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BRASIL ► A História já viu isso antes – II

17 mar

elite_brancaA foto que circula pela internet de um casal branco levando uma babá negra para acompanhar seus bebês durante uma manifestação da elite branca brasileira (as pesquisas dizem que esse é o perfil dos manifestantes) contra o governo Dilma, no Rio de Janeiro, provocou muita controvérsia na grande rede mundial de computadores, smartphones e afins.

Qualquer pessoa que me conheça sabe o meu lado político. Mas vou tentar me abster de comentar, respeitando o direito do casal de manifestar-se, mesmo considerando tudo o que está envolvido por trás desse movimento que eu reputo claramente golpista.

Eles (o casal) apresentam seus argumentos e quem os critica também.

Prefiro supor que seja um casal idôneo pensando apenas em criticar o que considera errado, dentro de seu direito de expressão. Estando certo ou não.

familia_escravos_brasil_1822Apenas considero, dentro do contexto histórico social do país e do momento em que vivemos, levar a babá, negra e uniformizada, algo desnecessário e que justamente daria margem a críticas como as que têm ocorrido. Não creio que eles tenham avaliado isso. Mas, fria e sinteticamente, a foto mostra uma família pertencente à elite financeira brasileira, branca, que possui um contrato de trabalho com uma babá negra (devidamente assalariada e com todos seus direitos trabalhistas respeitados, ressalte-se), o que não seria nada demais, não fosse o fato de – inclusive pelo mencionado contexto acima – remeter, assim logo à primeira vista, a tristes tempos ainda muito bem vívidos na memória nacional.

Creio que em um contexto ainda mais diverso, em outro momento, o próprio casal haveria de reconhecer essa má impressão inicial.

***

Para representar os dois lados da questão, reproduzo primeiro a resposta publicada pelo casal da foto em seu Facebook e que, assim como a foto, também corre por toda a internet.

“Sí Pasarán!”

 

Ganho meu dinheiro honestamente, meus bens estão em meu nome, não recebi presentes de construtoras, pago impostos (não, propinas), emprego centenas de pessoas no meu trabalho e na minha casa mais 04 funcionários. Todos recebem em dia. Todos têm carteira assinada e para todos eu pago seus direitos sociais.

Não faço mais do que a minha obrigação! Se todos fizessem o mesmo, nosso país poderia estar em uma situação diferente

A babá da foto, só trabalha aos finais de semana e recebe a mais por isto. Na manifestação ela está usando sua roupa de trabalho e com dignidade ganhando seu dinheiro.

A profissão dela é regulamentada. Trata-se de uma ótima funcionária de quem, a propósito, gostamos muito.

Ela é, no entanto, livre para pedir demissão se achar que prefere outra ocupação ou empregador. Não a trato como vítima, nem como se fosse da minha família. Trato-a com o respeito e ofereço a dignidade que qualquer trabalhador faz jus.

Sinto-me feliz em gerar empregos em um país que, graças a incapacidade de seus governantes, sua classe política e de toda uma cultura baseada na corrupção vive uma de suas piores crises econômicas do século.

Triste, só me sinto quando percebo a limitação da minha privacidade em detrimento de um pensamento mesquinho, limitado, parcial cujo único objetivo é servir de factoide diversionista da fática e intolerável situação que vivemos.

Para estas pessoas que julgam outras que sequer conhecem com base em um fotografia distante, entrego apenas a minha esperança que um novo país, traga uma nova visão para a nossa gente. Uma visão sem preconceitos, sem extremismos e unitária.

O ódio? A revolta? Estas, deixo para eles.

Cláudio Pracownik e Carolina Maia Pracownik

***

E agora reproduzo o texto publicado por um doutorando em Linguística no site Carta Maior (link original aqui).

Carta ao banqueiro que levou a babá ao protesto

 

Muito provavelmente você não se acha culpado por esse processo histórico, mas até hoje você recebe o privilégio por nossas desgraças.

Prezado Cláudio Pracownik, li com bastante curiosidade a sua resposta às críticas feitas através das redes sociais da presença da babá de seus filhos ao seu lado e de sua esposa na manifestação de hoje (13/03), cujo principal tema não é o combate à corrupção, mas o impedimento da Presidenta Dilma e a criminalização, mesmo sem provas, do ex-presidente Lula.
 
Li com curiosidade porque, na verdade, eu queria saber o que um legítimo filho da elite escravocrata tinha a dizer sobre o episódio. A arte de piorar o ruim pareceu ser um dos seus talentos. Explico as razões. Em primeiro lugar porque você não entendeu nada, Cláudio. Nada. E as suas palavras de bom empregador e aquele que supostamente presta um grande serviço ao país são prova cabal disso.
 
