Início > Fluminense, Futebol > FUTEBOL ► Crônica de aniversário: “A Razão da Grandeza do Fluminense”, por Mário Filho

FUTEBOL ► Crônica de aniversário: “A Razão da Grandeza do Fluminense”, por Mário Filho

flu_113O meu Fluminense aniversariou esta semana. Cento e treze anos de História.

Não me prendo mais – nem sei se alguma vez me prendi de verdade – a sair escrevendo conforme as coisas acontecem, por necessidade, conveniência, urgência, factualidade… Tipo presentes impostos.

Sabe aquele negócio de Dia das Mães, Dia dos Namorados…? Você se sente obrigado e coagido a comprar um presente apenas pela data imposta. Mesmo que seja uma pessoa mais parecida comigo, que gosta de comprar lembranças para quem gosta na base do “vi isso e me lembrei de você”. Independentemente de data.

E também assim evito, no calor das emoções, descalibrar meu texto, escrever sem o equilíbrio devido – o que obviamente faço vez por outra.

Mas esta passagem de aniversário do Fluminense calhou de cair em uma semana na qual dei de cara com um ótimo texto do brilhante Mário Filho – me desculpando pela redundância de dizer “brilhante ” ao me referir ao inesquecível jornalista Mário Filho.

Então decidi reproduzir a coluna de Mário Filho publicada no Jornal dos Sports no já longínquo dia 21 de julho de 1947, por conta do quadragésimo quinto aniversário tricolor.

***

A Razão da Grandeza do Fluminense

 

mario_filhoUm dia eu disse que o Fluminense era grande por dentro.

Para se ter uma ideia da grandeza do Flamengo a gente tinha de ir para as ruas, andar de um lado para o outro, mesmo porque o Flamengo estava em uma porção de lugares, senão em toda parte.

Já com o Fluminense sucedia o contrário. Para se ter uma ideia da grandeza do Fluminense a gente de ficar em Álvaro Chaves. E ir entrando. O Fluminense está todo lá dentro. Não se pode ter uma ideia da grandeza do Fluminense se não se entrar em Álvaro Chaves. Se não ver o que está à mostra e o que está escondido.

O que está à mostra é a sede, o campo de football muito verde, as pistas de atletismo de carvão moído, as arquibancadas de cimento do estádio de vinte e dois, a bancada social do estádio de dezenove, as alamedas que levam aos courts de tennis, à piscina, ao ginásio.

O que está escondido é o arquivo. Para se chegar até lá é preciso atravessar os corredores da secretaria, da tesouraria, da contabilidade. Se não fossem os quadros de teams, as flâmulas, as colunas e as paredes cheias de coisas de clube, do Fluminense, o visitante se julgaria num banco. O arquivo guarda velhos livros de atas, os pesados álbuns de recortes de jornais, toda a bibliografia do Fluminense e dos outros clubes, a história do football carioca que o Fluminense começou.

Mas agora, mesmo sem abrir o cofre do arquivo, pode-se saber como era o Fluminense. Como ele foi crescendo. Basta dar um pulo até a sala de troféus. Lá está o Museu do Fluminense.

O FLUMINENSE DE TODAS AS ÉPOCAS

Vê-se a primeira bandeira do Fluminense, a primeira camisa, cinzenta e branca, quase não se distingue o cinza do branco. Nenhum outro clube se lembrou de guardar essas coisas. De colecionar como relíquias o que aparentemente só tinha um valor momentâneo. Para o Fluminense, tudo aquilo era a tradição que ele estava formando. O amor pelo passado, que nasceu, por assim dizer, com o Fluminense, fez com que o Fluminense, embora pareça estranho, amasse melhor o presente. O presente seria logo o passado, reunindo-se à tradição do Fluminense. O presente e também o futuro. Por isso o Fluminense se preparou tão bem para o futuro, oferecendo um modelo de organização a todos os outros clubes. O esporte tinha as suas regras, os seus mandamentos, que seriam as regras, os mandamentos do Fluminense. O clube mais ligado à tradição seria o clube mais ligado às regras, aos mandamentos do esporte. Naturalmente tudo isso tinha de nascer com o Fluminense. Tinha de ser levado para o Fluminense pelos homens que o fundaram, que o fizeram assim.

UM MODELO PARA TODOS OS CLUBES

Quem fundou o Fluminense foi Oscar Cox. Oscar Cox reuniu em torno da ideia do Fluminense homens como ele. Alguns mais velhos, mas que tinham a sua concepção de clube. Quem se der ao trabalho de folhear velhos álbuns de fotografias de teams, há de compreender melhor o Fluminense.

O team do Fluminense dos primeiros anos era todo ele de homens feitos, balzaquianos. Já o Botafogo, por exemplo, nasceu menino. Os meninos do Botafogo, rapazes que mal estreavam o buço, sentiam-se garotos de calças curtas ao lado dos homens do Fluminense, chefes de firmas importantes, altos empregados do comércio, que não dependiam de mesada para viver. O Fluminense se impunha respeito, o Botafogo queria fazer-se respeitável, mais homem, enfim. Tanto que o Botafogo não descansou enquanto não arranjou um homem feito para seu presidente.

O que não faltava no Fluminense era homem feito, já com responsabilidade na vida. Assim não admira esse gosto, que nasceu com o Fluminense, pelas coisas em seu lugar, pelo método, pela organização. Foi o primeiro clube a ter técnicos, a ter massagistas. A ter uma verdadeira sede, um verdadeiro estádio. Há quase trinta anos Arnaldo Guinle, que completaria a obra de Oscar Cox, trazia da Europa para o Fluminense Mr. Fred Brown. Mr. Fred Brown, que deu ao Fluminense a organização que serviria de modelo para a AMEA, para a Liga Carioca e para o próprio Fluminense de hoje, serve para mostrar a influência que o clube de Oscar Cox, de Arnaldo Guinle, de Affonso de Castro e de Mario Pollo – para citar as figuras que podem simbolizar o Fluminense – exerceu no esporte brasileiro.

A data de aniversário do Fluminense serve para que se saliente essa influência que não diminuiu com o tempo, que, pelo contrário, o tempo só faz aumentar.

(Mário Filho, Jornal dos Sports, 21 de julho de 1947)

*** *** ***

Licença Creative Commons
Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

 

Anúncios
  1. Nenhum comentário ainda.
  1. No trackbacks yet.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: