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RELIGIÃO ► “Fora da justiça social não há salvação”: o paradoxo espírita

Hoje peço licença ao autor, Franklin Félix, para reproduzir o oportuno e ponderado artigo “Fora da justiça social não há salvação”, publicado dia 23 passado, em sua coluna Diálogos da Fé, no site da revista Carta Capital.

Franklin é um dos idealizadores do Movimento de Espíritas pelos Direitos Humanos e aborda um assunto bastante pertinente ao meio espírita em geral, particularmente em terra brasileira, algo que entendo como um paradoxo entre crer e ser.

Não que outras religiões sejam perfeitas ou não vivam com suas próprias idiossincrasias, mas não são religiões às quais me dedico.

O espírita (ou o espiritismo) estuda a palavra de Jesus, acredita nela (ao menos diz acreditar…), mas não é raro vê-lo agir – seja em movimento grupal ou individualmente – de forma quase que diametralmente oposta.

Seguem as palavras do autor. O link direto para a publicação original é este aqui.

FORA DA JUSTIÇA SOCIAL NÃO HÁ SALVAÇÃO

por Franklin Félix — publicado 23/07/2018 18h00, última modificação 23/07/2018 18h29

Allan Kardec, educador visionário e dono de uma visão progressista de justiça social, certamente atualizaria seu lema

Uma das principais características do espiritismo, além da sua comunicabilidade com o mundo espiritual, da crença na pluralidade das existências e da universalidade dos ensinos dos espíritos, é o lema “fora da caridade não há salvação”.

Este é o título do capítulo XV de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Por ser uma doutrina cristã, com bases filosóficas e científicas, vê no altruísmo e na reforma íntima uma maneira de ascensão espiritual.

A doutrina espírita, popularmente conhecida por espiritismo, kardecismo ou espiritismo kardecista, foi “codificada” – tomando corpo de doutrina – pelo pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail, sob o pseudônimo Allan Kardec.

Ela nasce na França do século XIX, genuinamente ecumênica, visto que admitia muçulmanos, judeus, católicos, protestantes e ateus em seus cultos. Chegou ao Brasil por volta de 1860, com os primeiros exemplares de “O Livro dos Espíritos”. Teve, por meio da atuação de Bezerra de Menezes e Chico Xavier, a oportunidade de se popularizar pelo País.

Hoje o Brasil é quem mais reúne espíritas em todo o mundo e, segundo o censo de 2010 do IBGE, são cerca de quatro milhões de adeptos. Ainda segundo o IBGE, o espiritismo é uma das religiões que mais cresce, sendo considerada uma doutrina branca, escolarizada, cisgênera e heterossexual.

Muito em virtude das características acima referidas, o movimento espírita brasileiro tem protagonizado um dos maiores retrocessos de sua história, aliando-se com o que há de mais conservador, dogmático, retrógrado, intolerante e, infelizmente, seguindo um caminho oposto àquele de quando do seu desembarque.

Allan Kardec, discípulo de Pestalozzi e um educador visionário, tinha um olhar progressista da justiça social. Defendia uma educação gratuita de qualidade e a luta pela emancipação das mulheres. Altruísta, dotado de poderoso senso crítico e espírito investigativo, estava sintonizado com os debates filosóficos de seu tempo.

Poderíamos afirmar ousadamente que, se Kardec vivesse nos dias de hoje, em vez de “fora da caridade não há salvação”, teria cunhado a expressão “fora da justiça social não há salvação”, muito mais ampla, mais dialógica e mais próxima da noção cristã de equidade.

Em tempos nebulosos como o atual, é necessário defendermos o óbvio, disputando narrativas e retomando os passos do mestre. Desta forma, nós, os espiritas progressistas (há quem defenda que são termos redundantes) temos a importante, didática e amorosa tarefa de vencermos o aspecto conservador que tem crescido no Brasil e dentro das comunidades de fé – ou puxado por elas.

O conservadorismo, ao ser guiado por sensos de certo e errado tidos como absolutos, é antagônico ao espiritismo. Nele, não há espaço para o relativismo moral: para o conservador, o fim jamais justifica os meios.

Entre as principais características do pensamento conservador estão a atitude negativa em relação à mudança social, uma visão desesperançada e pessimista da natureza humana e a fé na correção moral e política de atitudes e crenças.

Assim, é estranho constatar que boa parte dos brasileiros defenda uma espiritualidade autêntica e, ao mesmo tempo, contente-se em admirar ideologias que só servem para atender a interesses materiais de uma minoria, conservar a exclusão e condenar aqueles diferentes dos padrões tidos como “corretos”.

Nossa luta por um movimento espírita progressista afirma um profundo respeito e um necessário compromisso em contribuir para se assegurar a dignidade de todos, repudiando qualquer tipo de preconceito e discriminação, dentro ou fora das casas espíritas, que se utilizam de argumentos pseudoespirituais (e pseudocientíficos também) para oprimir, violentar, excluir e estigmatizar.

O espiritismo pode ter um papel fundamental na superação das intolerâncias, cumprindo sua missão de agente transformador, encampando discursos de acolhimento e amor, respeitando a diversidade, respeitando as orientações sexuais e identidade de gênero, combatendo o racismo, o machismo e apoiando a luta de classes.

Agindo assim, estabeleceremos uma sociedade mais justa e mais diversa, uma casa comum onde todos possam viver bem e tenham acesso aos seus direitos, livres de preconceitos e discriminações.

Kardec afirma na questão 803 do Livro do Espíritos: “Todos os seres humanos são iguais perante Deus? E a resposta é Sim, todos tendem para o mesmo fim e Deus fez as suas leis para todos/as. Dizeis frequentemente: ‘O Sol brilha para todos/as’, e com isso dizeis uma verdade maior e mais geral do que pensais”.

 

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