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FUTEBOL ► Oito décadas depois, Fluminense e Flamengo voltam a lutar contra o amadorismo do futebol do Rio de Janeiro

31 jan

campeonato_cariocaLá no início dos anos 1930, Fluminense e Flamengo foram os pilares do movimento que sustentou a implantação do profissionalismo no futebol carioca.

Com a imprensa dividida de acordo com seus interesses e Vasco e Botafogo defendendo o atraso que representava a manutenção do falso amadorismo no futebol brasileiro, a dupla Fla-Flu fez das tripas coração para que o profissionalismo vingasse. Poucos os acompanharam. América e Bangu os de maior relevo.

Para se ter uma ideia, entre compromissos oficiais e amistosos, entre 1933 e 1936, Fluminense e Flamengo se enfrentaram 25 vezes, levando sempre mais e mais público aos estádios. Até que finalmente a lógica e a razão prevalecessem e o futebol carioca voltasse a se unir em torno da modernidade a partir de 1937.

Oitenta e tantos anos depois, mais uma vez Fluminense e Flamengo se unem para combater o amadorismo criminoso (porque fere leis legais e morais) que aflige o futebol carioca e que atende pelo nome de Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (FERJ).

O falido futebol carioca.

Até porque não há futebol que resista a 20 anos de Eduardo Vianna, Eurico Miranda e Rubens Lopes (o “Rubinho”…) no comando. São figuras que representam o atraso. Representam um câncer maligno no seio do esporte mais popular do país.

No comando desde 1986, o que legou ao futebol do Rio de Janeiro essa nefasta administração Eduardo-Eurico-Rubens?

Um futebol que estrutural e administrativamente está atrás, hoje, até do discreto, mas organizado, futebol catarinense. Em diversas outras federações há clubes com estrutura melhor que a dos “gigantes” cariocas. Todo ano vemos jogadores que saem de Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco se surpreendendo com a estrutura encontrada em um clube dito de menor porte.

Não é que o novo clube tenha lá uma superestrutura. É que a estrutura dos chamados grandes cariocas beira o inacreditável. Muita capa bonita para poucos livros. Livros de páginas praticamente vazias ou mal escritas.

Não por acaso, por exemplo, Santa Catarina tem quatro clubes na primeira divisão brasileira (se o Criciúma não cai, teria cinco!). O poderoso Rio de Janeiro de Eduardo Vianna, Rubens Lopes e Eurico Miranda e dezenas de milhões de verbas de patrocínio? Três. E pelo segundo ano consecutivo.

“Mas como assim? Eduardo Vianna já morreu! E Eurico esteve fora do Vasco por anos!”

É aquela história do “nem tudo é o que parece”.

Rubens Lopes é cria e sucessor da dupla Eduardo Vianna e Eurico Miranda (“Eduardo Miranda” ou “Eurico Vianna” para muitos…), dupla que tantas mazelas legou ao Rio (a situação de cada clube do estado atesta isso) – e as ações, as mentiras e a falta de educação de Rubinho não negam sua origem.

Continuísmo óbvio das más práticas da gestão anterior.

Uma gestão que começou assim: recém-eleito, em 1986, uma das primeiras declarações de Eduardo Vianna foi mais ou menos assim (saiu na imprensa à época): “Eles estão loucos se acham que vão ganhar alguma coisa enquanto eu for o presidente.”

“Eles”, no caso, o Fluminense. O motivo da ameaça? O Fluminense ter sido o único clube que não votou em Eduardo Vianna. Para quem acredita em coincidência, o então tricampeão estadual amargou 10 anos de fila, até vencer a competição em 1995 sabe-se lá como, naquela antológica final do ano do centenário do Flamengo.

Quanto a Eurico Miranda… Me admira que haja vascaínos esclarecidos que não tenham percebido o quanto esse dirigente atuou na Federação Carioca para minar a administração Roberto Dinamite no Vasco – e que o Vasco se afundasse, pois isso não importava ao inflado ego do velho dirigente.

Ano passado arbitragens decisivas contra o Flamengo tiraram o título de São Januário. Armação para favorecer a Gávea? Ingenuidade. Eu disse na ocasião a amigos: “Tem dedo do Eurico nisso.”

Eurico jamais deixou de ser influente nos bastidores, agindo como sempre o fizera na época de Eduardo Vianna, arregimentando e manipulando os clubes pequenos de acordo com os duvidosos interesses da dupla. Clubes pequenos e tudo

E o Botafogo… Bem, o Botafogo… Meu afilhado é Botafogo, meu avô Narciso era Botafogo, tio Carlão é Botafogo… Não me sinto à vontade para escrever que o Botafogo surtou nos últimos 12 meses e, a seguir assim, se apequena a passos largos. Um ano atrás jamais estaria do lado errado.

Enfim, estamos hoje, em pleno ano de 2015, com Fluminense e Flamengo de um lado e os pequenos do outro, mais Vasco e Botafogo – com as honrosas exceções de Volta Redonda e Barra Mansa.

A História mostrou quem estava do lado certo em 1933. E ela hoje parece se repetir como farsa – incrível como isso acontece.

Aliás, esse atraso no futebol carioca, em relação à (des)união dos grandes quando comparamos com o movimento do profissionalismo em São Paulo pode ser o primeiro indício a explicar por que o futebol paulista apresenta hoje condições de trabalho muito superiores. Muitos clubes chamados de pequenos, do interior, oferecem aos seus jogadores condições que não se encontram no Rio de Janeiro.

Por isso chega a ser absolutamente patético e até risível ver essas figuras quase fellinianas de Rubens Lopes e Eurico Miranda como comandantes do futebol carioca. A própria imagem deles depõe contra o futebol destas bandas.

O futebol de hoje não comporta personagens assim.

Que Fluminense e Flamengo continuem até o fim essa disputa e – se for o caso – mandem às favas a FERJ. Que abandonem a federação e criem uma nova liga, pois os clubes devem gerir os campeonatos que disputam.

O futebol profissional e civilizado é assim.

Não existe na Europa nenhuma federação que roube dinheiro dos clubes com taxas que beiram a agiotagem como o faz a FERJ – assim como outras federações no pais inteiro.

Não pode um clube fazer uma final no Maracanã, bater recorde de renda e a FERJ levar a maior fatia do bolo. E isso não vem de agora. Principalmente em competições nacionais, a FERJ em nada contribui para o espetáculo. apenas o explora.

O futebol só existe por causa de clubes e não de federações. Que os clubes de todo o país entendam isso e deem um pé na bunda de quem lhes mete o cabresto. A começar pela dona CBF.

Eu, como torcedor do Fluminense, apoio integralmente essa briga. E por mim o Fluminense disputaria o campeonato estadual deste ano apenas com o que antigamente chamava-se de aspirantes, enquanto o time principal se prepararia para um campeonato de verdade.

*** *** ***

PS.1. Interessante como pouco se avalia o fato do país todo citar que dois clubes, no caso Fluminense e Flamengo, estão brigando com a notoriamente incompetente e famigerada federação de Rubinho e Eurico e que Vasco e Botafogo estão com os pequenos do lado da FERJ. Institucionalmente, isso não é bom para esses clubes. É como aquele lamentável ex-presidente do Fluminense que estourou uma champanhe quando a permanência do clube na primeira divisão em 1997 foi confirmada graças a manobras escusas de terceiros. O sujeito passa, mas o prejuízo à imagem do clube fica. Saber o lado certo da História para seguir pode ser muito difícil. Melhor, então, aguardar no acostamento até saber o caminho a seguir do que seguir na direção errada. Como a bola da máxima Muricyniana, a História pune.

PS.2. Eu particularmente sempre fui ferrenho defensor dos estaduais, mas não posso em hipótese alguma defender isso no que se transformou ano após ano o futebol dito profissional do Rio de Janeiro.

*** *** ***

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2 Comentários

Publicado por em 31 de janeiro de 2015 em Futebol

 

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2 Respostas para “FUTEBOL ► Oito décadas depois, Fluminense e Flamengo voltam a lutar contra o amadorismo do futebol do Rio de Janeiro

  1. Wellington Lopes

    2 de fevereiro de 2015 at 11:35

    Como sempre, muito bem escrito e fundamentado, sobretudo pela visão atual, quando o Vasco foi assaltado ano passado.

    Apenas uma ressalva: quando escrevi a minha monografia tive que estudar várias bibliografias, e todas elas diziam que o responsável pelo profissionalismo no futebol foi o Vasco. Depois disso achei na internet o blog abaixo:

    http://www.usp.br/agen/?p=44584

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    • opiniaododavid

      3 de fevereiro de 2015 at 12:22

      Bom aparte! Apenas ressalvo que durante o período em que o futebol era amador, tal remuneração não era “oficialmente” permitida. Isso (remuneração), porém, ocorria em maior ou menor escala e de maneiras variadas em quase todos os clubes, que tinham o hábito de paparicar seus melhores jogadores, remunerando-os informalmente para – se não dedicar-se exclusivamente ao futebol – priorizar e dedicar-se mais a quem lhes fazia o mimo.

      Pelo que entendo de diferentes fontes (como deixa entender o próprio link), os jogadores vascaínos eram contratados com carteira assinada como trabalhadores de atividades diversas, mas na verdade apenas ganhavam para jogar futebol – um exemplo do que ocorria no Brasil. Efetivamente, um jeito de inserir em um esporte dito amador cidadãos que de outra forma não teriam condições de praticá-lo (pois teriam que se preocupar primeiro em ganhar dinheiro para sustentar família…), mas era o que acabava caracterizando o que ficou conhecido como “amadorismo marrom”.

      Quando houve a implementação do profissionalismo, o Vasco, a meu ver paradoxalmente, optou por permanecer “amador”, o que me faz achar o caso confuso nesse ponto, pois a lógica indicaria, então, que o Vasco deveria ser dos primeiros a aderir ao futebol profissional. Sei não, se não fosse a impossibilidade física, diria haver o dedo euriquiano nisso…

      O problema é que se torna muito difícil nos inserirmos nos bastidores do futebol de uma época em que não havia uma cobertura de mídia tão extensiva como hoje. Daí tentarmos extrair do que encontramos em pesquisa, nos esforçando para separar o que identificamos como joio e como trigo nas fontes, um entendimento particular mais racional do que possa efetivamente ter ocorrido. Ou qualquer coisa próxima disso.

      Curiosamente, o Flamengo se posicionou ao lado do futebol amador com Vasco e Botafogo, mas teria se “surpreendido” ao constatar a prática do amadorismo marrom pelos colegas, principalmente pelo tradicional rival dos tempos em que o remo era o esporte mais popular da cidade – como se ele próprio, Flamengo, não o praticasse, não importa em que escala.

      E nessa guerra profissionalismo x amadorismo, a liga profissional, com menos clubes no Rio de Janeiro do que a liga amadora, foi muito chacoteada e pode-se dizer até sabotada (como a Globo faz com o que não lhe pertence em nosso tempo) pela parte da mídia que a criticava e a sucessão de Fla-Flus era prato cheio para jornalistas de plantão pela causa amadora.

      É muito curioso ler jornais da época literalmente caindo de pau no futebol profissional, quase considerando-o um atentado à honra da nação!

      Hoje vemos aqueles argumentos até como ingênuos, totalmente anacrônicos em relação aos nossos dias, e pretensiosamente até pensamos: “Como podiam escrever bobagens assim? E acreditarem nisso?”

      Como se, de repente, daqui a algumas décadas, não estarão pesquisadores do futuro achando tolas e absurdas nossa posições de hoje. A História é assim…

      Valeu pelo comentário!

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