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RIO DE JANEIRO: Ah, mas se Rayanne fosse branquinha, lourinha, patricinha, de olhos claros e riquinha da Zona Sul carioca…

26 dez

Rayanne Christini em reprodução do Facebook (O Dia)

Até o Papa seria chamado a intervir.

O Fantástico já teria passado os últimos domingos em pânico e o lixo chamado Veja já teria feito nova capa derramando sangue.

Mas Rayanne Christini era negra, pobre e morava na Baixada Fluminense. Tinha 22 anos e estava grávida de sete meses. Então seu sequestro em plena Central do Brasil não mereceu destaque na capa dos portais de notícias dos maiores grupos de comunicação do país – aqueles mesmos que comandam mais um golpe de estado no Brasil.

Não mereceu destaque porque Rayanne não era branquinha, lourinha, patricinha, de olhos claros nem foi sequestrada em Ipanema.

Foram mortos ela e seu bebê.

Com requintes de crueldade.

A notícia que você não viu na capa do Globo.com nem no UOL pode ser acompanhada pelo link a seguir do portal do jornal O Dia, que denunciou o caso desde seu início e solicitou informações ao pé de cada texto publicado:

Grávida desaparecida na Central do Brasil é encontrada morta

Não é a primeira vez que isso acontece. Nem a segunda. Nem a trigésima-quarta. Ou a centésima. Isso é padrão do “grande” jornalismo patronal brasileiro. A História registra isso. Basta pesquisar. A violência no Rio de Janeiro só começou a chocar a chamada grande mídia quando bateu às portas de quem tem grana, de quem tem “nome”.

Até então, era um fato mais fácil de ser visto em esquete de programa humorístico do que no Jornal Nacional.

Por isso insisto em repetir algo que sempre digo: para essa gente, matar um médico branco, de posse, na Lagoa Rodrigo de Freitas, cartão postal da Zona Sul carioca, não pode.

Matar pobre, matar peão, trabalhador, negro e da Baixada então, tá liberado.

“Ah, não divulgaram para não atrapalhar as investigações.” Fala sério, a pessoa que me aparece com um argumento desses só pode ser ingênua (aceitável, claro) ou cretina mesmo. Porque o braço local do Grupo Globo na rede, o site do jornal Extra, acompanhou o drama diariamente. E não fosse a cobertura intensiva de O Dia a partir do momento em que denunciou o sumiço da jovem talvez as investigações não andassem.

Rayanne Christini não foi assunto nos portais brancos e elitistas (no péssimo sentido da palavra) porque para esses mal disfarçados racistas e eugenistas o assassinato de um médico branco na Lagoa é um verdadeiro Deus nos acuda, o fim do mundo, a chegada do apocalipse. Não pode!

Mas tirar a vida de uma jovem negra de 22 anos e grávida da Baixada Fluminense pode. Pobre ser assassinado sempre pode. Pobre ser violentado pode. Trabalhador ser oprimido pode. Sempre. Diariamente. Quem se importa? Eles querem é mais. Querem mesmo.

E são representados governamentalmente pelos golpistas que assumiram o poder no país e agem para massacrar a já difícil condição de vida dos menos favorecidos e diminuir ainda mais suas possibilidades de ascensão social.

Isso é um lento, mas gradativo, processo de eugenia social.

Tudo em nome do poder.

Assim esses crápulas perpetuam seus privilégios e os de sua descendência.

Maquiavel explica. Hitler bate palmas do túmulo.

*** *** ***

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1 comentário

Publicado por em 26 de dezembro de 2016 em Imprensa, Rio de Janeiro

 

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Uma resposta para “RIO DE JANEIRO: Ah, mas se Rayanne fosse branquinha, lourinha, patricinha, de olhos claros e riquinha da Zona Sul carioca…

  1. Wellington Lopes

    26 de dezembro de 2016 at 18:22

    Ainda vou fazer um catálogo com seus artigos e publicar um livro. PARABÉNS COM LOUVOR!

    Curtir

     

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