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VIDA ► 50 anos em 10 crônicas – 1: “A Grande Injustiça”

30 dez

50dDando sequência às minhas reminiscências de 50 anos, uma das listas que começo a publicar é a de crônicas inesquecíveis. A maioria esportivas. E essas entrarão uma por post, claro, senão nem eu aguentaria ler.

E é óbvio que, como torcedor do Fluminense, talvez todas elas tenham o Tricolor das Laranjeiras como personagem.

Lógico que, como fã de carteirinha de Nelson Rodrigues, há uma penca cheia de crônicas dele na minha lista de “favoritas”. Mas começo por uma de Millôr Fernandes.

Millôr tinha uma seção muito de um humor muitos sarcástico, além de engraçado, chamada “Supermercado Millôr” na revista Veja (aquela que não existe mais….), lá pelo final dos anos 1960 e início dos 1970.

A que reproduzo acho absolutamente sensacional. Foi publicada numa edição de julho de 1969, após o Fluminense derrotar o Flamengo por 3 x 2 no até então “Fla-Flu do século”, aquele que originou uma (outra) crônica antológica de Nelson Rodrigues, que faz parte da minha lista de posts.

Foi uma crônica-resposta a um artigo de Tarso de castro no jornal “Última Hora” questionando a justiça da vitória e do campeonato conquistado pelo Fluminense.

Fiz algumas alterações adaptando a grafia à de nossos dias e mantive os grifos e neologismo genialmente criados pelo autor. Também abri um parágrafo para facilitar a leitura em um computador. Acredito que até os amigos flamenguistas vão se deliciar com qualidade do texto.

*** *** ***

A Grande Injustiça

millor_fernandesMeu caro Tarso de Castro, só agora leio seu artigo da “Última Hora” mostrando a total injustiça da vitória do Fluminense no campeonato da cidade. (É da cidade, só? Parece até que foi do mundo!)

Quero dizer que estou plenamente de acordo com você. Dada a fibra, a técnica, a total superioridade do Flamengo sobre o Fluminense, a vitória deste sobre aquele só se admite dentro da péssima estrutura do futebol, que permite às vezes a um time incrivelmente mais fraco, vencer outro, visivelmente mais forte. Aliás, dita a incomparável e incontestável supremacia do Fla sobre o Flu, não sei mesmo sequer a motivação do jogo. Todos concordam que o Flamengo é infinitamente melhor, inclusive eu. A partida não é para saber isso? Mas, se já se sabe, por que a partida? Entregar-se imediatamente a taça ao Flamengo seria economizar dinheiro, evitar o aborrecimento e o incômodo de 200.000 pessoas que enfrentam todos os contratempos – um deles: as barreiras alfandegárias do tráfego do Dr. Celso Franco – para chegar ao Maraca. E, sobretudo, evitar essa incrível injustiça que é colocar o Fluminense em campo. Porque, em campo, ele vence. Assim não é possível.

Pois, como você muito bem examinou, na última partida, o Flamengo foi infinitamente melhor (o adjetivo, em se tratando do mengo, é maior, eu sei!). Jogou mais, seus artilheiros artilharam mais, seus defensores defensaram mais, seus armadores armadaram muito mais. Mas aí vem o começo da Grande Injustiça. Os seus penaltistas também penaltizaram muito mais. Como as regras retrógradas das Fifas do mundo proíbem o penalty ou o foul (que, evidentemente, deveriam ser tão válidos no soccer como o blefe é no pôquer; você já pensou naquele nosso pôquer sem o seu blefe?), o Flamengo sempre fica atrapalhado. O futebol, esporte de machos, feito para ser jogado violentamente com os pés (como recomenda o psicanalista da café-society, o Dr. Scholl), passou a ser encarado apenas como um joguinho de damas, um passinho pra cá, outro passinho pra lá, onde qualquer canelada, joelhada ou pontapé nos lagos são considerados puníveis com expulsão. Ora, como o time do Fla é infinitamente mais másculo do que o do Flu, claro está que terá sempre mais jogadores expulsos. O onze Fluminense, umas damas, ficará sempre íntegro em campo e ganhará a partida. Sobretudo se quando, como você analisou muito bem, o jogo é arbitrado por um juiz delicadinho como o Armando Marques.

E é aqui que me falha o talento, sinto que não tenho veemência suficiente para aplaudir mais. Eu gostaria de ter a eloquência de um Tarso (já não digo a do Castro, mas a do Torquato) para invectivar os que continuam a escolher juízes pela técnica de arbitragem, pelo conhecimento das regras, pela determinação de fazer cumprir a Lei Específica. Meu Deus do céu – assim o Futebol acaba! Os juízes têm que ser escolhidos pela sua (deles, naturalmente) masculinidade. E então, é evidente, todos concordamos no Juiz dos Juízes. Mário Viana. Porque esse, sim! Furioso, certa vez, com a reação da torcida no campo do Botafogo, ficou em frente à geral, pôs as mãos nas cadeiras, e desafiou toda a torcida para a briga. Isso é que é árbitro! Não o Armandinho, meu amigo lá da Saúde, que já confessou até – aqui mesmo na VEJA – que uma vez saiu escondido do campo. Quer dizer, não teve a hombridade de enfrentar 100.000 ou 200.000 pessoazinhas ali no tapa. Pode? Não pode.

Olha, Tarso, está terminando o meu espaço regulamentar, e eu não posso juntar mais argumentos a teu favor (isto é, do Flamengo). Mas, finalizando: é fundamental acabar definitivamente, no Futebol, com essa coisa superultrapassada: a aferição do valor dos times pela contagem dos gous (Revisão, nada de gôlos!). Isso é que é a injustiça das injustiças. Isso é que é um critério feito deliberadamente para ajudar o Fluminense e esmagar os outros times; contando gous é claro que o Fluminense ganha. Porque, você viu, e milhares de pessoas viram, no último Fla-Flu. O Flamengo partiu, driblou, armou, encurralou o Fluminense durante dez minutos. Venceu-o espetacularmente! E o que aconteceu? O Fluminense foi e, num contra-ataque bobo, de sorte única (Têle, aliás, tinha avisado: “contra-ataquem que a sorte ajuda”), numa pura bamburra, vai e mete um gol. E bastou a sorte bafejar três vezes o Fluminense (contra as duas vezes em que, numa operação matemática do mais alto rigor científico, o Flamengo marcou dois gous) para que noventa minutos de técnica cibernética fossem anulados por três minutos de superioridade metapsíquica.

Olha, Tarso, ou se acaba com o critério dos gous ou o futebol está morto. Tem que ser consenso. Terminado o jogo, a mesa redonda do Nelson e do Scassa se reúne e diz quem ganhou. Ou se bota uma urna na porta do campo e a torcida diz quem ganhou. Depois se divide tudo por 3,1416, se deduz o imposto progressivo e se fazem os proclamas. Aí você vai ver que o Flamengo será tratado com a justiça devida. Ou, digo melhor, misericórdia?

MILLÔR FERNANDES

P.S. – O Torquato é Tasso, mas entrou bem no lance.

M.F.


*** *** ***

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Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

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Publicado por em 30 de dezembro de 2014 em 50 anos

 

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