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VIDA ► 50 anos em 10 crônicas – 3: “O Elefante”

50dNessas épocas do agora já mais comumente chamado de Flalusagate (desculpem os amigos rubro-negros, mamãe, tios…), em que a tadinha da Portuguesa e o queridíssimo Flamengo se viram envoltos numa trama obviamente urdida para beneficiar o Fluminense (espero que o sarcasmo tenha ficado claro…), muito me tenho lembrado de um texto que li há muitos anos no livro “O Fluminense na Intimidade – Volume II”, do Imortal Paulo Coelho Neto.

A crônica se chama “O Elefante” e foi escrita por Coelho Neto para a “Revista do Fluminense” de julho de 1957. Ela segue-se à brilhante conquista invicta do Torneio Rio-São Paulo de 1957. Uma conquista inédita e exclusiva, pois nenhum outro time jamais sagrar-se-ia campeão invicto daquele que era o principal torneio brasileiro interclubes da época e que teve posteriormente diversas edições.

Uma crônica sempre atual, pois o Fluminense vive contrariando previsões funestas e escapando a armadilhas vis ao longo de sua história.

Há pontos e mais pontos de nossa linha do tempo em que a crônica de Coelho Neto poderia perfeitamente ser adaptada.

E eu sempre adicionei mentalmente a ela um raciocínio próprio: “E um elefante numa sala de estar, incomodando muita gente.”

De quebra, é uma crônica que realça uma espetacular e muito pouco valorizada midiaticamente conquista tricolor, uma das maiores de sua história.

É essa crônica que selecionei para guardar em meus registros, a terceira desta minha série cinquentenária.

*** *** ***

O Elefante

coelho_netoA zoologia define o elefante como um mamífero proboscídeo, pertencente à ordem dos paquidermes, geralmente dócil, inteligente e dotado de força descomunal, capaz de realizar proezas quase inacreditáveis. Todas as grandes feras o respeitam: o leão, rugindo sempre a sua majestade, parece o mais forte dos animais, dono absoluto das selvas e das planícies, das massas de zebras e de antílopes, mas ao deparar o elefante arrepia a juba, emudece e cede-lhe o caminho; o grande neurastênico, o rinoceronte, contém a sua fúria latente e para, baixa a cabeça disforme e afasta-se; o cruel e vingativo búfalo, de olhos coruscantes, muge manso como em saudação amistosa; e o covarde e astucioso crocodilo raramente se aproxima das margens dos rios e lagoas, quando o elefante se banha ou bebe.

“A sua realeza é das que se impõem, mais pelo respeito que inspiram e pelo prestígio de que gozam, do que pelo terror que infundem”, dizem os famosos caçadores portugueses Teodósio Cabral, Abel Pratas e Henrique Galvão, no volume I da admirável obra “Da Vida e da Morte dos Bichos”.

O elefante ostenta todos os atributos da majestade: a Força, a Inteligência e o Porte, mas não sabe conjugá-los e dirigi-los, senão jamais alguém o venceria, mesmo com as armas da perfídia, como os homens as empregam para liquidá-lo ou domá-lo.

O Fluminense é o elefante do esporte nacional. Tem a Força, a Inteligência e o Porte dos colossos africanos e asiáticos, e impõe-se mais pelo respeito que inspira e pelo prestígio de que goza, do que pelos rugidos de ameaça e de grandeza. Mas, como os seus sósias, também não conhece inteiramente o próprio vigor. Quando ele o usa, com toda a sua pujança, é simplesmente arrasador.

O “Bloco do Pó de Mico”, que imagina ridicularizar-nos chamando aos tricolores pó de arroz, coçou-se freneticamente durante uma semana inteira, com a nossa demonstração de força no último jogo do Torneio Rio-São Paulo. Arno Frank, o psicólogo das rendas no Maracanã, cujas previsões raramente falham, disse-me na véspera do encontro Fluminense x São Paulo: “A arrecadação não passará de quinhentos mil cruzeiros, porque o Fluminense já é campeão e o jogo tem relativo interesse para a sua torcida. Além disso, são numerosos os sócios do Fluminense que possuem cadeiras cativas e camarotes perpétuos, e esses não pagarão ingresso.” Retruquei-lhe: “A festa que organizamos será também um atrativo e um recenseamento da torcida tricolor. Acredito que a renda passará de setecentos mil cruzeiros, porque muita gente irá ao Maracanã para ver a consagração dos campeões; depois, acompanhará o cortejo até a sede e participará das comemorações em nosso estádio. O torcedor gosta de novidades.” E Arno Frank, enchendo o cachimbo, meneou com a cabeça e confirmou: “Isso é verdade.”

E o Fluminense provou que também é da massa. Se alguém duvidar, aí está o Muniz de Mello para demonstrá-lo de modo insofismável… (*) Novecentos e vinte e seis mil cruzeiros passaram pelas bilheterias do maracanã. Com mais duas ou três festas iguais àquela, o elefante tricolor acabaria de sacudir a nossa torcida e encheria, sozinho, o maior estádio do mundo.

Que foi o goal da vitória, o inacreditável goal do incrível Valdo? O entusiasmo contagiante da consagração e o estímulo delirante da torcida culminaram quando a charanga dos operários da fábrica de Jorge frias de Paula começou a tocar a marchinha: “Com Jeito Vai”. E foi mesmo. Ouvindo-a, o Valdo disparou como um obus e mergulhou sobre o arqueiro do São Paulo, tomando-lhe a bola; tornou a mergulhar sobre o couro, que fazia cerimônia à porta do goal, não querendo entrar, entranhou-se no fundo da rede mordendo, de raiva e contentamento, a bola e a grama.

Faltava aquele título ao futebol carioca? Faltava-o à coleção do Fluminense? Pois, então, o elefante tricolor iria buscá-lo, de maneira inédita, arrasadora, como só ele sabe fazer. E o fez com a força incomum, a bravura indômita e o esplendor das grandes proezas.

Serão muitos e variados os motivos de júbilo nas comemorações do 55º aniversário de fundação do Fluminense, que ocorrerá a 21 do mês corrente, mas nenhum outro terá tanta significação quanto um pedaço de seda, com uma roseta e um dístico, que entrará para a sua história como um dos maiores feitos de todos os tempos no futebol carioca: a faixa de Campeão Invicto do Torneio Rio-São Paulo de 1957.

PAULO COELHO NETO

(*) Médico, grande torcedor e sócio do Fluminense, cujo peso normal é de 140 quilos. (nota do autor)

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