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VIDA ► 50 anos em 10 crônicas – 4: “Os Jornais”

20 abr

50dEu cresci lendo muito. E tudo. Coisas até bem além da minha compreensão, muito além das reavistas da Mônica e do Tio Patinhas. Papai trabalhava como editor em uma gráfica na Rua do Riachuelo e eu adorava os sábados que ele me levava junto. Havia a digitadora Edith que sempre levava revistinhas em quadrinhos para trocarmos. E havia um monte de livros na sala de meu pai.

E eu lia, mesmo que muitos fossem obras do Ministério dos Transportes, Transamazônica pra lá, ponte Rio-Niterói pra cá, assuntos não muito divertidos para uma criança de menos de 10 anos – a não ser pelas fotos. Entre uma ou outra publicação institucional assim, algo que eu entendia melhor, como a Revista do América, aquele simpático clube do Andaraí praticamente assassinado pelo Clube dos 13 e pela Globo quando da criação da Copa União em 1987.

Mas enfim… Eu também lia muito na escola – e, na contramão dos coleguinhas, gostava. Lia José de Alencar, Machado de Assis, Joaquim Manuel de Macedo… Mas o que me despertou particular prazer foi uma série de livros chamada “Para Gostar de Ler”, com contos e crônicas de consagrados autores nacionais.

Talvez daí minha maior influência para o prazer – e até necessidade – de escrever que acabei cultivando. 

E alguns dos textos dessa série de livros jamais esqueci. Como a que reproduzo a seguir, de autoria de Rubem Braga.

Afinal, quem nuca pensou o mesmo que o protagonista da crônica? Eu já, e muitas vezes.

Segue, então, minha primeira crônica da lista fora da área esportiva.

***

Os Jornais

para-gostar-de-lerMeu amigo lança fora, alegremente, o jornal que está lendo e diz:

– Chega! Houve um desastre de trem na França, um acidente de mina na Inglaterra, um surto de peste na Índia. Você acredita nisso que os jornais dizem? Será o mundo assim, uma bola confusa, onde acontecem unicamente desastres e desgraças? Não! Os jornais é que falsificam a imagem do mundo.

Veja por exemplo aqui: em um subúrbio, um sapateiro matou a mulher que o traía. Eu não afirmo que isso seja mentira.  Mas acontece que o jornal escolhe os fatos que notícia. O jornal quer fatos que sejam notícias, que tenham conteúdo jornalístico. Vejamos a história desse crime. “Durante os três primeiros anos o casal viveu imensamente feliz. . .” Você sabia disso? O jornal nunca publica uma nota assim: “Anteontem, cerca de 21 horas, na rua Arlinda, no Méier, o sapateiro Augusto Ramos, de 28 anos, casado com a senhora Deolinda Brito Ramos, de 23 anos de idade, aproveitou-se de um momento em que sua consorte erguia os braços para segurar uma lâmpada para abraçá-la alegremente, dando-lhe beijos na garganta e na face, culminando em um beijo na orelha esquerda. Em vista disso, a senhora em questão voltou-se para o seu marido, beijando-o longamente na boca e murmurando as seguintes palavras: “Meu amor”, ao que ele retorquiu: “Deolinda”.  Na manhã seguinte, Augusto Ramos foi visto saindo de sua residência às 7,45 da manhã, isto é, dez minutos mais tarde do que o habitual, pois se demorou, a pedido de sua esposa, para consertar a gaiola de um canário-da-terra de propriedade do casal”.

A impressão que a gente tem, lendo os jornais – continuou meu amigo – é que “lar” é um local destinado principalmente à prática de “uxoricídio”.
E  dos  bares,  nem  se  fala.

Imagine isto:

“Ontem, cerca de 10 horas da noite, o indivíduo Anafias Fonseca, de 28 anos, pedreiro, residente à rua Chiquinha, sem número, no Encantado, entrou no bar “flor Mineira”, à rua Cruzeiro, 524, em companhia de seu colega Pedro Amâncio de Araújo, residente no mesmo endereço. Ambos entregaram-se a fartas libações alcoólicas e já se dispunham a deixar o botequim quando apareceu Joca de tal, de residência ignorada, antigo conhecido dos dois pedreiros, e que também estava visivelmente alcoolizado.  Dirigindo-se aos dois amigos, Joca manifestou desejo de sentar-se à sua mesa, no que foi atendido. Passou então a pedir rodadas de conhaque, sendo servido pelo empregado do botequim, Joaquim Nunes. Depois de várias rodadas, Joca declarou que pagaria toda a despesa. Ananias e Pedro protestaram, alegando que eles já estavam na mesa antes. Joca, entretanto, insistiu, seguindo-se uma disputa entre os três homens, que terminou com a intervenção do referido empregado, que aceitou a nota que Joca lhe estendia. No momento em que trouxe o troco, o garçom recebeu uma boa gorjeta, pelo que ficou contentíssimo, o mesmo acontecendo aos três amigos que se retiraram do bar alegremente, cantarolando sambas. Reina a maior paz no subúrbio do Encantado, e a noite foi bastante fresca, tendo dona Maria, sogra do comerciário Adalberto Ferreira, residente à rua Benedito, 14, senhora que sempre foi muito friorenta, chegado a puxar o cobertor, tendo depois sonhado que seu netinho lhe oferecia um pedaço de goiabada”.

E meu amigo:

– Se um repórter redigir essas duas notas e levá-las a um secretário de redação, será chamado de louco. Porque OS jornais noticiam tudo, tudo, menos uma coisa tão banal de que ninguém se lembra:  a vida…


(Rubem Braga, maio de 1951)

*** *** ***

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Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

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Publicado por em 20 de abril de 2015 em 50 anos

 

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