As críticas a você e sua esposa são críticas a toda a elite escravocrata brasileira. Sou filho de empregada doméstica, trabalhadora rural, minhas irmãs já foram empregadas e babás. As críticas a você e sua esposa são as críticas a um país escravocrata cuja história sempre produziu bastante fetichismo dos trabalhadores mais pobres, de modo que não basta terem escravizado negros e dizimado índios durante séculos, é preciso se desresponsabilizar das coisas básicas da vida doméstica e usar o trabalhador como símbolo de inferioridade numa sociedade de classes e apresentá-los como prêmio de uma suposta vida meritocrática. Sim, Cláudio, o repertório de vocês não passa de uma justificativa escravocrata de se dizerem merecedores da atitude de poder explorar um trabalhador mais pobre para coisas que vocês próprios podiam fazer. Prezado Cláudio, você faz parte de uma elite escravocrata herdeira das capitanias hereditárias. Os seus ancestrais receberam terras que foram passadas de pai para filho, trouxeram negros durante séculos do continente africano para serem escravizados no Brasil por quase 4 séculos e dizimaram milhares de comunidades tradicionais. Muito provavelmente você não se acha culpado por esse processo histórico, mas até hoje você recebe o privilégio por nossas desgraças. Você é culpado, como agente do sistema econômico, social e político, por cada uma das crianças de rua abandonadas de norte a sul do Brasil. E por mais que não se ache culpado, tudo que sua família lhe deixou por herança é produto da exploração dos mais pobres, dos negros e dos índios.
 
Além de ser herdeiro da Casa Grande, prezado Cláudio, você é banqueiro. Em nosso país você serve e tem servido como agente de desestabilização econômica e, em meio à crise que passamos, o seu setor é o que não tem o que reclamar. O exemplo disso é que os bancos privados lucraram, neste momento difícil que passamos, como nunca. Não se iluda, Cláudio, você não presta um grande serviço para o país. Ao contrário, por ser resultado desse processo histórico e herdeiro da Casa Grande, você e os seus devem muito mais ao nosso país do que empregar 4 trabalhadores em sua casa. Os direitos trabalhistas reservados a esses trabalhadores foram aprovados com forte oposição da sua classe social e lobistas representantes do seu extrato socioeconômico dia após dia fazem campanha e compra de votos para que a legislação trabalhista seja flexibilizada, o trabalho escravo ressignificado, permitindo menos punição aos latifundiários escravocratas, também herdeiros como você, a idade penal e a idade de trabalho reduzidas, levando ao crescimento da exploração do trabalho infantil e à criminalização da juventude.  

Ter levado sua babá para uma manifestação tem um peso simbólico, querido Cláudio. Primeiro porque demonstra quem está querendo o impeachment da Presidenta Dilma. Tendo sido ex-presidente da Brasif, empresa acusada de intermediar envio de dinheiro para amante do ex-presidente FHC no exterior, você sabe como nunca que não está se manifestando contra a corrupção. Você está se manifestando por não aceitar que os pobres melhorem de vida, que as trabalhadoras domésticas tenham direitos historicamente negados, que os negros adentrem os muros das universidades e que os trabalhadores pobres brasileiros de fato tenham o voto de minerva nas decisões políticas, podendo eleger presidentes da República mais próximos do seu projeto. Admita, Cláudio, você não estava marchando contra a corrupção. Até porque você deve saber tanto quanto eu que a corrupção não emana da esfera pública, mas da privada. Deve saber ainda, e, se não sabe, deveria saber, que sempre houve muita corrupção no Brasil e os seus antepassados assistiram nas últimas décadas, até a redemocratização, militares jogando debaixo do tapete todo tipo de malfeito. Vocês se calaram diante da privataria tucana, do mensalão tucano e do Banestado. Essa indignação toda é muito seletiva e simplesmente por um incômodo ideológico. Vocês nunca protestaram contra essa corrupção apenas por um motivo: aqueles governos só olhavam para o umbigo de vocês. Admita, caro Cláudio, você faz parte de uma elite que, ao só pensar no próprio umbigo, é fascista e colonizada e presta grande serviço de papagaio dos Estados Unidos e da Europa. Diante desses fatos todos, eu só tenho a lamentar pela exposição de uma trabalhadora a fim de expor o poderio e o lugar comum de partida de vocês, escravocratas. A esse tipo de atitude vamos sempre resistir. 

Gabriel Nascimento, doutorando em Letras na USP, mestre em Linguística Aplicada pela UnB

A única observação que faço é em relação ao hábito cultural de uniformizar babás durante passeios. Mas isso eu tentarei registrar em outro post.

E outra: esse patrulhamento sobre o que as postam postam suas em redes sociais é algo muito chato. Claro, se for algo que indique um crime, por exemplo, é necessário intervir. Mas as pessoas estão se achando no direito de se meter simplesmente em tudo que é publicado por qualquer pessoa. Perdeu-se totalmente a noção de limites. Aí, como certas situações viralizam, até eu acabo comentando algo sobre a qual não sei se realmente tenho o direito de fazê-lo. Enfim, se um dia tiver tempo também pretendo postar sobre isso mais detalhadamente.

*** *** ***

Licença Creative Commons
Este trabalho foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial 3.0 Não Adaptada.

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1 comentário

Publicado por em 17 de março de 2016 em Brasil, Política

 

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Uma resposta para “BRASIL ► A História já viu isso antes – II

  1. daniel

    17 de março de 2016 at 19:04

    No Rio de Janeiro já há até lei de 2014 que trata o tema em relação à exigência de clubes para que babás somente adentrassem as dependências vestidas de branco. Tornou-se proibida essa exigência dos clubes.

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