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VIDA ► 50 Anos em 10 jogos de Copa do Mundo

20 fev

50dNão, não são os melhores, não há essa pretensão. Nem são as decisões, mesmo podendo ser. Nem são apenas 10 – como disse em post anterior, a vantagem de fazer a própria lista no próprio blog é determinar as próprias regras. Logo, esta lista de 10, na verdade, contém 11 jogos que, por um motivo ou outro, muito me marcaram nas Copas do Mundo que acompanhei, não sendo necessariamente “os” que mais me marcaram, mas os que recordei agora. Não valem, por exemplo, as muitas partidas de copas anteriores a 1970, partidas que vi em tape, mas de Copas realizadas antes de eu nascer. E diga-se de passagem, é uma lista de 11 que poderia ser de 15, 20, 23, 30…

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 1970: BRASIL 1 X 0 INGLATERRA


1970: BRASIL 1 X 0 INGLATERRA

O melhor jogo de todas as Copas, em minha opinião. Como garoto, bem criança ainda, um terror. Aquele famoso, falado e temido time de branco, com jogadores imensos, campeões do mundo… Já adulto, a constatação de uma partida épica, muito bem disputada tática e tecnicamente, palmo a palmo, como uma verdadeira decisão – o que, para muitos, foi, mesmo sem nunca ter sido: e se o Brasil perde para os ingleses? E se Félix não pega a cabeçada à queima-roupa – e o rebote que lhe valeu um bico na cara – de Lee quando o placar estava 0 x 0? Teríamos a mesma confiança para encantar o mundo depois? Com a resposta, apenas Uatu, o Vigia, aquele da Marvel…

 

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 1970: Alemanha Ocidental 4 x 3 Itália


1970: ALEMANHA OCIDENTAL 4 X 3 ITÁLIA

Curioso que eu não me lembre de “ver” o jogo. Mas lembro muito bem de acompanhá-lo. A memória dos meus 5 anos me levam até a cozinha, acompanhando mamãe em seus afazeres, e ouvindo o jogo pelo rádio. Foi minha primeira experiência com a tal de prorrogação e eu parecia intuir que aquele jogo não seria algo para se esquecer. Um épico Beckenbauer, o pequeno gigante Gerd Muller, talvez o maior goleiro da História, Sepp Maier, uma impressionante seleção da Alemanha batida pela Itália de Facchetti, Mazzola (nosso Altafini), Riva, Albertosi… E vendo a reprise do jogo, anos depois, ainda prendo a respiração com a intensidade da batalha disputada por alemães e italianos.

 

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 1974: HOLANDA 2 X 0 URUGUAI


1974: HOLANDA 2 X 0 URUGUAI

Sim, eu não tinha 10 anos, mas sabia que existia uma Holanda e que a capital se chamava Amsterdã. Havia uma revista chamada “Geo” (de geografia, como indica o nome) que em uma edição publicou um jogo que continha a bandeira de todos os países do mundo e, no verso, suas capitais. Até descobri – e nunca esqueci – que a capital de Tonga era (e é…) Nuku’alofa. Enfim… Mas sequer imaginava que a seleção da Holanda existisse. Ou jogasse bem. O que era curioso, porque eu conhecia o Ajax, não só através da revista “Placar”, como dos jornais, porque logo que aprendi a ler simpatizei com clubes estrangeiros que eu sabia (ou achava que sabia) pronunciar o nome: Ajax, Arsenal… E aí eu soube que a Holanda tinha vencido o poderoso Uruguai! “Mas como assim?” E fui eu ficar acordado até tarde (para os padrões de uma criança) para poder assistir ao videotape da partida e ver que era verdade mesmo. E não só descobri o Carrossel Holandês, como também aquele inesquecível uniforme laranja. Além de um tal de Johan Cruyff capaz de fazer todos esses fabricados “supercraques” de hoje meros “bonzinhos”.

 

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 1978: TUNÍSIA 3 X 1 MÉXICO


1978: TUNÍSIA 3 X 1 MÉXICO

A vitória da Tunísia sobre o espantosamente cabeludo time mexicano foi a primeira de um time africano numa Copa do Mundo. E nunca esqueci a Tunísia porque, para minha surpresa, ela não havia ido à Argentina para ser um saco de pancadas como Zaire o fora na Copa anterior. E essa foi a estreia da Tunísia numa Copa. Na época eu estudava na Sun Yat-sen, escola que – literalmente – ficava a menos de 5 minutos de minha casa à pé. Então, juntando um tempo vago a um intervalo, dei uma escapada para ver esse jogo quase inteiro. E acabei me impressionado com um ponta direita que atendia pelo sonoro nome de Lahzami Témime, com o qual passei a imaginar até com a camisa do Fluminense. O grupo era muito difícil, mas a Tunísia foi extremamente bem. Além de bater o México, vendeu muito caro a derrota para a Polônia em sua melhor época e, façanha das façanhas, empatou com a Alemanha Ocidental, então campeã mundial.

