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FUTEBOL ► “Xerém faz, diretoria vende”: considerações sobre uma faixa

12 out

protestoAo longo dos meus 50 anos, mais de 45 de arquibancada, já vi praticamente de tudo em relação ao que envolve o nosso futebol e em especial, claro, ao Fluminense. Daí teço abaixo algumas observações meio soltas particularmente baseadas em uma faixa – “Xerém faz, diretoria vende”, para mim reveladora – estendida por alguns torcedores do Fluminense há alguns dias. E escrevo do ponto de vista do torcedor comum, que não participa da política interna do clube, que do clube nada quer e que tem um amor incondicional, independente de resultados. O tipo de torcedor realmente está ao lado do clube na vitória e na derrota e que tem uma boa ideia de como se comportam as torcidas organizadas de um clube grande. 

Antes, porém, deixo claro que não sou contra manifestações AUTÊNTICAS e ESPONTÂNEAS por parte de torcedores de futebol como eu, inclusive. Mas é preciso saber separar o joio do trigo. Para o torcedor de arquibancada, na maioria das vezes, é fácil perceber o que é espontâneo e o que é orquestrado. Uma identificação que a mídia tem dificuldades de fazer ou prefere ignorar, já que comumente enfia tudo no mesmo saco e chama de torcedores qualquer grupo reunido em torno de uma ou duas faixas, seja lá com quais interesses e mesmo que claramente não reflitam a opinião da grande maioria de torcedores daquela agremiação.

1 – A faixa dizia: “Xerém faz, a diretoria vende”. E digo eu: graças aos deuses do futebol, Xerém faz e a diretoria vende. Ainda bem! De que afinal vai sobreviver um clube como o Fluminense no futebol profissional que finalmente começa a se instalar a sério no Brasil senão da comercialização de sua produção? Da presença de uma torcida que comparece ao Maracanã ao sabor dos resultados? Da ação de um mecenas, do mesmo modo que uma prostituta sofre nas mãos de um cafetão?

2 – Os clubes profissionais dependem basicamente de cota de televisão (a do Fluminense, por exemplo, é praticamente um terço das cotas de Flamengo e Corinthians e inferior às de Palmeiras, São Paulo, Vasco…), bilheteria (como se sabe, a torcida do Fluminense comparece apenas se o time estiver bem – salvo exceções realmente excepcionais), cotas de patrocínio (e aí o apelo do clube vai do tamanho e da capacidade de consumo da torcida – e a nossa só bate as de Botafogo e Santos entre os chamados grandes) e de programas de sócio-torcedor (também aí, apesar de fiéis e estabilizados números, estamos bem abaixo dos principais adversários do país). Então como não vender sua produção da base?

3 – Quantos clubes do país gostariam de ter a oportunidade de fazer caixa como o Fluminense faz com suas crias formadas no Centro de Treinamento Vale das Laranjeiras, em Xerém? TODOS os que não dispõem dessa fonte de receita.

4 – Quantos clubes no Brasil poderiam recusar as propostas oferecidas por Gerson e Kenedy, apenas para ficarmos neste ano? NENHUM, absolutamente nenhum. Todos ergueriam as mãos aos céus se pudessem estar na mesma situação.

5 – A faixa demonstra uma de duas coisas – ou ambas: ignorância sobre a realidade do futebol ou alguma motivação política. Até porque Xerém faz e a diretoria vende há 15 anos e nesse tempo faixa assim jamais foi vista em canto algum.

6 – E aí não podemos esquecer que quando torcedores assumiram o comando do clube o Fluminense foi parar na terceira divisão. Eu mesmo apoiei tal movimento por boa parte daqueles dias – mas aprendi.

7 – É pública e notória a suspeita de influência do diretor da antiga patrocinadora junto às torcidas organizadas do clube – mesmo após sua saída do futebol tricolor. O tal diretor, Celso Barros, que tinha bandeira própria nessas torcidas e levou sua empresa praticamente à bancarrota ao trocar os pés pelas mãos em uma série de investimentos aparentemente ególatras, já deixou claro suas intenções quanto à sucessão presidencial do clube. E a ele unem-se outros ex-diretores em sucessivas críticas à administração atual. Tudo em nome do poder.

8 – Mais uma vez, vale a lembrança de que durante todos os anos em que o Fluminense dependeu da Unimed a patrocinadora JAMAIS se interessou em segurar qualquer jovem revelação da base tricolor. A lista de exemplos é extensa: Carlos Alberto, Marcelo, os irmãos Rafael e Fábio, Alan, Maicon, Fabinho…

9 – Aliás, a antiga patrocinadora sempre deixou claro – inclusive por suas ações – que não investiria dinheiro algum em Xerém.

10 – E durante os anos Unimed, com todo seu investimento em medalhões de retorno garantido em mídia, mas não em resultados, o Fluminense flertou várias vezes com o rebaixamento: 2003, 2006, 2008, 2009… Até cair na bola em 2013. Fora o clima tenso instaurado ao longo do segundo semestre de 2014 e a ação nitidamente sabotadora no repentino rompimento unilateral, com fins que englobam interesses absolutamente políticos, no início deste ano.

10 – O futebol profissional de hoje não comporta dirigentes mecenas que agem como cafetões de clubes, ao estilo Eurico Miranda e Celso Barros. Muito menos comporta a ação de grupos organizados que pouco ou nada representam junto à massa total de torcedores e que se destacam nas últimas décadas apenas por agir como instrumento de manobra na política interna dos grandes clubes brasileiros e pela sucessão de atos de violência diversos.

11 – Esses grupos, inclusive, se caracterizaram nessas décadas passadas por amarem e torcerem por seus clubes tanto quantos fossem os benefícios recebidos. Ingressos, transportes, facilidades… Uma verdadeira indústria paralela a combalir as já combalidas finanças do futebol brasileiro. Como em quase todos os grandes tais grupos têm tido esses benefícios cortados, eles tendem a desaparecer. Até lá, não perdem qualquer oportunidade de fazer barulho, seja lá movido a quê. Uma vergonha para os clubes e seus verdadeiros torcedores. Mas a era do torcedor profissional, que vive às custas de um clube de futebol, caminha inexoravelmente apara o fim.

12 – A citada violência embutida na ação desses grupos, inclusive, talvez seja o que corroborou definitivamente para dar a eles representatividade cada vez menor em relação aos torcedores em geral, o chamado “povão”. O torcedor em geral, o torcedor de verdade, o povão, abomina essa violência. O torcedor de verdade não é bandido. E com as famílias presentes em número ano a ano maior nos estádios, esse torcedor quer o fim dessa violência organizada. O torcedor do bem não se vê representado por esses grupos – quase sempre pequenos em relação ao todo e restrito às chamadas torcidas organizadas.

13 – Não há milagre no novo futebol profissional que se avizinha. Sem organização, sem planejamento, sem responsabilidades orçamentária e fiscal, não há como os clubes sobreviverem, principalmente os que não têm uma massa absurda de torcedores. A era dos aventureiros ególatras chegou ao fim.

14 – O futebol profissional é para profissionais. Não pode mais ser gerido por paixão de torcedor. Muito menos estar sujeito a ações de grupos que não representam a massa total e que vão a estádios gritar seu amor mais a eles próprios que aos clubes pelos quais dizem torcer. E que atuam como munição a serviço de uma fratricida política interna que vive da vaidade desmedida de alguns e que ameaça o futuro de todos. O Fluminense já sentiu na pele o que é ter torcedores ditos apaixonados, mas absolutamente despreparados, no comando. A queda para a terceira divisão é prova disso.

Sintetizando minha opinião, nenhuma diretoria é tão ruim que grupos como os que aparentam estar por trás de faixas como a que motivou o post (e que podem ser encontradas com variações afins em todos os grandes clubes do Brasil, basta uma rápida pesquisa nas imagens do Google), uma faixa sem qualquer lógica dentro da atual realidade do futebol, na qual um clube deve andar pelas próprias pernas, não possam superar. Uma faixa que para mim, como torcedor povão, mostra claramente que no nosso lado da arquibancada há gente definitivamente torcendo contra o Fluminense por interesses diversos – nenhum deles relacionado ao bem do clube. Tanto que vaiam e protestam contra torcedores que tentam incentivar o time durante os 90 minutos de partida. E você pode ver esse absurdo acontecendo em torcidas de todos os cantos do país. Provavelmente no lado de sua torcida também.

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Licença Creative Commons
Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

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Publicado por em 12 de outubro de 2015 em Fluminense, Futebol

 

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