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VIDA ► 50 anos em 10 desfiles assistidos na Avenida

23 fev

50dNesta lista entram desfiles que assisti in loco e por um motivo ou outro me vêm facilmente à mente. E confesso que agora extrapolei: minha lista de 10 foi a 17! Como disse em posts anteriores, vantagens de fazer as regras do jogo…

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1979: Grupo de Acesso B – Diz o lugar comum que devemos começar pelo início. Então aqui entra o desfile do grupo inteiro, equivalente ao de sábado dos dias de hoje (e não me perguntem sobre a patética classificação ora dada por Liesa, Lesga, Lierj ou seja lá o que for). Por quê? Ora, porque foi a primeira vez que meu pai me levou para assistir a um desfile de escola de samba. Lembro termos ficado no que seria o equivalente hoje ao setor 3, só que o desfile na Marquês de Sapucaí pré-Sambódromo tinha o sentido contrário ao atual. Ficamos lá em cima, naquelas arquibancadas monta-desmonta, de assento de madeira, que reverberava maravilhosamente o som das baterias. Não ficamos até o fim, mas lembro da Império Serrano ter sido a grande atração da noite, depois da chocante queda no ano anterior. A Vila Isabel também desfilou por lá. E ainda recordo muito bem de uma escola pequenininha, que passou como um animado bloco de embalo, que atendia pelo singelo nome de Caprichosos de Pilares.

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2 - 1980: Portela

1980: Portela

Difícil dizer qual foi o melhor carnaval das escolas de samba de “todos os tempos”. Mas 1980, sob qualquer análise, está no páreo. Não por acaso, três escolas dividiram o primeiro lugar, e outras três o segundo, tudo bem embolado. E daquele ano há várias contribuições em minha lista. A começar pela Portela, linda e animada no final da madrugada, passagem da noite para o dia, com o inesquecível enredo “Hoje Tem Marmelada”, de Viriato Ferreira. E havia um verdadeiro circo na Avenida, com palhaços, homens de perna-de-pau, roda-gigante, carrossel, malabaristas… E o ótimo samba de David Correa, Norival Reis e Jorge Macedo. Um desfile encantador, da série “para sempre na memória”.

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3 - 1980: Imperatriz Leopoldinense

1980: Imperatriz Leopoldinense

Quando a Imperatriz entrou já era dia. O enredo era a Bahia (“O Que é Que a Bahia Tem”), o samba era uma antológica criação de Darci Nascimento e Dominguinhos do Estácio. O carnavalesco? Simplesmente Arlindo Rodrigues. Diz a História que Arlindo encantara ao fazer um Salgueiro todo de prata e branco, também numa manhã de sol, quando a escola tijucana vencera o carnaval de 1969 com “Bahia de Todos os Deuses”. E ele fez de novo. Só que dessa vez eu vi, ali pertinho, uma escola brilhante e iluminada, reluzente como a luz do dia, como dizia a letra do samba. Eu estava naquele ano acho que na mesma arquibancada do ano anterior, quando estreei, só que bem mais embaixo. E quando a Imperatriz veio assim, encheu de brilho o meu visual. Só Arlindo mesmo. Nenhum outro carnavalesco jamais trabalhou o branco e o brilho assim.

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4 - 1980: União da Ilha do Governador

1980: União da Ilha do Governador

A União da Ilha em 1980 era um must, como se dizia na época (ou em outra época, não tenho certeza). Era a favorita de todos. Não para vencer o carnaval, mas para brincar. Após um sucesso que pode ser chamado de relâmpago (afinal, foram antes apenas cinco carnavais no grupo principal), a escola decidiu contar essa sua contagiante trajetória. E me lembro muito bem que toda a Ilha do Governador se enfeitou sob o lema do “Bom, Bonito e Barato” contado pelo enredo. Praticamente todas as fachadas comerciais foram pintadas de vermelho, azul e branco – ainda hoje é possível encontrar algumas delas assim. E foi um desfile autoexaltativo dos melhores já realizados, desenvolvido por um hoje muito pouco falado carnavalesco de nome Adalberto Sampaio, que sucedera Maria Augusta sem deixar a escola perder as características que a fizeram tão popular: alegre, descontraída, empolgada e bonita sem luxo, mas esbanjando bom gosto e criatividade. E colorida, claro, muito colorida, como diz a letra de outro antológico samba-enredo daquele ano, desta esse assinado por Robertinho Devagar, Jorge Ferreira e Edinho Capeta, e levado na Avenida à perfeição pelo inesquecível Aroldo Melodia. Olha, foi bonita demais. Foi das últimas a desfilar, meu pai desfilou naquele ano, minha irmã também. Um desfile daqueles que hoje não se vê mais mesmo, daqueles que seguia à risca o recado dado pelo falecido baluarte do samba José Carlos Rego: “Escola de samba é para se divertir.” E a União da Ilha era assim.

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1980: Acadêmicos do Salgueiro

1980: Acadêmicos do Salgueiro

As seis primeiras colocadas de 1980 foram, então, Beija-Flor, Imperatriz, Portela, Mocidade, Ilha e Vila Isabel. As decepções foram as escolas que ficaram para trás: Salgueiro, Mangueira, Império e São Carlos. “Então o que faz o Salgueiro nesta lista?”, eu mesmo poderia perguntar. Bem, por influência de pai, aprendi a amar o Salgueiro, sua história, seus desfiles memoráveis, suas características únicas, “nem melhor nem pior, apenas um escola diferente”. E eu estava ansiosíssimo por finalmente ver o vermelho e o branco do Salgueiro desfilar à minha frente. Pois fiquei querendo. Esse desfile entra aqui por ter sido inesquecível pelo motivo errado: uma grande decepção. O Salgueiro veio com a cabeça toda em amarelo e preto! Parecia o Volta Redonda. Dizem que a opção foi para respeitar as cores das entidades presentes no enredo, mas que a escola não se limitaria a isso. Mas então aonde foi parar o vermelho, que não deu as caras naquele desfile? Além disso, a escola passou incompleta, cheia de falhas, desperdiçando uma ótima história de origem afro e um belo samba assinado por Zé Di, Zuzuca, Edinho, Haydée, Moacir Arantes e Pompeu. E o que valeu na minha primeira vez com o Salgueiro foi apreciar a cadência de sua bateria e o supertalentoso Rico Medeiros levando o “No Bailar dos Ventos, Relampejou, Mas Não Choveu” com extrema categoria. Ironicamente, o Salgueiro naquele ano foi como seu enredo: relampejou, mas chuva que era bom, nada…

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6 - 1982: Império Serrano

1982: Império Serrano

Se há um ano que possa rivalizar com 1980 é 1982. É dessas coisas que fazem pensar: “Mas que diabos aconteceu? Quando as escolas perderam a mão?” Bem, o gigantismo e o luxo em excesso começavam a tomar corpo, ano após ano, gerando muita discussão entre bambas. Inspirado por uma sugestão de Fernando Pamplona, o Império Serrano levou para a Avenida uma crítica definitiva, inesquecível, com um samba à altura do enredo “Bum-Bum Paticumbum Prugurundum”, desenvolvido a quatro mãos por Rosa Magalhães e Lícia Lacerda. Pouco precisa-se dizer mais sobre esse desfile. Basta ler a letra da obra-prima assinada por Beto Sem Braço e Aluísio Machado. E ponto. Às vezes uma grande expectativa se afunda na passarela. Pois o Império Serrano, como diria um narrador empolado, “correspondeu plenamente às expectativas”.

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7 - 1982: União da Ilha do Governador

1982: União da Ilha do Governador

Se alguém me perguntar qual o melhor desfile da União da Ilha, respondo sem pestanejar: “É Hoje!”, de 1982. Um enredo que pode ser entendido como a síntese de tudo o que significava o desfile para uma escola de samba como a União da Ilha do Governador. Um samba impecável de Didi e Mestrinho que se tornou um clássico da MPB. E momentos que jamais esqueci. Como a barca. Naqueles tempos, não havia Linha Vermelha, muito menos Cidade do Samba, óbvio. Os carros da escola saíam da Ilha mesmo, e tinham que atravessar a ponte em direção à Avenida Brasil e à Marquês de Sapucaí. E os desfiles de então atrasavam e muito. Naquele carnaval, saímos de casa na hora do almoço de domingo e voltamos à mesma hora da segunda. E na ida cruzamos com a barca que viria na cabeça do desfile. A barca viria cercada por uma grande ala vestida de fitas de diversos tons de azul. O movimento alucinado dos componentes fazia um mar que envolvia a barca e encantava a arquibancada. Jamais esqueço a forma como os componentes chamavam para a pista e empolgavam o público, uma característica tipicamente insulana de desfile. Algo obviamente impossível de se ver nos tristes dias de formação militar adotada pelas escolas de hoje. E ainda teve a paradinha… Ah, aquela paradinha… Estávamos lá à altura do setor 11 atual, o público todo sentado depois de horas na folia, aguardando a Ilha chegar, quando se ouviu ao longe algo diferente. Ou melhor: não se ouviu.  A bateria de repente parara. Mas voltou de forma espetacular, balançando toda a arquibancada (literalmente, naquele tempo balançava mesmo). Não recordo todo o resto do desfile, mas nem é preciso. Foi demais! Foi a União da Ilha que eu mais gostei de ver desfilar.

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8 - 1983: Caprichosos de Pilares

1983: Caprichosos de Pilares

Sabe aquele samba-enredo de 1984 da Caprichosos de Pilares que diz “nesse palco iluminado, que um dia por pecado se apagou”? Pois é, eu estava lá. Meu pai, meu irmão e eu, no antigo setor 4, ao lado do prédio da Brahma. Não havia Sambódromo ainda, era apenas Marquês de Sapucaí. Ali ficávamos praticamente em frente ao recuo da bateria, o que era muito bom. Em compensação, só víamos a escola quando ela se aproximava do mesmo recuo, o que não era tão bom assim. Foi quando a Avenida ficou literalmente às escuras durante aproximadamente uma hora. Mas a Caprichosos ainda assim passou bonita, valente, com samba na boca e no pé, fazendo História – e eu estava lá…

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9 - 1983: Mocidade Independente de Padre Miguel

1983: Mocidade Independente de Padre Miguel

E lá pelas tantas da manhã, sol já a pino, vinha a Mocidade Independente de Padre Miguel fechando o ano com o maravilhoso enredo “Como era Verde Meu Xingu” do saudoso Fernando Pinto. O samba era bom, forte, a bateria perfeita, Ney Vianna levando na garganta com a categoria de sempre um refrão melodicamente lindo, provavelmente o mais lindo que eu vi ser cantado in loco: “Oh, Morená/Morada do Sol e da Lua/Oh, Morená/O Paraíso onde a vida continua” Mas havia um problema: o calor era imenso àquela altura. Estávamos lá (papai, meu irmão e eu) esperando a Mocidade – e esperava-se mesmo entre uma escola e outra – e eu ouvindo um rádio de médio porte, daqueles que chamavam de pau-de-arara, com uma incrível capacidade de sintonizar praticamente tudo em suas ondas médias e curtas. E nesse rádio de cor laranja que tínhamos, me lembro perfeitamente de ouvir o repórter – se não me engano da Tupi – chamar mais ou menos assim da concentração: “O Sol está muito forte, muita gente passando mal, mas o ‘morená’ da Mocidade vai acontecer na Avenida!” E aconteceu mesmo. Uma obra-prima de crítica e criatividade carnavalesca do mais carnavalesco de todos os carnavalescos de nossos carnavais. No segmento que ele chamou de “Deu a louca no Xingu” tinha índio fazendo de tudo na Sapucaí, de patins, de motocicleta, de bicicleta… Um monte de coisas que muitos anos depois reapareceriam na Avenida e ouvirmos gente dizer “pela primeira vez em um desfile…”. Como diria aquela socialite, “uma loucura!” mesmo. Tudo para se acabar nas mãos de… jurados como um dito cujo que arrasou a escola em seu quesito dizendo que “tigre não sobe em árvores”, como mostrava uma alegoria. Enfim… Fica o tal sujeito de quem ninguém recorda o nome com sua nota e eu com o desfile gravado em minha memória.

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10 - 1985: Mocidade Independente de Padre Miguel

1985: Mocidade Independente de Padre Miguel

Em outra lista ficará registrado que Fernando Pinto foi o mais criativo carnavalesco de todos os tempos – em minha opinião. Com o enredo “Ziriguidum 2001”, em 1985 ele pôde colocar toda a sua criatividade na Avenida, sem inibições. O homem simplesmente mandou uma escola de samba para o espaço: bateria, mestre-sala e porta-bandeira, baianas, velha guarda, tudo! Última a desfilar naquele domingo de Sol de fritar ovo no asfalto, já com claros na arquibancada do setor 5, em meu primeiro desfile no Sambódromo, meu irmão e eu tivemos espaço para literalmente desfilar com a Mocidade, indo de um canto a outro da arquibancada com a escola. Um desfile inusitado, ganho de saída: como superar a comissão de frente de pequenos astronautas com uma bandeirinha do Brasil à mão levando as estrelas o ziriguidum da Mocidade? Quem viu, viu. Outra aula de criatividade – e não de recauchutagem de um mestre.

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11 - 1988: Unidos de Vila Isabel

1988: Unidos de Vila Isabel

No ano do centenário da Abolição, a Vila Isabel parecia uma tragédia anunciada. O enredo de Martinho da Vila era inegavelmente forte: “Kizomba, Festa da Raça”. O samba-enredo, uma obra-prima à altura. Mas todos sabiam que a escola estava sem grana. No barracão, só se via palha, ráfia, nada de carros. Mesmo o samba, reconhecido por sua qualidade, parecia impossível de “pegar” na Avenida, por sua complexidade melódica. Meu irmão e eu conversávamos justamente sobre isso enquanto conferíamos a letra naquela revistinha distribuída ao público. E quando veio a Vila… Ah, a Vila… Foi simplesmente o maior desfile de uma escola de samba. Não sei quantas vezes – pouquíssimas, com certeza – pôde-se ver tamanha integração entre componentes e enredo. Uma verdadeira kizomba fez-se na Sapucaí. A escola foi num crescendo contagiante de tal forma que tornou a abertura dos envelopes uma coisa absolutamente dispensável. A Vila Isabel saiu da Avenida campeã. A escola passava e o público ia junto, uma chuva de ventarola cobria a passarela. E repare: nem de longe a Vila era – ou é – uma das favoritas do povo, uma escola de grande torcida. Daí é possível se ter uma noção da espontaneidade da reação do público ao que ele via diante de seus olhos e da grandeza do desfile. Nunca mais a Sapucaí viu algo assim.

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12 - 1991: Acadêmicos do Salgueiro

1991: Acadêmicos do Salgueiro

A minha paixão pelo Salgueiro não durou para sempre. Após o título de 1993 a escola fez de tudo para descaracterizar-se – e  conseguiu, a ponto de eu não mais reconhecê-la como aquele Salgueiro “nem melhor nem pior” que eu tanto admirava. Mas até aquele título, que encerrou quase 20 anos de jejum, o Salgueiro vinha buscando o primeiro lugar com afinco e em 1991 eu tive finalmente a chance de ver o Salgueiro do qual eu tanto lera e ouvira falar. A pergunta que ainda hoje não quer calar: como Rosa Magalhães fez de um mirrado de rua como a Ouvidor um enredo com aquela pujança? Para se ter uma ideia, os carros da escola viraram tema de exposição de arte na Europa. “Me Masso Se Não Passo pela Rua do Ouvidor” foi um desses enredos inesquecíveis e muito, mas muito carioca. E o samba de Sereno, Luiz Fernando e Diogo, levado de forma espetacular pelo puxador Quinho e a perfeita bateria de mestre Louro, fez a escola passar no estilo imposto por Fernando Pamplona em seus tempos de Sal: empolgada, evoluindo como um bloco de embalo, sem amarrar na pista, deixando saudade, deixando um gostinho de “quero mais” no público. Como dizia Ferreira Gullar sobre o Salgueiro: “…E a escola passa e me leva, e me deixa. E dá vontade de chorar: chorar porque passou linda e chorar porque já passou.” Os jurados da Liesa, entretanto, preferiram o banho tecnológico e de superalegorias do “Chuê, Chuá” da Mocidade, que desfilou imediatamente antes mostrando muito mais plástica que conteúdo e venceu o carnaval por 1 ponto e meio. Como diria Nelson Rodrigues, pior para a História.