 

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 1982: BRASIL 2 X 1 UNIÃO SOVIÉTICA


1982: BRASIL 2 X 1 UNIÃO SOVIÉTICA

A última vez que torci de verdade pela seleção brasileira. A teimosia de Telê Santana em não modificar o time a partir dali, após uma vitória dramática, alcançada, no frigir dos ovos, graças a uma arbitragem FIFA comumente simpática ao Brasil e mais comumente ainda carrasca com os soviéticos, dei um basta nesse negócio. Tanto que a derrota contra a Itália não me abalou em nada. Aliás, eu e Zezé Moreira alertamos antes que a Itália seria mais perigosa que a Argentina naquela fase da competição. Ninguém ligou para mim, óbvio. Mas o veterano Zezé foi chamado, à boca pequena, de esclerosado em meio à delegação e à imprensa brasileira na Espanha: “Tadinho do seu Zezé…”. E deu no que deu. Já naquela época, torcer “apesar de tudo” e “acima de tudo”, apenas pelo Fluminense. E está de muito bom tamanho.

 

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 1982: ALEMANHA 3(5) X 3 (4) FRANÇA


1982: ALEMANHA OCIDENTAL 3 (5) X (4) 3 FRANÇA

A derrota do Brasil para a Itália em 1982 não me deixou trauma algum. Como disse antes, já tinha dado um basta à nossa seleção e vira a Itália mostrar antes contra a Argentina que seria um osso quase intragável. Mas a derrota da seleção francesa para a forte, porém violenta, seleção alemã foi cruel – e muito injusta. Injusta porque um abutre holandês de apito na boca que atendia pelo nome de Charles Corver decidiu o jogo ao não expulsar o transtornado, alucinado e muitos outros “ado” goleiro da Alemanha Schumacher após uma praticamente tentativa de homicídio que cometeu sobre o lateral francês Patrick Battiston, que quase morreu em campo. O sujeito sequer marcou infração alguma no lance, um dos mais violentos de todas as copas. Vale ressaltar, entretanto, que algoz e vítima acabaram se tornando amigos, numa dessas histórias edificantes que engrandecem qualquer esporte. Mas ao se falar desse jogo não se pode deixar de citar Rummenigge. Sem qualquer condição de jogo, cheio de infiltrações na perna, entrou com o time perdendo e o levou ao empate após estar em desvantagem de 1 x 3 na prorrogação, após o gol do ótimo líbero francês Marius Trésor. Aí nos pênaltis… Tudo se acabou nos pés não lá muito talentosos (pelo contrário) do grandalhão desajeitado Hrubersch.

 

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 1986: ESPANHA 5 x 1 DINAMARCA


1986: ESPANHA 5 x 1 DINAMARCA

Dinamarca 1986, que bem poderia ser conhecida como Holanda 1974 versão 2.0. Se a Holanda, como seleção, surpreendeu o mundo em 1974, que dirá a Dinamarca 12 anos depois. Afinal, a Holanda ainda tinha o Ajax e seus craques. Já a Dinamarca… Alguém aí sabe, sem dar uma pesquisada no Google, de cabeça, o nome de algum time dinamarquês? Pois é… Em vez de Carrossel Holandês, era a Dinamáquina, com um volume de jogo incrível, que protagonizou um massacre antológico sobre os uruguaios, com uma dupla de frente formada pelo talentoso Michael Laudrup e pelo rompedor Larsen Elkjaer que parecia invencível. E até o uniforma era, digamos, diferente. Para tudo se acabar… Bem, estava eu voltando da faculdade para casa num dia de prova daqueles em que nem sequer pude passar na cantina para dar uma olhada nos jogos da Copa. Sentei já lá pelas onze da noite no primeiro banco após o cobrador em um ônibus no ponto final da linha 326 (Castelo-Bancários) e ouvi um chiado de radinho de pilha que deu para entender ser sobre futebol. Aí perguntei quanto tinha sido Dinamarca x Espanha e a resposta veio: “5 x 1…” Imediatamente, em fração de milésimo de segundo, eu já pensava “a Dinamarca, caramba..”, quando ouvi o final da informação: “…Espanha.” Foi o dia em que Emilio Butragueño acertou tudo o que pôde e a Espanha, com meia-dúzia de finalizações, enfiou cinco na sacola dinamarquesa e acabou com a alegria da Copa. Nunca a Espanha foi tão Fúria.

