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POLÍTICA ► Para não dizer que não reparei na manipulação de números na disputa pelo poder

crowd-307354_1280Lembro muito os comícios finais da campanha presidencial de 1989.

No Rio de Janeiro, Lula fez um último comício em 13 de dezembro que apinhou de gente a Presidente Vargas, da Candelária a praticamente a Central do Brasil, espraiando-se até quase a Cidade Nova e ruas transversais.

Testemunho isso porque estava lá. Cheguei cedo (à tarde ainda, após deixar o Estúdio de VT da Faculdade da Cidade com toda a turma), saí do metrô na Uruguaiana e já estava difícil de andar adiante. Mais tarde tentei dar uma caminhada para trás para ver até onde ia a massa, mas desisti.

As imagens eram impressionantes para mim, que não estivera no comício das Diretas Já em 1984 e – já então acostumado às multidões de grandes jogos no Maracanã – não sou de me impressionar. Mas nada impressionava tanto assim a parcela da imprensa não lá muito comprometida com a verdade – ou bastante comprometida com interesses burgueses e conservadores de direita.

Medição de público em manifestações costuma seguir certa tendência: os organizadores dão uma inflada para cima, a PM joga lá para baixo e provavelmente um número médio, somado à observação de fotos e vídeos, ajude a dar uma noção mais exata de realidade.

A não ser que você o faça de forma extremamente meticulosa, com fotos e análise de pessoas por metro quadrado em diversos períodos de tempo, número certo mesmo você não terá.

Mas análise “extremamente meticulosa” é algo que parte da imprensa só faz quando interessa. E com imagens de trechos e horários que interessem. Como tentarei fazer ver mais adiante.

Após o fim daquele comício, meu grupo se dispersara por conta da multidão – não, óbvio que não existia celular à época para facilitar as coisas  e manter todos juntos.

Fiquei com um amigo e uma amiga e saímos dali para o saudoso Luna Bar, no Leblon, tradicional ponto de encontro da boêmia mais à esquerda – o bar, não o bairro.

E lá ficamos até o fim da madrugada, quando os primeiros jornais chegavam ás bancas insones. E estávamos lá para recebê-los.

crowdEnquanto os organizadores davam mais de 1 milhão de pessoas no comício (e assim o comício ficou conhecido), a PM estimava em módicas 120 mil. O Globo, com direito a desenho e medição técnica, cravava 240 mil. “Melhor” fez a Folha de São Paulo: “O comício de Lula reuniu 145 mil pessoas às 21h20 na Candelária, no Rio, cidade que tem 5.603.388 habitantes.”

Ressalte-se o requinte dos “5.603.388 habitantes”.

Mas tudo era preciso para desviar a atenção do fracasso do último comício de Collor em Minas Gerais, que não chegara a 20 mil pessoas.

Imagine o impacto de informações assim em uma era sem internet, em que a informação de massa ficava restrita a esses meios de comunicação.

Depois me perguntam por que “confio” nessas mídias. Mas enfim… Sigamos.

Já o Jornal do Brasil dava em sua primeira página: “(…) um comício que parou a cidade e cumpriu a promessa de repetir, no tamanho e na animação, a marca deixada na Candelária há cinco anos e oito meses pelo fenômeno das Diretas Já.” Os grifos em negrito são meus.

A História registra que o comício das Diretas Já reuniu 1 milhão de pessoas na Candelária.

Para O Globo, “um especialista em estudos antropométricos calculou 368 mil” no Diretas Já da Candelária, quando a própria PM estimou aquele público acima de 1 milhão e até a Folha se rendeu em manchete: “No Rio, mais de 1 milhão pelas diretas”. O JB deu 800 mil.

É mais ou menos como a história daqueles preços suspeitos: o produto custa em média no mercado X reais e de repente aparece em um site ao preço de 20% desse X. Aí tem, né?

Bem, apenas posto tais números para que fique registrado esse tipo de “distorção”, que essas maquininhas de calcular midiáticas são tão confiáveis quanto bumbum de bebê: você nunca sabe a hora que um pipi ou um cocozinho vai sair dali.