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13 - 1998: União da Ilha do Governador

1998: União da Ilha do Governador

O potente samba-enredo composto por Márcio André, Almir da Ilha e Maurício 100 para “Fatumbi, a Ilha de Todos os Santos” estava à altura do ótimo enredo de Milton Cunha para o carnaval de 1998 da União da Ilha. A voz inconfundível de Rixa e a espetacular performance da bateria de mestre Paulão poderiam justificar a lembrança. A escola teve problema com carros gigantescos que acabaram danificados e não concretizou o que poderia ter sido um dos maiores desfiles de sua história. Mas não é por nada disso que essa apresentação insulana entra nesta lista. Isso acontece porque, como meu pai muitas vezes fez com o Salgueiro, saí de casa no meio da madrugada para encontrar o povo da família na arquibancada e ver a Ilha passar – era a última a desfilar naquela noite. E a cereja do bolo (expressão bem clichê, mas que não curto muito, pois não gosto de cereja…): meu compadre Wellington e eu aparecemos na tela da Rede Manchete com bandeiras da União da Ilha cantando com a escola. Isso vale ou não vale uma vaga em qualquer lista de desfiles para não esquecer?

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14 - 1999: Unidos da Tijuca

1999: Unidos da Tijuca

Após cair na armadilha de fazer de um clube de futebol seu enredo, a Unidos da Tijuca foi rebaixada em 1998 para o grupo de acesso imediato ao principal. Acabou sendo bom para a escola, que, mordida, fez um de seus mais belos desfiles, um desfile antológico: “O Dono da Terra”, desenvolvido pela genialidade precocemente perdida de Oswaldo Jardim. O samba é de entrar fácil em listas dos mais belos da História, um samba de enredo como não se faz mais. A forma como Oswaldo jardim integrava componentes e alegoria foi uma aula definitiva. Havia desenho de carro, havia alegoria de verdade, mas totalmente integrada ao componente, que completava seu desenho. Assim como a distribuição de alas e carros… Enfim, Oswaldo Jardim esbanjou categoria, foi como um legado definitivo de todo seu talento. E a Unidos da Tijuca, de tantos enredos históricos, cheios de conteúdo, como “O Dono da Terra”, “Macobeba”, “Delmiro Gouveia”, “Lima Barreto” e “Os Nove Bravos do Guarany”, entre outros, quem diria, se transformou num verdadeiro arauto do nada. Quem te viu, quem te vê…

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15 - 2000: Em Cima da Hora

2000: Em Cima da Hora

Vi em um documentário sobre a Fundação Oswaldo Cruz, certa vez, um idoso pesquisador proferir palavras que nunca esqueci: “O melhor do Brasil não está na música, no futebol. O melhor do Brasil está aqui na Fundação Oswaldo Cruz.” E, claro, na figura ímpar do fabuloso cientista Oswaldo Cruz, com certeza um dos mais proeminentes brasileiros de nossa história. Bem, no emblemático ano 2000, o pesquisador foi o enredo da tradicional Em Cima da Hora, que desfilava sábado no grupo de acesso sonhando com uma volta ao desfile principal. E quem representaria Oswaldo Cruz no principal carro da escola? Papai! Pois é, seu Walter Duarte encarnou o cientista naquele que foi, provavelmente, o melhor desfile da Em Cima da Hora na Marquês de Sapucaí. Naquele ano duas escolas subiam (ainda não havia a excrecência de apenas uma subir) e a escola do bairro de Cavalcante empatou em segundo lugar com a Paraíso do Tuiuti – mas perdeu o acesso nos critérios de desempate. Dali por diante a escola se desacertou num crescendo só e foi paras nos últimos grupos do carnaval carioca, desfilando em Campinho, na já tradicional Intendente Magalhães. Uma pena perder um acesso que teria mudado a vida da agremiação assim. mas ao menos aqui na minha lista o desfile de 2000 da Em Cima da Hora tem vaga garantida.

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16 - 2003: União da Ilha do Governador

2003: União da Ilha do Governador

Após a justa queda para a segunda divisão em 2001, após um dos mais patéticos desfile de uma escola de porte, a Ilha fez feio em 2002 no Acesso, parecendo ainda atordoada com a pancada. Mas em 2003 viria a fazer um desfile de almanaque, de cartilha de be-a-bá. O desenvolvimento que Paulo Menezes deu ao enredo “Chega em seu Cavalinho Azul uma Bruxinha Boa. A Ilha Trouxe do Céu Maria Clara Machado” poderia perfeitamente ser usado na base do: “Ó, desfile de escola de samba se faz assim.” Me marcou muito ver esse desfile porque nos anos anteriores sempre faltara algo à escola: ora era enredo, ora era samba, ora quebrava carro, ora faltava fantasia… Mas em 2003 tudo se encaixou. Até o samba, que, se não entra em nenhuma antologia das melhores composições insulanas, servia perfeitamente ao enredo e ao canto dos componentes, até porque foi extremamente bem levado por Ito Melodia. A escola estava linda, obras e personagens de Maria Clara Machado desfilaram graciosos, coloridos e leves pela Avenida – bem a cara da União da Ilha. A vitória e a volta ao grupo principal parecia apenas questão de tempo: o tempo de chegar a Quarta-Feira de Cinzas e abrirem-se os envelopes. Bem, aí que o bicho pegou. Os senhores-doutores-jurados descobriram um jeito de dar 10 em todos os quesitos a uma outra escola. Como estampou uma faixa na quadra da Estrada do Galeão durante alguns meses depois: “O possível nós fazemos, o impossível só a São Clemente faz.” Pano rápido, como diriam alguns – com todo o respeito à São Clemente, uma escola pela qual nutro particular afeição.

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17 - 2006: Em Cima da Hora

2006: Em Cima da Hora

“Em Cima da Hora”, a escola de “Os Sertões”. Quando passou a ser permitido o reaproveitamento de mas e/ou enredos antigos, muita gente moderninha estrilou. Gente daquela linha do “é impossível desfilar hoje com os sambas cadenciados de antigamente”. Bem, aí vieram Portela e Império Serrano desfilando com pérolas de décadas  e décadas atrás e foi o que todo mundo viu: um show de evolução, harmonia e emoção na Avenida. Mas isso não é história para este post. O fato é que em 2006 lá estava eu com a equipe do site OBatuque.com na Intendente Magalhães para acompanhar os menos prestigiados e muito mais autênticos desfiles de escolas de samba do Rio de Janeiro dos grupos mais baixos, pouco favorecidos por qualquer tipo de subvenção. E a Em Cima da Hora vinha com uma reedição, “Festa dos Deuses Afro-Brasileiros”. Um samba de Baianinho muito forte, muito bom, mas pouco conhecido, para não dizer totalmente desconhecido pela público. Mas não fez diferença, porque após poucos minutos de desfile as arquibancadas improvisadas acompanhavam a escola, que cantava a plenos pulmões – e em Campinho é possível ouvir a escola cantar, não os amplificadores, como na Sapucaí –  o refrão “arerê, caô meu pai, arerê”, com uma evolução maravilhosa. De arrepiar quem realmente gosta e aprecia um bom desfile de escola de samba.

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E veja que curioso: os mais recentes desfiles que me recordei aqui não estavam no Grupo Especial. Até porque aquilo ali virou uma espécie de cultura descartável: usou, joga fora. Muita capa para pouco livro. Enredos pífios, sambas idem, baterias barulhentas e sem cadência alguma, enfim… Nada que venha a se recordar com emoção nos anos porvir.

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Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

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Publicado por em 23 de fevereiro de 2015 em 50 anos, Carnaval

 

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