Início > Futebol > FUTEBOL CARIOCA ► Afinal, quem protagonizou o primeiro chororô?

FUTEBOL CARIOCA ► Afinal, quem protagonizou o primeiro chororô?

fla_sentou

Estava eu outro dia navegando por aí na grande rede quando me deparei com matéria sobre o livro “Jogo do Senta: a verdadeira origem do chororô”, do jornalista botafoguense Paulo Cezar Guimarães. Parece um belo trabalho de pesquisa sobre um jogo que desde criança me espantou: o jogo em que o Flamengo, aparentemente cansado de levar gols do Botafogo, sentou em campo.

Foi a percepção que tive ainda criança ao ler as primeiras matérias sobre o jogo. E sempre me admirei com o fato do Flamengo, além de não ter sido eliminado, ter conquistado o campeonato daquele ano. Tipo “o crime compensa”.

A sinopse de divulgação da obra é a seguinte:

 livro_o_jogo_do_sentaAlém do jogo que encanta, dos bons organizadores no meio-campo e de tantas outras coisas técnicas, nosso futebol também tem sentido falta de histórias pitorescas. Como as que meu pai contava e eu ouvia meio cabreiro, desconfiado de que havia exageros aqui ou ali, da mesma forma que os jornalistas Sandro Moreyra e João Saldanha exageravam – quando não simplesmente as inventavam – nas histórias sobre Manga e Mané Garrincha. (Jorge Murtinho, no blog “Questões do Futebol”, no site da revista “Piauí”.

Num 10 de setembro, no pequeno e simpático estádio de General Severiano, em jogo pelo segundo turno do Campeonato Carioca de 1944, o Botafogo marcava – através de Geninho – seu quinto gol num clássico contra o Flamengo, cujo timaço (que viria a ser tricampeão naquele ano com o mítico gol de Agustín Valido), alegando que a bola não teria entrado, sentou no gramado para protestar e pressionar o obeso árbitro Aristides “Mossoró” Figueira para anular o gol. Sem sucesso. O jogo entrou para a História e o folclore do futebol carioca.

O jornalista e professor de jornalismo Paulo Cezar Guimarães – o PC Guima –, reconhecido gozador das relações entre as torcidas do Botafogo e do Flamengo, encarou o desafio de produzir um livro sério sobre um caso jocoso, o canto da torcida do Botafogo – Senta, para não apanhar de mais – ecoando há 70 anos, Garrincha para um lado, Zico para outro, o chororô do Botafogo em 2008, a cavadinha do Loco Abreu no título carioca do Botafogo em 2010… enfim uma rivalidade que atravessa os tempos e permeia as relações entre as torcidas.

Para escrever Jogo do Senta: a verdadeira origem do chororô , Paulo Cezar Guimarães, mergulhou em jornais da época, entrevistou os dois lados (como convém a um bom jornalista), recuperou imagens e manchetes, descobriu até quatro “velhinhos” que presenciaram a partida e confirmaram: a bola entrou, e o time do Flamengo sentou.

O Flamengo perdeu o jogo e a renda, mas ganhou o Campeonato. O Botafogo ganhou o jogo, mas só se tornaria campeão de novo quatro anos depois. Sem Heleno de Freitas, que marcou dois gols no “Jogo do Senta”.

O prefácio é do eminente jornalista Botafoguense Roberto Porto, comentando a rivalidade que atravessa gerações. Para ouvir o “outro lado”, o posfácio é do escritor rubro-negro Marcos Eduardo Neves, biógrafo de Heleno de Freitas, que devolve a gozação, mas elogia a preservação da memória. E o radialista e humorista Maurício Menezes, criador do Plantão de Notícias, escreveu uma orelha engraçadíssima.

Um livro que recupera mais uma história deliciosa do futebol carioca 

O objetivo do livro parece óbvio – e justo: rebater a pecha que a chamada Flapress imputou ao Botafogo de “time do chororô” por conta de algumas lágrimas alvinegras derramadas após serem prejudicados em partidas decisivas contra o Flamengo.

Eu gostaria muito de ler o livro, deve ser uma leitura bem agradável. Está na minha lista. Acho inclusive que a literatura esportiva ainda carece de obras como essa sobre épocas distantes de nosso futebol.

Apenas ressalvo que esse Jogo do Senta não foi a origem do chororô em terras cariocas. Certamente, foi o primeiro chororô em clássicos Flamengo x Botafogo. Mas ao menos o  Flamengo já havia sentado em campo antes (seria um hábito?) e o Vasco já abandonara as quatro linhas por motivos semelhantes ao apregoado chororô botafoguense: queixas da arbitragem. Afinal, praticamente todo chororô no futebol se resume a isso: “O juiz roubou.” Da boca de dirigentes e de torcedores.

Descobri isso por acaso em minhas pesquisas pelo passado do Fluminense. E imagino que se pesquisando apenas sobre o Fluminense me deparei com tais fatos, talvez o chororô não tenha sido uma situação tão rara assim no futebol carioca, quiçá em todo o país da bola.

Como mostra a imagem principal que ilustra o post, o Jornal dos Sports do dia 29 de outubro de 1936 escancara na manchete o que aconteceu no Fla x Flu da véspera:

“O ONZE DO FLAMENGO ESTEVE QUINZE MINUTOS SENTADO EM CAMPO”

O fato relatado é que o capitão rubro-negro Fausto foi expulso por reclamação, quando o Fluminense já vencia por 1 x 0 e, ato incontinente, agrediu o juiz (aliás, como apanhavam os juízes em tempos antigos…).

Após a interrupção, o jogo seguiu e os jogadores do Flamengo se insurgiram com a confirmação de um novo tento tricolor que, para eles, não aconteceu, pois alegavam que a bola não teria ultrapassado a linha de gol.

O campo foi invadido, o juiz Lippe Peixoto foi novamente agredido covardemente por atletas rubro-negros e precisou se refugiar no vestiário. Com proteção da polícia especial, voltou a campo e determinou a expulsão dos agressores Domingos da Guia, Yustrich e Otto.

Aí o Flamengo sentou em campo. Chorou.

E ali ficaram sentados até o fim do primeiro tempo.

fla_sentou2

Reprodução Jornal dos Sports

Depois de, provavelmente, um dos mais longos intervalos da história do futebol carioca, o Flamengo voltou a campo… com seus jogadores expulsos!

Foi o que uma boa conversa resolveu para que o Flamengo aceitasse continuar a partida. O clube da Gávea impôs que Domingos, Yustrich e Otto voltassem ao jogo. E eles voltaram! Apenas Fausto, pivô de toda a confusão, permaneceu de fora.

Como vivíamos dias mais corteses, ao menos o clube da Gávea emitiu uma nota oficial se desculpando com os torcedores e com o Fluminense pelos incidentes, culpando apenas o árbitro da partida pelo desenrolar dos fatos.

A História registra, então, que o Flamengo foi chororô não apenas décadas antes do Botafogo, como ainda o foi antes mesmo do famoso “Jogo do Senta” contra o alvinegro de General Severiano.

E antes do Botafogo (que, afinal, não “chorou” em campo), em 13 de junho de 1943 o Vasco se colocou em situação constrangedora em partida contra o Fluminense, abandonando o campo em protesto contra a arbitragem do consagrado juiz Mário Vianna, um típico caso de chororô – se o termo criado pela Flapress existisse naqueles tempos.

vasco_abandona

Reprodução O Globo

Dois fatos descontrolaram os vascaínos, que já estavam atrás do placar quando o primeiro ocorreu:

1 – O juiz confirmou um gol tricolor em cobrança de falta sem que ele apitasse autorizando – o que não era nem é (nunca foi, na verdade) absolutamente necessário, como explica Mário Filho em sua indignada crônica sobre a partida. A cobrança pegou o goleiro Roberto mal posicionado e a discussão sobre isso é curiosa, pois lembro que, muitas décadas depois, quando a seleção brasileira levou um gol em situação semelhante (não tenho certeza, mas acho que foi contra o Paraguai, no Maracanã), houve uma comoção nacional movida por absoluta ignorância daqueles que deveriam bem informar o torcedor: os jornalistas.

2 – O segundo fato que enfureceu os vascaínos foi a expulsão de Isaías por agressão a Renganeschi fora do lance. Lance semelhante, segundo Mário Filho, ao ocorrido 15 dias antes contra o Fluminense, quando o tricolor Norival foi expulso por agredir fora do lance o jogador Magalhães, do São Cristóvão. Nos dois casos, poucos puderam ver o que os árbitros viram – e obviamente não havia transmissão televisiva (a TV ainda era uma ficção para os brasileiros) para captar os lances. Se hoje há muita controvérsia em situações semelhantes, com 3.785 câmeras espalhadas pelo campo, imagine em 1943…

Bem, o Vasco ficou indignado e, com 3 x 0 contra, decidiu não voltar a campo para o segundo tempo da partida, fato muito criticado por Mário Filho em sua coluna, mas que seria de fazer Eurico Miranda assinar embaixo com grande orgulho pelo “feito”. Os tempos, porém, eram outros, e a diretoria do Vasco, entendendo que a decisão tomada não fora a melhor, decidiu doar a cota do clube referente à renda da partida a uma instituição de caridade.

vasco_abandona2

Reprodução O Globo

Provavelmente, outros casos existiram antes e depois desses que encontrei em minhas pesquisas. Digo “provavelmente” porque não topei com outros casos até o momento. Provavelmente envolvendo outros clubes, talvez até o Fluminense. Bem, se não protagonizou um “senta” ou uma fuga de campo, o Fluminense protagonizou em 18 de julho de 1976 um Fla x Flu conhecido como “Jogo do Cai-Cai”. Rodada final do segundo turno, o líder Botafogo jogava às 16h em Campos, contra o Goytacaz, e o Fla x Flu começaria às 17h, com ambos os clubes imediatamente atrás e torcendo por um tropeço alvinegro para, em caso de vitória, levar o turno.

rivelino_cai-cai

Reprodução O Globo

O Flu vencia por 1 x 0 quando o jogo foi para o intervalo e a ducha fria foi jogada sobre o Maracanã: o Botafogo vencera por 1 x 0 e Flamengo e Fluminense protagonizariam, dali por diante apenas um amistoso de luxo. Eu estava lá e foi algo extremamente brochante.

Daí que, na volta do intervalo, o Flamengo empatou e o jogo se arrastava, até faltarem 15 minutos para o fim. Foi quando o Fluminense teve três jogadores (Carlos Alberto Torres, Pintinho e Paulo Cesar Lima) estranhamente expulsos por ofensas morais pelo enérgico árbitro Aírton Vieira de Moraes (o popular “Sansão”) e, mais estranhamente ainda, Rubens Gálaxe e Rivelino (a foto de Rivelino saindo carregado de campo é algo tragicômico) “contundiram-se” logo depois, impossibilitando a sequência da partida – aparentemente fazendo um favor a ambos os times e dando ao torcedor que foi ao estádio ao menos a discutível honra de ter presenciado um fato inusitado que entrou para o folclore do futebol do Rio do Janeiro. Mas que foi absolutamente ridículo.

Como se vê, imputar ao Botafogo a pecha de “time do chororô” apenas revela de parcela significativa da imprensa ignorância histórica ou intenção de jogar uma cortina de fumaça sobre os erros que favoreceram o Flamengo naquelas decisões. E assim essa parcela significativa fica de bem com a enorme massa de torcedores rubro-negros. E vende mais, claro, pois isso é o que importa para nossa mídia – ou não?

*** *** ***

Licença Creative Commons
Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: