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VIDA ► 50 anos em 10 crônicas – 7: “A Praça da Esperança”

22 abr

50 anosLá pelo início da década de 1990 eu andei trabalhando uns bons pares de anos com um jornalista italiano ligado basicamente a uma agência de notícias e a um grande jornal daquele velho país europeu, além de fazer freelance para qualquer jornal que pudesse ter interesse em notícias muitas vezes relevantes apenas a determinadas regiões ou mesmo pequenas cidades.

Era um trabalho interessante por me manter com uma visão estrangeira sobre o noticiário brasileiro. E curioso porque o português dele era pra lá de complicado e meu italiano… pior ainda.

Mas nos entendíamos bem. Eu fazia um levantamento diário nos grandes jornais aqui do Brasil para checar a relevância de apurar alguma notícia que porventura pudesse despertar interesse na Itália – normalmente aquelas que envolvessem cidadãos ou interesses italianos.

Mas também havia notícias outras, claro, que poderiam ser sobre esportes, escândalos, tragédias, fatos inusitados…

O problema era o momento de escrever. Dizia meu empregador que para essas notícias que não envolviam diretamente a Itália despertar mais interesse por lá, o texto deveria ser “mais brilhante”. Com “mais brilhante” ele queria dizer algo como “sensacionalista”, “apelativo”.

E eu definitivamente não gosto de escrever nessa linha. Acho que a notícia é notícia por si só. E depois, florear assuntos que envolvam vidas humanas apenas para chamar a atenção… Não, não é muito o meu estilo, mas temos que ser adaptáveis.

Aí ficou combinado que, com esse tipo de material, eu apuraria, faria o levantamento completo, até uma matéria convencional, e ele depois trabalharia o texto dando o “brilhantismo” que julgasse necessário. E funcionássemos bem assim.

Mas houve uma vez, não lembro se antes ou depois de definirmos nossa linha de ação, que fiz uma matéria sobre um até pitoresco fato ocorrido em Benfica. Havia a suspeita de haver topázio no solo de uma pracinha do bairro. Foi essa matéria que encontrei em meio aos meus alfarrábios. Sequer lembro se usei nomes reais ou fictícios, para manter as pessoas no anonimato.

Mas (re)vi que, na intenção ainda de escrever com mais “brilho”, saiu uma texto com certa cara de crônica. 

Daí que eu resolvi incluir nesta minha lista. Nem sei que fim levou a matéria, na verdade eu me preocupava em trabalhar bem. O que seria feito com o material que eu produzisse já não era de minha alçada. Afinal, não levaria meu nome. Mas, modéstia à parte, relendo o texto cerca de 25 anos depois, gostei.

Segue abaixo a reprodução dessa história ao mesmo tempo curiosa, singela e melancólica. As únicas alterações feitas foram para adaptá-lo às novas normas ortográficas.

***

A Praça da Esperança

topazioBenfica é um bairro pobre da zona norte do Rio de Janeiro. Em Benfica existe uma rua chamada Lopes Trovão. Nessa rua, uma praça. Uma “pracinha”, como muitas existentes mesmo nas regiões mais carentes da cidade. Ela não tem nome, apenas espaço suficiente para um pequeno campo de futebol e alguns brinquedos. Nesta semana, porém, poderia ter sido batizada de “Praça da Esperança”, onde centenas de pessoas procuravam, dia e noite, realizar o sonho de uma vida melhor.

Tudo começou com Antônio Azevedo da Silva, morador da Favela do Tuiuti, um dos morros do bairro. Todo dia, ainda de madrugada, Antônio desce o morro, onde vive de favor com a mulher e três filhos na casa do cunhado, para entregar jornais, emprego que não lhe permite qualquer ambição de dar um maior conforto para sua família. Dois meses atrás, naquela pracinha, Antônio encontrou uma pedra “diferente”, que um lapidador lhe disse ser topázio, uma pedra preciosa. Ele passou, então, a escavar o local por vários dias, conseguindo juntar oito quilos daquela pedra. Voltou ao lapidador e teve seus “topázios” avaliados em 45 milhões de cruzeiros, quase 40 mil dólares, dinheiro que jamais vira e que poderia mudar sua vida. O homem que se dizia lapidador, porém, desapareceu com as pedras e, com Antônio da Silva, ficou apenas a desilusão: “Não tenho mais prazer em nada, pois me roubaram a última esperança de uma vida melhor”.

O que parece o triste fim de uma história particular, entretanto, é o início de um inusitado drama social.

Ao ser registrado na polícia, o caso tornou-se público e provocou uma verdadeira corrida em busca do suposto ouro. Primeiro, dos moradores da favela. Depois, do restante do bairro. Por fim, de diversos pontos da cidade. Eram mais de mil pessoas que, por três dias, foram atraídos para a praça pelo mesmo sonho de enriquecer. Tentando conter o alvoroço, geólogos do governo procuravam explicar: “São topázios do tipo incolor, sem qualquer valor comercial”, “…talvez dê para tomar uma cerveja…”, “Não há minas de topázio no Rio”… Mas o que são detalhes técnicos ante necessidades tão enraizadas no povo como fé e esperança?

Pois para os garimpeiros da “Praça da Esperança”, nada importava. Nem a chuva fria e intermitente que, ao contrário, facilitava as escavações. Instrumentos? Qualquer coisa servia. De pás e picaretas a facas, colheres, escorredores de macarrão e as próprias mãos. Valia tudo na busca de algo que nenhum deles sabia definir o que era, apenas que transformaria suas vidas de “abóboras” em belas “carruagens”. “Topázios são pedras brilhosas e transparentes. À noite, são iguaizinhas às estrelas”, imaginava o vendedor de picolés Joel de Azevedo, 55, que juntou dentro de um saquinho plástico seis pedras. Ele as tirava da terra, colocava na boca e limpava com a própria saliva. Com o dinheiro da venda de suas “joias”, compraria presentes para as filhas de sete e 10 anos.

Como nunca haviam visto um topázio, muita gente guardava cacos de vidro e pedaços de bolinha de gude como se fossem pepitas de ouro. No grande lamaçal em que se transformou a praça, o garimpo não podia parar. Rosana dos Reis Francisco, 19, só interrompia as escavações para amamentar a filha de sete meses. Geiseni dos Santos Conceição, 26, guardava na boca as três pedrinhas que conseguiu encontrar no meio da lama, enquanto procurava mais.

Eles não paravam. Escavavam até partes da calçada. Arrancavam gramados e plantas. Sonhavam com casa própria, carros, videocassetes e outras extravagâncias. Como em quase todo garimpo, o ambiente tornava-se de desconfiança. Jurandir Bezerra da Silva, 15, “contratou” dois seguranças para levar uma pedra do tamanho de uma laranja para casa. “Achei! Achei!”, gritou o cardíaco Marcos Pereira da Silva Abade, 21, quando suas mãos encontraram uma pedra brilhante e incolor de quase 300 gramas, para logo depois se ver cercado por uma multidão que queria roubar-lhe o tesouro. “Nem sei como meu coração resistiu. Na verdade, eu nem sabia o que procurava”, desabafava Marcos.

Examinando a área, técnicos da Divisão de Mineração da Delegacia Regional do Ministério da Infraestrutura anunciaram oficialmente que as pedras não tinham qualquer valos comercial. Era hora de pôr fim ao sonho, pois a desenfreada atividade começava a colocar em risco o muro de um centro comunitário e mesmo a base da rua. Até o chão do Conjunto Habitacional Mendes de Moraes, em frente à praça, estava sendo escavado, ameaçando sua estrutura. Apesar do temor de um confronto entre policiais e a multidão, a Secretaria Municipal de Obras decidiu, sexta-feira, pedir à Defesa Civil a imediata interdição da praça e a Polícia Militar isolou com cordas os prédios vizinhos. Dinheiro, mesmo, só fizeram os ambulantes, oportunistas de plantão que venderam quase todos seus estoques de pás, peneiras, cigarros, cachaças e tudo mais que pudessem reverter em lucro fácil à custa da ilusão popular.

Muitos se decepcionaram com a notícia de que as pedras não tinham valor, outros ainda sonhavam. De todo modo, chegava o momento de fazer o rescaldo. Desolado, sentado na beira da calçada da rua Lopes Trovão, estava o peixeiro Nílton Dias Alves, 32. Nílton morava longe e precisava acordar às quatro horas para chegar cedo em Benfica. Era um dos que não perdera de vez suas esperanças: “Mesmo que não tenham valor, vou achar um avaliador de pedras. Alguém conhece algum?”, perguntava a quem passava por perto. O contínuo Edson Gonçalves, por sua vez, tentava encontrar o irmão, Humberto Gonçalves, que dormira fora de casa, empolgado com uma pedra encontrada na quinta-feira. “Acho que meu irmão acreditou que estava rico e foi cair na farra por conta”, lamentava.

Da “Praça da Esperança”, restou o lamaçal formado pelo garimpo do sonho e a volta à dura realidade do dia-a-dia. Uma realidade que não dá margem à sorte da fortuna e que fica mais explícita nas palavras do vendedor de pastel Inácio Soares da Silva, de 68 anos, que a tudo assistia com olhos céticos: “Se não arrumei nada vendendo pastel a vida inteira, vou lá arrumar alguma coisa catando pedra?”

(David Telio Duarte, 1991)

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Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

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Publicado por em 22 de abril de 2015 em 50 anos

 

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