E por que isso agora? Porque tudo isso me veio à mente ao ver os absurdos números, mais inflados que saco de Papai Noel, nas recentes manifestações de direita nas ruas de capitais do país.

Em um desses dias, estava a passeio com a família e acabei andando por boa parte da cidade, subúrbios da Leopoldina, Zona Norte, Zona Oeste off-Barra da Tijuca. E nada vi que lembrasse que algo excepcional ocorria na cidade. A não ser mais um clássico do pobre campeonato carioca no Maracanã.

Mas de números dessas manifestações eu não falo. Fala melhor – e por isso o reproduzo – o texto que Rodrigo Vianna postou em seu espaço na internet (Escrevinhador) no dia 15 de março.

O link original do texto é este aqui.

***

Na guerra dos números, Kamel

 

fez a Globo mentir ao Brasil:

 

não cabe 1 milhão na Paulista!

 

março 15, 2015 20:00

 

 

por Rodrigo Vianna

O número de manifestantes na avenida paulista foi claramente inflado pela Globo.

Os repórteres eram instruídos a usar os dados da PM de Alckmin – o herói paulista da Cantareira.

Foi um show de vandalismo informativo: 280 mil! Meia hora depois, já eram 500 mil. E logo 1 milhão de pessoas.

“1 milhão, 1 milhão”, berravam os repórteres da Globo.

Antes que os petistas fujam para as montanhas (tem um pessoalzinho aí apavorado demais, rapaz), digo aqui:  1 milhão não cabe nem no apê de Ali Kamel em Ipanema. Não!

Sejamos racionais. A avenida Paulista tem 2.700 metros de extensão x 50 metros de largura (incluindo pistas, calçadas e canteiros) = 135 mil metros quadrados.

Calculemos 4 pessoas por metro quadrado. O total chegaria a 540 mil pessoas. Mas, pra isso, a avenida teria que estar cheia, de ponta a ponta. Do Paraíso à Consolação. As imagens mostravam claramente que não estava assim. E havia clarões. Na área em torno do MASP, a concentração era grande, diluindo-se (um pouco) depois.

Na sexta 13, a marcha dos sindicatos ocupou 3 quadras de forma compacta, mas em apenas uma das pistas. Hoje, foram 9 quadras relativamente compactas (da Brigadeiro até a Bela Cintra), mas nas duas pistas. Ou seja, 6 vezes mais.

Se no dia 13, havia 40 mil pessoas na Paulista, hoje havia (6 x 40) cerca de 240 mil. 300 mil estourando (contando as ruas laterais e região dos Jardins)…

O DataFolha, aliás, acaba de publicar sua medição científica: 210 mil pessoas na manifestação da paulista. Vejam que a PM falava em 1 milhão. Por que a Globo não fez contas? tem 50, 70 funcionários na retaguarda. Preferiu números da PM de Alckmin.

No Rio, as imagens mostravam claramente que não passavam de 5 mil na avenida Atlântica (a PM e a Globo falavam em 15 mil).

Em BH, foram 25 mil.

Em Brasília, cerca de 40 mil (a PM chegou a falar em muito mais).

Se somarmos todos os protestos da direita branquinha no Nordeste, não chegamos a 30 mil pessoas (numa população de 27 milhões).

Se somarmos Porto Alegre, Curitiba e todo o interior paulista, não teremos 70 mil nas ruas.

Então, calma!

A direita rugiu. Com ajuda inestimável da Globo. Mas menos de 500 mil brasileiros foram as ruas.

O que deu a impressão de assédio final e força? A Globo!!!

O dia 15 foi uma operação da direita quase fascista, com um empurrão da Globo – que tentou vender tudo como “manifestação das famílias contra Dilma e contra a corrupção”.

O inimigo é a Globo.

Sem meio-termo. Se o PT não enfrentar a Globo agora, pego minhas coisas e vou pra São Borja.

 

P.S.: meia hora depois de escrever esse texto, vi que DataFolha estimou em 210 mil o número de manifestantes na Paulista. A PM fala em 1 milhão. Estranhamente, na hora de dar números do Brasil, aí UOL usa os números da PM. O fato é que a Globo e a PM estão inflando. A direita foi pra rua, mas não vai falar sozinha.

 

*** *** ***

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