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FUTEBOL ► A Chapecoense e eu: modesta homenagem de um tricolor

29 nov

Quarta-feira, 23 de novembro de 2016. Atlético Mineiro e Grêmio jogavam a primeira partida da final da Copa do Brasil no Mineirão. Onde trabalho à noite, todas as estações de edição estavam com seus monitores de televisão sintonizados no clássico.

A TV na minha estação, não. Enquanto trabalhava, eu, torcedor do Fluminense desde antes de nascer, ficava de olho na telinha que mostrava o duelo entre a Chapecoense e o San Lorenzo argentino, segunda partida da semifinal da Copa Sul-Americana.

Coração na mão como se ao lado do verde e branco um grená houvesse.

E quase saltei da cadeira quando o goleiro Danilo garantiu a vaga na grande decisão ao defender com o pé um chute da pequena área no lance final da partida. Um feito inédito e merecido para um clube de uma pequena cidade que trabalha com extrema organização e competência para se manter na principal competição do futebol brasileiro.

Um resultado que me deixou particularmente contente, diria até que infantil ou ingenuamente contente, pois tenho com a Chapecoense uma ligação afetiva que vem dos tempos de criança.

Porque quando criança eu gostava muito de ler (ainda gosto, claro). E lia de tudo. Obviamente, mais ainda de futebol. Evidentemente que vivíamos um outro mundo, sem as maravilhas da comunicação praticamente instantânea e extremamente audiovisual de hoje.

O futebol ainda vivia suas glórias basicamente através das rádios e das manchetes de jornais. Gols na TV apenas dos grandes centros. E olhe lá…

Mas eu imaginava gols de todo o mundo através do Tabelão da revista Placar, seção que publicava resultados de jogos de campeonatos de todos os cantos do Brasil e dos principais centros do exterior.

E aí eu ia nutrindo simpatia por… nomes! Nomes que chamavam a minha atenção por um motivo ou outro. Achava eu que – Fluminense à parte –poderia simpatizar por um time na Grécia, se fosse o caso, apenas para viver uma espécie de emoção ao ler os resultados do campeonato grego, torcer para alguém enquanto imaginava os gols da rodada daquele campeonato. Coisas de criança…

Assim, na Inglaterra eu gostava do Arsenal, até porque era o único time cujo nome eu conseguia ler… Pelo mesmo motivo eu gostava do Ajax na Holanda, embora não soubesse a pronúncia correta e lesse como se fosse um nome em português.

No Brasil isso não valia para grandes centros ou grandes clubes, claro, rivais do meu Fluminense.

Eu gostava do Pinheiros, por exemplo, que logo soube que antes se chamava Água Verde – e aí simpatizei mais.

No Ceará me frustrava a cada semana com o Calouros do Ar.

Fora os Fluminenses espalhados pelo país…

“Torcia” feverosamente pelo Hercílio Luz, em Santa Catarina, um time que estupidamente eu nem sabia que ainda estava na ativa.

E aí apareceu um time de nome Chapecoense. Não sei se foi o final “ense” ou o fato de ser um clube novo, mas logo tornou-se alvo de minhas expectativas semanais ao ler os resultados do campeonato catarinense no Tabelão.

Aos poucos, times como os saudosos Hercílio Luz e Calouros do Ar, por exemplo, foram ficando apenas na simpatia, fui deixando de acompanhar seus resultados, até porque cada vez mais longe estavam do principal torneio de seus estados – até porque os times que eu escolhia, como se vê, não eram pródigos em vitórias.

Mas a Chapecoense não, estava sempre a brigar e aos poucos incomodar os grandes do estado.

Um dia, 8 de fevereiro de 1976, a Chapecoense fez um amistoso com meu Fluminense, a Máquina de 1976, mas sem Rivelino. O jogo foi no estádio Índio Condá (lindo nome), que hoje chamam de arena, e terminou empatado: 2 x 2.

O Fluminense jogou com Renato; Rodrigues Neto, Carlos Alberto Torres, Edinho e Carlinhos; Carlos Alberto Pintinho, Cléber e Erivelto; Cafuringa (Rubens Galaxie), Gil e Luís Alberto. E levou o imortal Didi como treinador. A Chapecoense foi de Pompéia; Di, Almeida, Silva (Paulinho) e Valmir; Rui, Carlos (Marcos) e Sérgio Galocha; Jairzinho (Gere), Volmir e Ivan. Os gols: 1ºT: Luís Alberto (20); 2ºT: Sérgio Galocha (10); Cleber (26); Sérgio Galocha (35).

Achei muito legal e nem me importei com o Flu não ter vencido. Afinal, além de ser apenas a Chapecoense, era apenas um amistoso

Quase 40 anos depois, eis que finalmente a Chapecoense galgou seu lugar na divisão nobre do futebol brasileiro e passou a enfrentar o meu Fluminense em jogos “pra valer”. E tornou-se um tormento para meu coração tricolor.

Em três campeonatos nacionais, foram seis jogos, com quatro vitórias catarinense e dois empates, com direito a um acachapante 4 x 1 em pleno Maracanã.

Fosse outro time qualquer eu poderia, talvez, digamos, nutrir profunda antipatia (jamais falaria em ódio, não vejo futebol a esse ponto) por atrapalhar tanto o meu Fluminense. Um verdadeiro pé no saco…

Mas com a Chapecoense… Acho que no fundo talvez sinta um certo conforto pelo fato da Chapecoense lembrar minha infância, por ter visto crescer um time que apenas existia na minha imaginação e que acompanhei se tornar realidade 4D durantes as décadas seguintes.

Naquela quarta-feira de novembro de 2016 talvez eu estivesse dando vazão à criança que ainda existe em mim e torcido “ao vivo” pela Chapecoense como eu torcia lendo os resultados do Campeonato Catarinense a cada terça-feira.

E em minha imaginação já de meia-idade, na telinha eu na verdade corria os olhos como se o fizesse pelas páginas de uma revista, procurando um Tabelão, até encontrar:

23/11, Copa Sul-Americana, semifinal, segundo jogo: Chapecoense 0 x 0 San Lorenzo. Chapecoense finalista.

Tristemente, uma história sem fim.

*** *** ***

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1 comentário

Publicado por em 29 de novembro de 2016 em Esporte, Futebol

 

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Uma resposta para “FUTEBOL ► A Chapecoense e eu: modesta homenagem de um tricolor

  1. Wellington Lopes

    29 de novembro de 2016 at 12:46

    Muito bacana. Parabéns! Estou incrédulo!

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