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VIDA ► 50 anos em 10 crônicas – 8: “Quem Seca o Próximo Vira Massa de Manobra”

50 anosMeu texto seguinte – crônica, conto ou o que seja que decidi liberar para entrada nesta lista – é do jornalista Sidney Garambone e trata de um assunto muito em voga no futebol: o ódio substituindo o amor.

O texto foi escrito após a vitória do Fluminense sobre a LDU na final da Libertadores de 2008 e a sequente derrota tricolor na disputa de pênaltis.

Lembro a sanha odiosa tomada em especial por torcedores do Flamengo – que aparentavam um estágio absolutamente apoplético – com a possibilidade do Fluminense conquistar a Taça Libertadores.

Não diria que todos, mas grande parte dos torcedores do Flamengo parece pôr qualquer camisa no corpo, envergar o manto de qualquer time que possa derrotar um rival, seja ele Fluminense, Vasco ou Botafogo. Pateticamente, esse tipo de torcedor cria, sem ter qualquer noção disso, imagens absolutamente degradantes para ele mesmo, como Fla-Madrid, Fla-Boca, Fla-LDU e que tais.

Lembro que no dia do jogo 1 da decisão de 2008 eu estava no trabalho, caminhando de um departamento a outro, pelos corredores da empresa, quando ouvi um grito realmente repleto de ódio: “Gol! P***! Fluminense F*** da P****! Vai se f***!”

Fiquei antes de tudo impressionado – e preocupado. O sujeito quase infartava com o primeiro gol da LDU e seus gritos ecoavam por toda a empresa. Foi algo tão surreal que durante anos mal se ouvia comemoração de gol pelos corredores, mesmo em jogos da seleção brasileira. Deve ter havido alguma rebordosa por conta da “emoção” exagerada.

Ali eu vi que ou o Fluminense incomodava demais esses flamenguistas ou há flamenguistas que são muito mais antirivais do que flamenguistas propriamente dito.

Não que isso haja de algum modo me surpreendido. A História mostra como esse tipo de torcedor do Flamengo troca de camisa de time de futebol como trocamos de roupa no dia a dia. Mas sempre me parece algo absolutamente fora da realidade, já que, para mim, de modo um tanto blasé, confesso, os demais clubes e o próprio futebol fazem apenas figuração na história do Fluminense. Tanto que apesar de ter muito interesse em uniformes de futebol, jamais pensei em qualquer forma de coleção, pois não me imagino vestindo a camisa de outro time que não seja o Fluminense. No máximo, a da seleção brasileira, mas mesmo assim com muita, mas muita parcimônia mesmo.

Claro que há torcedores de outros clubes que fazem o mesmo – não com tanta ênfase ou “competência”, talvez. Mas fazem. Torcedores de todos clubes. TODOS. O que acho, de todo modo, uma grande… Bem, melhor sobre situações assim escreveu Garambone no texto que reproduzo abaixo (as ilustrações são minhas, retiradas da internet, bastando clicar para ir às páginas originais).

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Quem Seca o Próximo Vira Massa de Manobra

 

Kit secador do Internacional na Libertadores 2012

Kit secador do Internacional na Libertadores 2013

Não vem ao caso por qual time tremula meu coração. Mas a final do Flu- Ldu deu-me uma certeza. Jamais secarei um time brasileiro num torneio internacional. E olha que já sequei muito. Porém, não gostei do que vi. Em vez da troça, a pequeneza. Em vez da gozação, a humilhação de vestir a camisa de um arrivista time equatoriano apenas pelo prazer de caçoar do vizinho tricolor. Em vez da democracia e da brincadeira, testemunhei a intolerância dos discursos rancorosos. Em vez do elogio aos espetáculos inesquecíveis no Maraca, ouvi mentiras e desdém. E me assustei.

Antes, porém, ponho minha hipocrisia para escanteio. É notório que rivalidades radicais inspiram este sentimento secular de secar o próximo. Quantas vezes os secados tricolores cantaram “silêncio na favela” para os rubro-negros? Ou “silêncio no canil” para botafoguenses? Ou tripudiaram da horrível derrota do Fla para o América do México?

Só que, a cada jogo desesperado vencido pelo Flu, alguns rancores se dissipavam, a emoção vencia e vários “rivais” abraçavam a causa carioca-brasileira. Fora do Rio, li textos de alguns são-paulinos derrotados enaltecendo o Onze das Laranjeiras. Guardei jornais argentinos rendendo-se à magia verde, branca e grená depois da derrota do Boca. Espécie de solidariedade na catarse. De uma hora para a outra, ser vanguarda era torcer pelo Flu.

Mas alguns optaram pelo velho hábito. E, sem perceber, propuseram a reflexão traduzida no parágrafo do jornalista não-tricolor Emanuel Castro, também com a alma ferida por tanta cegueira espiritual: “A felicidade dos amigos me fará uma pessoa melhor. Torcer pela felicidade do outro é resistir à desagradável competição como a conhecemos no mundo contemporâneo. Se eu não sou feliz, ninguém o será.”

Kite secador do Internacional na Libertadores 2012

Kite secador do Inter na Libertadores 2012

O futebol é a guerra sem mortos entre dois lados. A Eurocopa não deixou milhões de mortos como as Grandes Guerras e foi disputada, palmo a palmo, entre nações hostis dentro de um estádio. A derrota de um não significava a vitória do outro, mas um desafio: que se prepare, seja capaz de vencer a próxima e ouça as palmas do outro lado da cerca.

Na fatídica madrugada eterna de quarta-feira, vi botecos empilhados de rubro-negros, vascaínos e botafoguenses. Comemoravam. Como se tivessem parentes equatorianos. Nem lembravam que este mesmo Equador eliminou jovens promessas brasileiras, no Pan. Os secadores do planeta, ingênuos, não percebem ser massa de manobra dos que cultuam o ódio. Pena que o profeta Gentileza não exportou seu grafite mundo afora. Gentileza gera gentileza. E vice-versa.

Será que o futebol, como dizem os poetas, é mesmo um espetáculo? Onde está a beleza do ódio racial, do preconceito de classe, da homofobia e da xenofobia? A onda de cânticos sem palavrões, a princípio tratada com deboche, mostrou-se vitoriosa e colaborou na volta de muita gente aos estádios. Cabe aos torcedores, jogadores e imprensa proteger o futebol não só da violência de fato, mas da manipulação exercida pelos nossos próprios corações, onde o ódio é titular e o amor senta no banco.

Por isso, a maior das vinganças tricolores seria, num futuro próximo, torcer para Fla, Vasco e Botafogo durante uma hipotética Libertadores. Sem Flu-Bocas, LDFlu ou demais trocadilhos medíocres. E deixar nos secadores, hoje vitoriosos, caras de bobo eternas por terem sido tão infantis. “Eu tenho, você não tem. Eu tenho, você não tem.” Como aliás, os próprios tricolores já foram um dia. Bobos. Somos. Todos.”

(Sidney Garambone, O Globo, Domingo, 06/07/2008)

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