 

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 1990: INGLATERRA 3 X 2 CAMARÕES


1990: INGLATERRA 3 X 2 CAMARÕES

 1990, a Copa das Copas ao avesso: a pior da História. Tão ruim, mas tão ruim, que até o que havia de bom ficou pelo caminho, que era a seleção de Camarões do craque veterano Roger Milla e do goleiro feiticeiro Thomaz Nkono. Em uma partida dramática, os africanos foram eliminados pelo insosso, mas brigador – havemos de reconhecer – time inglês. Faltou malícia, experiência, mas sobrou ingenuidade, arte e carisma a um futebol africano que simplesmente não existe mais, graças à famigerada globalização do esporte.

 

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 2010: ESLOVÁQUIA 3 X 1 ITÁLIA


2010: ESLOVÁQUIA 3 X 2 ITÁLIA

Esse entrou, digamos, pela janela. Mas uma tragédia italiana dessas não dava para deixar passar após recordar essa incrível partida. Como uma seleção tradicional, de jogadores coros no mercado e orgulhosa até a última trava de chuteira como a da Itália cai dramática, mas bisonhamente, diante de um país principiante, que estreava nesse negócio de Copa do Mundo e corria atrás de somente sua primeira vitória? Só (re)vendo mesmo para entender. Comecei, por razão lógica (querer ver o melhor na mais importante competição de futebol), torcendo pela Itália – e terminei comemorando a improvável vitória eslovaca no mítico Ellis Park. Até como justo castigo aos protagonistas do calcio.           

 

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 2010: URUGUAI  1 (4) X (2)  1 GANA


2010: URUGUAI  1 (4) X (2)  1 GANA

Não acharia que já burro velho fosse me abalar tanto com jogo de outros times que não o Fluminense. Mas essa partida foi demais da conta. Aconteceu de tudo naquela que seria a primeira vez que uma seleção africana avançaria às semifinais de uma Copa do Mundo… e jogando na África! E Gana acabou caindo de forma dramaticamente hollywoodiana nos pênaltis para o valente e iluminado time uruguaio. Até hoje tento mentalizar a bola vencendo Gana x Uruguai – 2010 em sua tentativa de defendê-la com a mão no final da prorrogação ou Asamoah Gyan colocando a bola nas redes naquela cobrança de pênalti no último segundo. Bem, ficou para a próxima…

 

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 2010: EUA 2 X 1 ARGÉLIA


2010: ESTADOS UNIDOS 1 X 0 ARGÉLIA

Termino esta lista de memórias com aquele que bem poderia ser conhecido como “o dia em que os EUA se renderam ao futebol”. Que o nosso futebol (soccer para eles) sempre fora visto com preconceito pela mídia e pelos patrocinadores esportivos americanos não surpreendia ninguém. E era algo fácil de entender: os americanos jamais massificariam um esporte no qual eles não chegam nem perto de serem os melhores. Só que o futebol é o esporte mais praticado pela juventude deles, herança da passagem de um tal de Pelé por lá nos anos 1970. E esse jogo mostrou que, enfim, o futebol venceu a guerra e dominou o orgulhoso povo dos EUA, que finalmente conheceu as emoções de vencer pequenas grandes batalhas como talvez nenhum outro esporte possa proporcionar. Primeiro que, diga-se de passagem, a entrega e a disciplina de toda equipe norte-americana, em qualquer esporte, são exemplares. E no futebol não é diferente. E, apesar de eu ter começado torcendo mais pela Argélia (esse negócio de quase sempre escolhermos um lado para torcer, mesmo quando só queremos apreciar…), acabei comemorando o histórico gol de Landon Donovan que garantiu uma dramática vitória e uma vibração em todo o país nunca motivada por qualquer outro esporte. Os vídeos no YouTube provam isso. E para quem – ainda – ama o futebol, ver a vitória desse esporte na terra do Tio Sam é algo muito legal. Priceless.

 

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Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

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Publicado por em 20 de fevereiro de 2015 em 50 anos, Futebol

 

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