crachás e comandados num estilo a que não estavam habituados, o que causava conflitos e baixa produtividade. Em 1930, os trabalhadores locais se revoltaram contra gerentes truculentos, que tiveram que se esconder na selva até o exército brasileiro intervir e restabelecer a ordem.

O governo brasileiro suspeitava dos investimentos estrangeiros, especialmente na Amazônia, e oferecia pouca ajuda. Ford ainda tentou realocar as plantações em Belterra, mais para o norte, onde as condições para a seringueira eram melhores mas, a partir de1945, novas tecnologias permitiam fabricar pneus a partir de derivados de petróleo, o que tornou o empreendimento um total desastre, causando prejuízos de mais de vinte milhões de dólares.

Fim do sonho

Com o falecimento de Henry Ford, seu neto Henry Ford II assumiu o comando da empresa nos Estados Unidos e decidiu encerrar o projeto de plantação de seringueiras no Brasil. Através do Decreto número 8.440 de 24 de dezembro de 1945, o Governo Federal brasileiro definiu as condições de compra do acervo da Companhia Ford Industrial do Brasil: a Ford foi indenizada em aproximadamente US$ 250.000, e o governo brasileiro assumiu as obrigações trabalhistas dos trabalhadores remanescentes, além de receber seis escolas (quatro em Belterra e duas em Fordlândia); dois hospitais; estações de captação, tratamento e distribuição de água nas duas cidades; usinas de força; mais de 70 quilômetros de estradas; dois portos fluviais; estação de rádio e telefonia; duas mil casas para trabalhadores; trinta galpões; centros de análise de doenças e autópsias; duas unidades de beneficiamento de látex; vilas de casas para a administração; departamento de pesquisa e análise de solo; plantação de 1.900.000 seringueiras em Fordlândia e 3.200.000 em Belterra.

Resumidamente, então, podemos entender que Ford deu com os burros n’água por ignorar que as seringueiras precisavam de todo um ecossistema para sobreviverem e produzirem. Jamais resistiriam isoladamente no inóspito solo amazônico.

Mas a história, por si só, é fabulosa, principalmente se imaginarmos todo o legado que poderia ter deixado para a região se nós, brasileiros, soubéssemos aproveitar o que esses estrangeiros deixaram para trás.

Felizmente, existe ainda no meio artístico quem se preocupe com História, com conteúdo.

Como os cineastas Marinho Andrade e Daniel Augusto, que produziram o sensível documentário “Fordlândia”, a que assisti no Canal Brasil há um bom par de meses e que tem como fio condutor um filho de americanos que nasceu em Fordlândia, voltou para a América do Norte com os pais e anos mais tarde leva a família para conhecer o lugar onde nasceu.

O filme está disponível no YouTube e pode ser apreciado por todos aqueles que ainda se animam a procurar cultura em meio à tremenda oferta de bobagens que nos são vomitadas diariamente  na tela de TV.


Uma obra que não só mereceria, como deveria ser vista. E por muita gente.

*** *** ***

Licença Creative Commons
Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

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1 comentário

Publicado por em 26 de dezembro de 2014 em Brasil, História

 

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Uma resposta para “BRASIL ► Fordlândia: uma história e tanto que não deveria ser esquecida

  1. Maria José Speglich

    30 de maio de 2015 at 5:56

    Pois é, vi um documentário no Discovery faz uns 3 anos e uns americanos dandao a versão deles. Achei ridículo as colocações deles. O interessante é que não tinha brasileiros para contrapor.

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